dm_0903_thomas1Nascido no Rio de Janeiro no dia 30 de outubro de 1963, o piloto Thomas Erdos (foto) é um dos mais significativos exemplos de persistência e de luta por uma carreira no automobilismo. Correndo na Europa desde 1988, ele teve momentos muito importantes, inclusive com a conquista do título britânico da Fórmula Renault, em 1990. Mas ao mesmo tempo em que aquela vitória lhe colocou muito próximo de realizar o sonho da Fórmula 1, viu-se em seguida com enormes dificuldades, situação que faria qualquer um desistir.

Entretanto, esse piloto que começou a competir na Inglaterra de Fórmula Ford foi em frente, encontrou alternativas para a continuidade e detém o bicampeonato na prova 24 Horas de Le Mans, na categoria LMP2, além de performances competitivas na Le Mans Endurance Series.

Nessa entrevista concedida na Inglaterra (na cidade de Birmingham), Thomas Erdos contou um pouco de sua vida, detalhou as agruras e os momentos de quase desespero mas, sobretudo, como buscou driblar os obstáculos para se tornar um respeitado piloto profissional brasileiro no competitivo e sofisticado mundo do Sportscar e do FIA GT.

Essa longa entrevista foi feita por mim e publicada originalmente na Motorsport Brasil, a revista oficial da Confederação Brasileira de Automobilismo. Destaco aqui os pontos marcantes que dever servir de alento e luz para todos aqueles profissionais brasileiros maravilhosos, espalhados pelo mundo, que hoje sofrem com a falta de patrocínio, mas que, como dizia Gonzaguinha, essa rapaziada “segue em frente e segura o rojão”:

Thomas Erdos: 21 anos de muita luta no automobilismo europeu
Thomas Erdos: 21 anos de muita luta no automobilismo europeu

O que aconteceu após a conquista do Britânico de Fórmula Renault?

THOMAS ERDOS – Quando ganhei o campeonato britânico de Renault, estava com 26 anos. Na verdade, já era considerado um pouco velho, mas estava bem fisicamente e com bastante ambição de chegar a Fórmula 1. Quando ganhei o campeonato, tinha muita gente aqui na Inglaterra que achava que eu poderia chegar a Fórmula 1 por mérito. Um dos prêmios pelo título foi um teste de Fórmula 3000 pela equipe do Nigel Mansell.

Quando fiz esse treino, em Donington Park, fui o mais rápido e o Nigel Mansell deu uma entrevista na televisão inglesa, a ITV, dizendo que eu seria um campeão da Fórmula 1 no futuro. Senti que aquilo tudo estava muito forte e que não poderia deixar de lado. Isso foi em novembro de 1990. Voltei ao Brasil e marquei encontros com várias pessoas para conseguir patrocínio. O teste tinha sido realmente muito bom e o Nigel Mansell me convidou para correr pela equipe dele no ano seguinte, na Fórmula 3000.

Fiquei muito empolgado e no Brasil eu falei com todo mundo, inclusive com o Flávio de Andrade, da Souza Cruz. Naquela época consegui o patrocínio da Hollywood e três pilotos conseguiram esse patrocínio. Era o Christian Fittipaldi, o Oswaldo Negri Jr. e eu. Não era um grande patrocínio, mas o suficiente para voltar à Europa e andar de Fórmula 3000 ou pelo menos de Fórmula 3. Era um bom start. Voltei super animado, já trabalhando para a temporada, até que no dia 26 de janeiro de 1991 – nunca me esqueço disso – meu irmão me liga e avisa que a Hollywood havia cortado o patrocínio totalmente por causa da Guerra do Golfo, que havia estourado.

MB – E qual foi a solução para isso?

THOMAS – Quando o patrocínio caiu, eu já estava aqui na Inglaterra falando com as pessoas e fiquei a zero. Não tinha nada porque era a única coisa certa que eu tinha. Fiquei a zero mesmo porque a minha família não tem dinheiro, não tem conexões. Fiquei sem nada, nada, nada.

Como tinha um certo nome, recebi o convite de uma equipe recém-formada de Fórmula 3. Fiz esse treino em fevereiro e me deram um contrato para correr a Fórmula 3 britânica. Quer dizer, ia correr de Fórmula 3. Os carros eram os Ralt da Paul Stewart Racing, que eles compraram. Não era a minha primeira escolha, mas era uma boa chance que surgia e teria uma temporada pela frente. Só que, uma semana mais tarde, recebo o telefonema de um amigo aqui na Inglaterra e ele me avisa que a equipe fechou as portas. Tiraram os carros deles, pois a equipe faliu sem ter começado o campeonato. Aí não teve jeito. Já era março, não tinha nada. Essa foi a pior coisa que poderia ter acontecido para mim. E 1991 foi, sem dúvida, o meu pior ano.

Quer dizer que imediatamente após o melhor ano, veio o pior.

THOMAS ERDOS – Exatamente, do melhor justamente para o pior, de um ano para outro. Fiz uma corrida de Fórmula Renault de novo, para ajudar a acertar um chassi que não estava andando bem, mas foi apenas isso. Nada.

MB – Nessa época, como era a vida aqui?

THOMAS – Difícil, trabalhando na escola de pilotagem para ganhar um pouco de dinheiro. Meu visto também acabou e eu tiver de sair do país para voltar de novo. Tinha esses problemas. Era a única maneira que tinha de sobreviver. Passei alguns momentos difíceis. O meu ano de 1991 foi isso aí e a coisa começou a degringolar porque passei um ano sem correr em coisa séria. Então, as pessoas começam esquecer e outras passam a andar bem. E eu totalmente sem dinheiro, lutando para sobreviver apenas. Na verdade, nunca tive dinheiro. As corridas que fiz era porque eu trabalhava para as equipes, o pessoal me dava algumas oportunidades. Minha carreira sempre foi isso. Nunca paguei um tostão para ninguém não porque não queria, mas porque não tinha.

Thomas Erdos e o MG Lola LMP2: bicampeões na 24 Horas de Le Mans
Thomas Erdos e o MG Lola LMP2: bicampeões na 24 Horas de Le Mans

Com tantos problemas um atrás do outro, como você conseguiu retomar uma carreira mais regular?

THOMAS ERDOS – Foi um telefonema, que veio assim do nada. Entre 1991 e 1995, fui fazendo umas provas de Fórmula Renault ou treinos porque as equipes me convidavam. Ou Fórmula 3. Fiz duas corridas na classe B e ganhei as duas. Então, era uma coisinha aqui, outra ali. Foram quatro anos tentando salvar a carreira. Tinha chegado tão perto de alguma coisa legal, que não queria deixar isso. Minha teimosia de querer correr pesou muito na decisão de ficar.

Teve momentos, durante esses quatro anos, em que você pensou em largar tudo e, por exemplo, vender seguros no Brasil?

THOMAS ERDOS – No mínimo umas 20 vezes! Tive períodos, com toda honestidade, de total depressão. Eu estava fora do Brasil há muitos anos, mas você não se importa muito com isso quando as coisas estão indo bem, mas quando as coisas estão indo mal, você sente falta da família, esse clima horrível daqui pesa mais ainda. Fica tudo ruim ao cubo. Só a frustração de não ter alcançado aquilo que eu achei que merecia alcançar já era enorme. Lutei naquilo que podia, mas não consegui.

Não importa você falar com todo mundo e as pessoas quererem que você ande. Chegando num estágio de Fórmula 3 ou Fórmula 3000, a coisa é tão violenta que, na minha situação, é quase impossível. Como eu ia achar meio milhão de dólares? Nunca corri no Brasil, não tenho conexão de patrocínio no Brasil. Seria óbvio para um brasileiro conseguir patrocínio no Brasil, mas sou muito mal conectado para isso lá. Aqui, pelo menos, eu conseguia alguma coisa. Andei no principal campeonato britânico de Fórmula Renault sem pagar um tostão. Isso porque o dono da equipe investiu em mim, pois achou que com isso poderia ganhar o campeonato. E ganhamos o campeonato! Então, foi um bom investimento para ele também. Mas na Fórmula 3 era muita grana.

Eu teria de ter no mínimo US$ 100.000 para tentar alguma coisa, mas não tinha conseguido nem US$ 5.000. Então, fiquei com aquela frustração de uma maneira muito grande. Como fiquei parado em 1991, para 1992 foi pior ainda. O que tinha para mostrar de 1991? Nada! Aquilo foi me moendo por dentro e sem condição de fazer nada para melhorar.

E a história do telefonema?

THOMAS ERDOS – Foi uma pessoa chamada Chris Hodgetts, um inglês que é campeão britânico de Touring Car, mas há muitos anos atrás, e o conheço da escola de pilotagem, pois ele também trabalhou lá como instrutor. Em 1994 e 1995 ele esteve envolvido com um chassi chamado Marcos. Um carro GT de um programa para correr em Le Mans na categoria GT. Os três pilotos iam ser o Chris, Ian Lammers e Andy Wallace. Mais ou menos em março o Andy Wallace recebeu um convite para andar com a GT1 McLaren. Ele saiu da Marcos e tinha um lugar aberto no carro para Le Mans. Confesso que nunca tinha sequer pensado em Le Mans. Ainda estava pensando como fazer para correr de Fórmula 3, essas coisas. Era março de 1995, eu não tinha nada, e o Chris me perguntou: “Tommy, você quer fazer Le Mans?”. Eu levei um segundo para pensar e respondi: “Claro!”. Foi marcado um teste na semana seguinte. Fui a Snetterton, dei 12 voltas, os caras gostaram e fui para Le Mans. Em junho de 1995 estreei em Le Mans.

O novo MG Lola carenado, que Thomas Erdos utilizará na temporada 2009 do Le Mans Series e na 24 Horas de Le Mans
O novo MG Lola carenado, que Thomas Erdos utilizará na temporada 2009 do Le Mans Series e na 24 Horas de Le Mans

Aí começou a carreira em GT.

THOMAS ERDOS – Como a equipe gostou da minha atuação em Le Mans, fui convidado para fazer o restante do Britânico de FIA GT para ajudar o Chris Hodgetts a ganhar o campeonato, que ele estava liderando, e tirar pontos de outros pilotos. E foi o que eu fiz, não podia vencer o Chris. Podia fazer a pole, o que consegui fazer em todas as provas. Numa corrida em Oulton Park, apesar do Marcos ser um carro GT2, eu fiz a pole na geral. Então, quando fui falar com a equipe, os caras me disseram que eu poderia liderar até receber uma placa P2. Quando isso acontecesse, teria de deixar o Chris passar. Liderava na geral, abri 30s, e na última volta eles mostraram a placa. Não era o que a gente tinha combinado, mas mesmo assim tirei o pé, todo mundo me passou e o Chris encostou atrás de mim e não passava. Eu dava passagem e ele não passava. Fomos assim na última volta e cruzei na frente dele. Quando acabou a corrida, voltamos para os boxes e o Chris disse que não se sentiu a vontade para me passar porque eu havia guiado muito bem e não merecia perder a prova. Mas a gente tinha combinado e eu joguei fora uma vitória geral. Ainda venci na categoria, mas poderia ter vencido na geral. Mas depois dessa prova eu ganhei a participação em 1996 no Mundial de FIA GT. O patrocinador da equipe Marcos, uma empresa chamada Computer Center, patrocinou esse carro para um holandês e a empresa foi a responsável da minha entrada na equipe. Assim, 1996 formou minha imagem como piloto de GT.

Visite o site oficial de Thomas Erdos:

http://www.thomaserdos.com

Fotos MG Lola

3 COMENTÁRIOS

  1. Entrevista espetacular

    Thomas Erdos provou não desistir fácil do automobilismo. Apesar das dificuldades financeiras e a falta de apoio para chegar na F-1, encontrou um caminho interessante, pilotando carros de alto desempenho com tecnologia de ponta.

    Aos amigos do automobilismo que saíram em busca de apoio, sabem da dificuldade de conseguir patrocínio, hoje passo pela mesma dificuldade que Thomas passou, busco apoio de empresas para entrar em competições de kart de auto-nível (Paulista e Brasileiro), mas a resposta é padrão “Agora em época de crise estamos cortando gastos”.

    Essa história é um exemplo de luta e coragem, onde o conforto de uma vida “normal” foi reivindicada em busca de um sonho maior, a paixão por correr de carros.

  2. Americo,

    Eu agradeco muito a minha materia e devo parabenizar voce por esta materia tao boa. Acho que hora de o povo brasileiro que gosta de automobilismo saber de historias como esta.

    Eu tive o imenso prazer de conhecer o Thomas aqui na Inglaterra e fiquei surpreso com a simpatia e prontidao e conversar e aconselhar pois como voce e os leitores do site sabem as historias sao similares.

    Agora seria interessante que o Brasil apoiasse historias como esta e pilotos como o Thomas e eu e outros que possam existir por aqui.

    E muito bom ler materias como essa.

    VAleu Thomas! VAleu Americo

    Adriano Medeiros

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here