Por Americo Teixeira Jr. – A Europa estava às vésperas da Segunda Guerra Mundial quando Tamas Rohonyi nasceu em Budapeste, na Hungria, no dia 16 de novembro de 1938. Quando a família optou por deixar o país natal, o Brasil acabou se tornando uma escolha natural, visto a presença de parentes desde os anos 20 por aqui. Naturalizado brasileiro em 1957 e com vasta carreira como publicitário, é ele quem organiza o Grande Prêmio do Brasil desde 1979 e, agora, à frente da International Publicity, ultima os detalhes desta 36ª etapa brasileira do Mundial sob seu comando.

Aos 76 anos e liderando um time que ele define como sendo de “malucos”, Tamas Rohonyi recebeu a resportagem do Diário Motorsport na sede da empresa, no bairro do Morumbi, em São Paulo (SP), na quarta 8. Falou sobre os diversos aspectos que compõem a organização de um evento desse porte, que no momento de pico envolve o trabalho de aproximadamente 9.000 pessoas. Além disso, revelou como tem sido o relacionamento com as diversas administrações municipais e a CBA, da mesma forma de defendeu Felipe Massa de forma veemente, por considerá-lo um dos melhores pilotos do mundo. E cravou: “Tenho certeza absoluta que ele será campeão mundial” (CLIQUE AQUI E VEJA O VÍDEO).

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Tamas Rohonyi na sede da International Publicity (Foto Americo Teixeira Jr. /Diário Motorsport)

Diário Motorsport – Qual a diferença da International Promotion, ligada à Globo, para a atual International Publicity?

TAMAS ROHONYI – A equipe de organização é a mesma, mas por quatro anos a empresa fez parte das Organizações Globo. Significa que a responsabilidade financeira pelo evento era das Organizações Globo, que operava através da International Promotion. A partir desse ano, a organização do evento saiu do prédio da TV Globo, veio para esse novo escritório e mudou a composição acionária da empresa também. Saiu a TV Globo e entrou um outro grupo.

DM – Então, a responsabilidade financeira do evento deixou de ser da Globo para voltar a ser da empresa organizadora.

TAMAS – Sim

DM – Como são os contratos que regem o GP?

TAMAS – Na realidade, os contratos são assim. A Formula One Management (FOM) tem um contrato com a International Publicity, que chama Promoter’s Agreement. Esse é o acordo que rege o relacionamento da empresa promotora com a FOM. A empresa promotora, por sua vez, tem um contrato com a Prefeitura Municipal de São Paulo, que é proprietária do autódromo. E há um outro contrato, em separado, da FOM com a Rede Globo, que são direitos de transmissão, apenas.

DM – Quanto custa o evento?

TAMAS – Por volta de US$ 65 milhões, com responsabilidade financeira 100% do promotor.

DM – Isso é caro ou barato?

TAMAS – Esse valor é basicamente o que se pratica nas outras provas.

DM – De onde vem a receita para cobrir tudo isso?

TAMAS – Venda de ingressos, áreas de hospitalidade (Hcs) e algumas propriedades de placas de pista também. A maioria das propriedades é da FOM, mas no nosso caso temos algumas. A Petrobras, por exemplo, é nossa.

DM – Qual é o tamanho da equipe de organização?

TAMAS – Fixos, nesse escritório, temos 28 pessoas. Fora disso, temos mais ou menos outras 30, que são empresas contratadas com exclusividade por nós, mas por serem especialistas não precisam estar dentro desse escritório: engenharia, segurança, manipulação de ingressos, esse tipo de coisa. Agora, no mês do GP, esse número rapidamente vai subindo e chega a 9.000 pessoas.

DM – O fato de as instalações de Interlagos serem antigas interfere nesse número de pessoas?

TAMAS – Sem dúvida. Utilizamos o dobro de gente que seria normal em um evento como esse em outro país, com um autódromo novo.

DM – Qual é o grande pecado de Interlagos?

TAMAS – Não é bem um pecado, mas Interlagos é uma propriedade do município de São Paulo e como o nosso automobilismo é bastante pobre e o número de provas automobilísticas não ocupa toda a disponibilidade do autódromo, a prefeitura usa Interlagos também para outros eventos, shows, reuniões, maratonas etc. Em si, isso não seria problema se Interlagos tivesse uma administração mais completa. A maioria dos autódromos, ou talvez até a todalidade de autódromos de Licença A, ou seja, para eventos internacionais, que não são tantos no mundo, tem uma estrutura própria: comissários, ambulância, equipe médica, resgate. Tudo isso é fixo do autódromo. Isso não existe aqui, então, na verdade Interlagos é um “palco vazio” que é utilizado para várias coisas e, às vezes, o uso que não seja para fins automobilísticos, que são os grandes shows, por exemplo, deixam marcas no autódromo. E quem mexe com automobilismo sabe disso perfeitamente. Você não pode colocar 90.000 pessoas para um show de música popular e esperar que a grana não esteja destruída, que os banheiros estejam em ordem e por aí vai. E a própria localização do autódromo, dentro da cidade, não facilita as coisas.

Muitos dos Brasileiros Nota 10 do Automobilismo brilharam em Interlagos em 2009 (Foto Brawn GP)
Foto aérea do Autódromo Municipal José Carlos Pace (Foto fornecida por Brawn GP)

DM – O que determina o preço do ingresso, que é considerado caro?

TAMAS – Não é propriamente caro, é igual a outros eventos. Tem de tomar um pouco de cuidado com esse negócio. Nosso câmbio está defasado. Então, se você pega quanto custa o ingresso do GP da Rússia ou quanto custa na Itália, possivelmente o nosso preço é ligeiramente maior por causa da defasagem do câmbio. Se o câmbio fosse mais realista, provavelmente seria a mesma coisa.

DM – Essas duas fases de reforma em Interlagos são satisfatórias para a Fórmula 1?

TAMAS – 100%. Interlagos, na realidade, é um autódromo clássico. É um dos melhores do mundo talvez em traçado, em pista. É muito interessante e permite ultrapassagens. É um autódromo que facilita provas interessantes. Onde Interlagos é fraco é em infraestrutura, pela idade apenas. É um autódromo muito antigo. Mas com a reforma da pista nesse ano, que já está sendo concluída, e a do ano que vem, com o novo complexo de box, eu acho que Interlagos vai estar entre os melhores autódromos do mundo. É claro que não se pode comparar autódromos clássicos, antigos, com essas obras artificiais dos últimos quatro, cinco, seis anos. Não tem como comparar Abu Dhabi com Brasil. É outro país, outra história, outros valores, outros recursos. Mas, dentro daquilo que é a realidade brasileira, é um excelente autódromo.

DM – Qual a sobrevida no calendário que Interlagos vai ganhar com essa reforma?

TAMAS – O nosso contrato vai até 2020 e é renovável. A nossa intenção é levar até 2040.

DM – Alguma coisa pode comprometer o cumprimento desse contrato até 2020?

TAMAS – Absolutamente nada. Os recursos existem, especificamente designados para esse trabalho. Então, vai acontecer.

DM – O GP é lucrativo?

TAMAS – O Grande Prêmio do Brasil, como todos os GPs, se mantém com muito esforço empatando, zero a zero. Aí existem vários fatores. O fator principal é que Interlagos é um autódromo pequeno. A capacidade é por volta de 63.000 pessoas. Então, para um evento que tem esse custo elevadíssimo ser minimamente rentável deveria ter capacidade para 100.000, 120.000 pessoas, que outros autódromos têm. Mas Interlagos é pequeno e não tem muita possibilidade aumentar isso.

DM – Como é o relacionamento da empresa promotora com a administração Fernando Haddad?

TAMAS – Excelente, a melhor possível. Aliás, nós tivemos bom relacionamento com todas as administrações, desde a Erundina, que trouxe de volta o Grande Prêmio para São Paulo, e também os outros: Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab e essa agora. Sempre excelente o relacionamento.

DM – Os estilos diferentes de administração interferem no modelo da organização?

TAMAS – Não. Todo mundo na adminstração municipal e estadual entende a importância do evento para a economia de São Paulo, do Estado e para o Brasil.

DM – O seu primeiro Grande Prêmio do Brasil foi em 1979 e de lá para cá tudo mudou na Fórmula 1, menos o presença do Bernie Ecclestone. Como é trabalhar com esse homem?

TAMAS – É facílimo. Ele é uma pessoa pragmática, sabe de tudo, tem enorme experiência no mundo de Fórmula 1, em organização de eventos, reconhece as dificuldades, tanto é que o Grande Prêmio do Brasil ganhou por duas vezes o troféu Bernie Ecclestone, que é dado para o promotor do evento que realiza o trabalho em condições mais difíceis. E aqui as condições são difíceis.

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Cláudia Ito, diretor executiva do GP do Brasil, recebe de Bernie Ecclestone o troféu pela melhor prova de 2013 (Foto fornecida por FIA Media)

DM – Sua equipe é premiada, você já falou. Quais os critérios que você usa para selecionar os membros?

TAMAS – Temos um critério muito rigoroso. O primeiro é que a pessoa que gosta de automobilismo não serve, porque ele quer assistir corrida. Segundo, que de preferência não saiba de nada porque todos os nossos principais colaboradores chegaram aqui com 17, 18, 19 anos e a maioria – se não a totalidade – teve esse como o seu primeiro emprego e continua aqui. São pessoas criadas e treinadas aqui dentro da nossa cultura.

DM – O que lhe falta ainda cumprir como promotor?

TAMAS – Esse é um trabalho que não tem fim. Bernie Ecclestone usa uma frase interessante. Ele diz que organizar um evento como esse é como organizar um grande show de fogos de artifício. Então, você não vai saber se funciona enquanto não apertar o botão. E se não funciona não tem mais o que fazer. Sempre é um desafio, não é uma coisa tranquila, não.

DM – O que tem emociona ainda nesse trabalho?

TAMAS – Eu acho emocionante, em todos os GPs, quando no domingo por volta do meio dia, olho aquele autódromo montado, colorido, cheio de gente, equipamentos no lugar, a prova para começar em poucos minutos e aí eu digo: “Puxa vida, nós somos uns malucos, mas conseguimos fazer algo que realmente é uma tarefa complicada”.

DM – Ainda nesse ponto. Aconteceu alguma coisa que o levou às lágrimas?

TAMAS – Não!

DM – Por que?

TAMAS – Eu não sou tão emotivo, não. É um trabalho. Como já disse, nós trabalhamos com pessoas cuja paixão é o automobilismo. A nossa paixão é fazer um trabalho complicado bem feito. Então, a expressão que eu uso sempre é que nós trabalhamos na “cozinha”. Quando alguém diz: “olha, que festa maravilhosa, comidas maravilhosas, pessoas bem vestidas”, eu digo: “cara, não sei, eu estou na cozinha trabalhando”.

DM – Como é que você consegue se blindar de eventuais assédios políticos?

TAMAS – Eu não sou uma pessoa muito visível, não circulo muito por aí, tenho uma vida muito simples. Eu nunca senti absolutamente nada desse tipo.

DM – Como você vê o Felipe Massa hoje na Fórmula 1?

TAMAS – Eu acho que o Felipe Massa é uma pessoa injustiçada. Excelente piloto. Faltaram duzentos metros para ser campeão do mundo e não é fácil ser campeão do mundo em Fórmula 1. Teve um acidente infeliz; eu coincidentemente estava na Hungria e vi esse acidente acontecer. Milagre que ele se recuperou tão bem e continuar correndo muito bem, competentíssimo. Eu tenho convicção absoluta que o Felipe vai ser campeão do mundo. Quem sabe até na Williams no ano que vem, né? Em Fórmula 1, tem uns sete ou oito pilotos excepcionais e o resto é apenas muito bom. E o Felipe é excepcional. Entre esses excepcionais a diferença é muito pequena. Alguém pode dizer: “puxa, mais o Bottas chega na frente dele”. É um milésimo, dois milésimos. E na outra corrida o Felipe chega na frente dele três milésimos. Então, não existe uma diferença realmente grande ou até significante entre esses seis, sete, oito pilotos que são excepcionais. Eu considero o Felipe como um deles.

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Para Tamas Rohonyi, Felipe Massa está no seleto grupo dos melhores do mundo (Foto fornecida por Williams F1)

DM – Qual é hoje o relacionamento e a participação da CBA no evento?

TAMAS – O relacionamento com a CBA é o melhor possível porque a CBA não participa da organização, da montagem do GP. Isso é de comum acordo com o Cleyton Pinteiro. As pessoas que atuam nessa área sabem que a CBA não tem uma estrutura técnica como tem em outros países as autoridades desportivas nacionais, as chamadas ASN. Isso por causa do país, das limitações da economia, da própria história da CBA. A própria extensão territorial não permitiria que a CBA fosse uma organização com estrutura técnica para organizar grandes eventos. Isso não é uma crítica, é uma realidade da CBA e não pode ser atribuída a um ou outro presidente. Então, dentro dessa realidade, a CBA nos dá apoio quando a gente pedir ou quando for necessário. Raras vezes a gente pediu uma coisa dessas. Nós pretigiamos a CBA, convidamos seus diretores e seus convidados para o GP, que é um custo muito elevado, mas é o que nós fazemos. Fora isso, é um relacionamento muito restrito.

DM – Como é montada a equipe de trabalho para o Grande Prêmio?

TAMAS – A equipe é totalmente montada pela organização pelo simples motivo de que para operar um GP, hoje, você precisa de gente treinada, constantemente treinada de forma consistente e profissional. A CBA não tem esse quadro de oficiais e técnicos. Tem, obviamente, pessoas que participam na administração de alguns eventos nacionais, mas o padrão é outro. Não é de Stock Car, não é de caminhões, você sabe disso muito bem. Acabamos de comprar, por exemplo, um equipamento de treinamento médico, que vem da Europa e que custa uma pequena fortuna, só para treinar o pessoal de resgate em como retirar o piloto de um carro de Fórmula 1. É um equipamento específico para a Fórmula 1. Isso tem de ser feito por nós porque a CBA não tem condições financeiras e físicas.

2 COMENTÁRIOS

  1. Chegando tarde ao assunto, mas…se o Tamas tá na cozinha fritando batatinha, como ele pode dizer que o Massa é assim ou … assado!?
    Que a Ferrari o fritou por anos todo mundo sabe, mas nos anos de Sauber foram sofríveis!
    Acabou ficando um post culinário XD

  2. Excelente reportagem @Américo! Parabéns!!
    Quanto ao que TAMAS disse sobre o Massa, bem… opiniões a parte, eu o considero muito bom, mas não excepcional. Porque também não creio que tenhamos entre 6 e 8 pilotos excepcionais no grid…
    Mas isto é apenas uma discordância minha, apenas minha humilde opinião.

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