A visão estratégica e capacidade de investimentos credenciam o fundador da Penske Corporation a reinventar o automobilismo de monoposto nos Estados Unidos e, se funcionar, até além de suas fronteiras

Por Américo Teixeira Junior *

Matéria publicada originalmente no Grande Prêmio de 05.11.2019

Há vários anos o filho de Roger Penske, Gregory, está em formação para sucedê-lo (Fotos IndyCar Media)

Pessoas do entorno de Roger Penske já conhecem a brincadeira. De vez em quando alguém chega para esse norte-americano de cabelos brancos, natural do estado de Ohio, e diz: “Roger, eu não sei o que você toma, mas eu quero também”. Se ele toma algo, não diz, mas é fato que a vitalidade física e mental já virou lenda e é invejável. “O cara é incrível, dá até vergonha de se sentir cansado perto dele”, disse Gil de Ferran sobre o ex-patrão, que ontem anunciou a aquisição das operações de Motorsport da Hulman & Company. Os valores não foram divulgados, mas é difícil imaginar qualquer coisa abaixo dos bilhões de dólares numa compra que tem o Indianapolis Motor Speedway, a série IndyCar, a produtora IMS e o Museu de Indianapolis como as principais estrelas do pacote.

Oficialmente, a nova proprietária é a Penske Entertainment, empresa que abre uma nova aba do vasto leque da Penske Corporation, já composto pelos setores automotivo (concessionárias de carros, caminhões e serviços de frotas), transporte (os famosos caminhões amarelos), logística (armazenamento e distribuição), industrial (fabricação de motores de alta performance e navais na Ilmor, iluminação de segurança e acessórios para veículos industriais e caminhões) e o de corridas. Para que tudo isso funcione, 64 mil pessoas respondem “Roger Penske” quando perguntadas “quem é seu chefe?”. Só para fazer um paralelo, isso é mais do que toda a força de trabalho da Petrobras em 2018, segundo dados da própria empresa brasileira. A estes se somam agora os cerca de 260 profissionais que fazem parte do IMS e suas coligadas. Essa multidão está espalhada por quase 4 mil instalações em vários países, inclusive o Brasil, gerando receita de US$ 32 bilhões, em números do ano passado.

Operação de salvamento

Recém agraciado por Donald Trump com a Medalha Presidencial da Liberdade, Roger Penske não gosta de falar do passado. Gentil, até sacia a curiosidade de algum jornalista sobre seus tempos de team owner na Fórmula 1 ou os primórdios da Indy. Mas a conversa encontra um entusiasmado interlocutor quando a pauta é sobre o futuro, mesmo soando estranho tal perspectiva partindo de um octogenário.

Isso acontece porque Roger Penske pensa os negócios e a vida para além dele próprio. Viciado em novos negócios e sempre atento às oportunidades, sabe que a pessoa física tem prazo de validade, não a marca. E é por essa marca e tudo o que ela representa que vai seguir trabalhando. E trabalho é o que não falta nessa nova empreitada, principalmente aparenta ser menos uma oportunidade de negócio e mais uma operação de salvamento.

É uma lógica bastante simples. De nada adianta um promotor de campeonato ser próspero se as equipes não conseguem passar do estágio da luta pela sobrevivência. O oposto é igualmente verdadeiro. Uma equipe vencedora tem seu horizonte estreitado se a competição na qual colhe louros está em dificuldades. Ainda, tudo corre o risco de virar pó se o negócio, propriamente dito, está na descendente. Essa é a marca principal dessa operação, a do oferecimento de garantias para a manutenção do negócio.

Nesse sentido, embora não existam números claros que evidenciem problemas financeiros da Hulman & Company, há indicativos de que eles são reais, principalmente quando se sabe que “joias da coroa” estão sendo vendidas. Ou, pelo menos, a capacidade de gerenciamento se esgotou ou está sendo reformulada.

Fermento fez o “bolo” crescer

Fundado em 1850 como fornecedor de produtos de panificação no atacado, tabaco e bebidas, o crescimento da Hulman & Company resultou na entrada no mercado varejista com fermento em pó, amido de milho, bicarbonato de sódio, mistura para bolo e mais uma ampla gama de produtos disponíveis nos supermercados dos Estados Unidos, principalmente. A diversificação do grupo – que incluiu órgãos de comunicação e hotéis – para o setor de Motorsport só viria a acontecer em 1945, quando Anton Hulman Jr. comprou o Indianapolis Motor Speedway. Reformou-o por completo, abandonado que estava, e voltou a realizar as corridas, interrompidas em razão da Segunda Guerra Mundial.

Foi mais um ato de ousadia do ex-membro da Cruz Vermelha durante a parte final da guerra de 1914-1918. Antes de virar dono de autódromo, desenvolveu agressiva campanha de popularização do principal produto da empresa da família, o fermento em pó Clabber Girl, que se tornou popular no país inteiro. A venda da quase secular marca (é de 1923) no início desse ano, por US$ 80 milhões, acendeu a luz amarela quanto ao futuro do grupo. Tempos bem diferentes do que aqueles quando Anton assumiu a presidência da Hulman & Company em 1946, após a morte do pai. A dirigente, falecido em 1977, seguiram-se a filha Mari e o neto Tony George, a quem coube liderar a operação de transferência do IMS para Roger Penske.

Em razão do gigantesco negócio que acaba de fechar, Roger não fará o que mais ama, que é comandar a estratégia de corrida

E agora, Roger?

Salda dentro e fora dos domínios da IndyCar, a aquisição, mesmo que não verbalizada, coloca na mesa a questão ética do conflito de interesse. O problema está posto, uma vez que soa desconfortável o organizador de um campeonato ter equipe própria dentre os competidores. Mas Roger Penske deu como garantia de lisura o seu bem mais precioso, a credibilidade. Não é possível afirmar, sem inimaginável pesquisa, se sempre foi assim. Mas o testemunho recente é de que 10 em cada 10 pessoas que se relacionam com Roger Penske se apaixonam por ele. É esse patrimônio o garantidor.

Em adição, abriu mão de algo que ama absoluta e incondicionalmente, que é comandar seus pilotos no pit. Para fazê-lo, já voou milhares de quilômetros num mesmo fim de semana de corridas compartilhadas, só para estar no pit durante as corridas. Salvo obrigações de pódio, sai de fininho após a quadriculada e corre para outro lugar a bordo de algum avião da “Penske Air”, apelido dado à frota que atende o grupo como um todo. Mas, paciência, terá tanto o que fazer quem nem terá tempo para sentir falta disso. E o trabalho já começou.

De posse da propriedade, não se deve esperar mudanças dramáticas a curtíssimo prazo. Não é esse ao seu estilo. Um verdadeiro exército de analistas e especialista já está debruçado sobre todos os detalhes. Só depois disso as mudanças, profundas, acontecerão. Certo é que Roger Penske não assumiria essa tarefa para deixar tudo como está, muito menos se afastar de uma paixão pessoal por nada. A necessária operação de salvamento da pista e do campeonato está completa. Agora, começa a de relançamento e com prazo de validade indeterminado.

*Dados históricos pesquisados nos sites do Indianapolis
Star, IMS e Hulman & Company

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