Histórico jornalista faleceu nesta quinta-feira, 10, aos 93 anos
Por Américo Teixeira Jr.
Partiu hoje Claudio Carsughi.
Aos 93 anos, ele descansou, mas deixou uma obra gigantesca que é difícil de classificar. Para alguns, foi o Carsughi do futebol; para outros, Carsughi do automobilismo; era também o Carsughi ás da indústria automobilística. Sim, não estão erradas as segmentações, porém, ele era um Jornalista (assim mesmo, caixa alta e negrito). Culto, dominava quase tudo.
Para nós, que militamos no automobilismo, sua referência era tão intensa que, sem medo de errar, 10 entre 10 jornalistas que conviveram com ele foram premiados pelo seu conhecimento. Homem do mundo, gentil e generoso, dividiu conhecimento por onde passou.
Para mim, a mais afetiva e emocionada lembrança é a Rádio Jovem Pan, nas transmissões da Fórmula 1 com Wilson Fittipaldi e Claudio Carsughi. O texto abaixo, produzido por sua filha Claudia, resume toda a vida do seu pai e, excepcionalmente, publico na íntegra, pois me atrevo a editar.
Muito obrigado, Carsughi!

Hoje, às 07:44 meu pai partiu. Nascido em Arezzo, Italia, em 13 de outubro de 1932. Com cinco anos foi com a família para Firenze e lá nasceu a paixão pelo futebol e em particular, pelo time da Fiorentina. Após o fim da Segunda Guerra, em março de 1946, a família decidiu vir para o Brasil pois temiam uma terceira Guerra Mundial.
Chegaram ao Rio de Janeiro, onde ficaram por cerca de um mês, a bordo do navio Duque de Caxias, seguindo para moradia definitiva em São Paulo. A ideia inicial era permanecer por um ano aqui, mas com as consequências da Guerra a estadia se prolongou até que se tornou definitiva.
Ele então foi estudar num colégio italiano, o Dante Alighieri, onde ficou até entrar na faculdade de Engenharia Civil, a Poli (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo). Trabalhou por pouco tempo como Engenheiro, mas o Jornalismo já corria no seu sangue de uma maneira irreversível. E a explicação para a mudança ele dava de forma muito simples: “resolvi fazer aquilo que eu amava e nada melhor que passar a vida trabalhando, assim o trabalho virou prazer”.
Enquanto estudava, com 13 anos já escrevia textos para o jornal italiano Corriere dele Sport, para o qual se tornou correspondente pois meu avô tinha contatos na redação e a chegada dos textos dele foi muito bem-vinda. Surgiu a ideia de, em 1950, escrever contando como era a movimentação do povo aqui no Brasil em relação à Copa. Esse foi o início da carreira brilhante que ele construiu como jornalista.
No início dos anos 1950, meu pai trabalhou na Rádio Cultura de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Pouco depois, sua carreira no Rádio tomou uma dimensão maior. Em 1957, foi contratado pela Rádio Panamericana, em São Paulo, emissora que posteriormente se tornaria a Jovem Pan. Começou ligado ao futebol, mas rapidamente ampliou sua atuação. Em 1958, já comentava futebol, Fórmula 1 e assuntos relacionados à indústria automobilística.
A relação com a Pan foi interrompida algumas vezes ao longo dos anos, mas acabou se tornando uma das mais longas e marcantes histórias profissionais do rádio brasileiro. Entre 1960 e 1963, meu pai trabalhou na Rádio Bandeirantes. Depois passou pela Rádio Record e, quando a emissora deixou de transmitir futebol, voltou àquela que foi sua casa por mais de 60 anos, a Rádio Jovem Pan.
Na imprensa escrita, também construiu uma carreira, trabalhou na “Gazeta Esportiva” e, em 1965, foi convidado por Mino Carta para integrar a equipe do recém-lançado “Jornal da Tarde”.
Foi correspondente do “Corriere dello Sport”, da revista “Calcio e Ciclismo Illustrato” e, posteriormente, do “Tuttosport”. A partir de 1995, passou a colaborar também com o jornal italiano “La Stampa”, especialmente na cobertura da indústria automobilística e nesse momento surgiu mais uma vertente do que seria seu trabalho como jornalista além do futebol, a indústria automobilística. A partir daí o Jornalista e o Engenheiro se encontraram e seu conhecimento técnico proporcionou avaliar de uma forma absolutamente completa cada carro que chegava às suas mãos.
Seu primeiro grande teste automobilístico foi com a Romi-Isetta, em 1956, justamente no período em que a produção de automóveis começava a ganhar corpo no país. Testou e avaliou uma enorme quantidade de veículos produzidos no Brasil e no exterior. Em 1971 passou pela Editora Abril, trabalhando na revista “Placar”. Em seguida, em 1974, chegou à Quatro Rodas onde permaneceu por 25 anos.
Foi o primeiro jornalista a ver e testar o Gol da Volkswagen e também a se despedir dele e chutar a bola para a chegada do Polo. Entre 1974 e 1990, foi responsável pela área técnica e pela avaliação de automóveis da revista, tornando-se uma das figuras mais importantes da publicação. Foram anos de intenso contato com fabricantes, engenheiros, pilotos e profissionais da indústria automobilística e suas matérias eram sempre muito técnicas, pois naquela época o jornalismo exigia conhecimento e seriedade.
Cada número publicado sobre um carro era fruto de muitas medições, análise técnica, desempenho, comportamento dinâmico e comparação entre modelos.
Foi testemunha ocular da transformação da Indústria, dos primeiros automóveis à evolução dos motores, segurança, tecnologia embarcada até chegar aos dias de hoje com a eletrificação. Sempre foi fã dos carros com transmissão manual, pois dizia que não queria um computador pensando por ele na direção.
Quando foi desligado da Quatro Rodas, em 1990, imediatamente foi contratado pela Revista Oficina Mecânica onde pode continuar seu legado. A experiência adquirida durante décadas de contato direto com automóveis, fabricantes e profissionais do setor fez dele uma das vozes mais respeitadas da imprensa especializada brasileira. Embora o automóvel tenha se tornado uma de suas maiores marcas profissionais, meu pai nunca deixou de ser, também, um jornalista esportivo.
No rádio, participou de grandes coberturas de futebol e acompanhou cinco Copas do Mundo consecutivas como comentarista da Rádio Panamericana: 1970, 1974, 1978, 1982 e 1986. As melhores histórias desses momentos estão descritas em primeira pessoa na biografia que escrevi sobre ele : “Meus 50 anos de Brasil”. Também foi pioneiro no uso de estatísticas durante transmissões esportivas, algo que hoje parece absolutamente natural, mas que naquele período ainda era uma novidade. Foi, segundo ele, uma estratégia pensada pelo “seo Tuta”, presidente da Rádio Jovem Pan, para se diferenciar do senso comum das transmissões.
A cobertura das Copas do Mundo ocupou uma parte importante da vida profissional dele, acompanhou de perto diferentes gerações do futebol brasileiro e internacional, viajando, trabalhando e convivendo com jornalistas, jogadores, técnicos e dirigentes. A paixão pelo Campeonato Italiano permitiu que ele acompanhasse de perto e dividisse seu conhecimento também na Jovem Pan. O menino que começou escrevendo para um jornal italiano sobre o futebol brasileiro havia se transformado em um dos jornalistas brasileiros responsáveis por contar essas histórias para o público.
E havia a Fórmula 1
A partir do final dos anos 1950, meu pai passou a acompanhar e comentar o automobilismo internacional. Ao longo das décadas seguintes, esteve presente em grandes momentos da categoria, acompanhando pilotos, equipes, transformações técnicas e a evolução de um esporte que também mudaria profundamente.
Seu conhecimento técnico fazia com que seus comentários fossem diferentes. Ele não olhava apenas para o resultado de uma corrida. Procurava entender o carro, o motor, a estratégia, o comportamento do piloto e as circunstâncias que explicavam o desempenho.
Me lembro o dia fatídico da morte de Ayrton Senna que ele estava acompanhando de casa e, ao ver a batida correu para seu rádio de ondas curtas e ouviu a transmissão italiana. No momento em que a doutora do Centro médico anunciou a morte encefálica ele ligou imediatamente na Jovem Pan e disse que precisava entrar no ar e, sem titubear, afirmou categoricamente que nosso grande ídolo tinha partido. Foi o primeiro jornalista a dar a notícia que como ele dizia, jamais quis dar.
A paixão pela Ferrari e Maranello
Entre as muitas experiências que viveu como jornalista automotivo, algumas marcaram de um modo muito especial. Em 1992, meu pai foi convidado pela Ferrari para conhecer Maranello. Na pista de Fiorano, teve a oportunidade de testar uma Ferrari Testarossa. A experiência foi publicada na revista Oficina Mecânica, onde trabalhava naquele período.
Quase duas décadas depois, em 2011, por insistência minha para colher material para o livro, ele voltou a Maranello. Desta vez, fui com ele. A viagem teve um significado especial para mim, porque pude acompanhar meu pai em um lugar que fazia parte de sua história profissional e de suas paixões e aprender um pouco mais sobre esse universo no qual eu era fascinada e estava começando a trilhar como sua sucessora, mas apenas na parte da indústria automobilística, pois não tenho a capacidade multifatorial dele para conhecer profundamente tantos esportes.
Depois da revista Oficina Mecânica, meu pai participou da criação da revista “Auto&Técnica”, em meados dos anos 1990 e também continuava trabalhando como correspondente internacional e comentarista.
Em 1996, passou a integrar a ESPN Brasil, onde comentou Fórmula 1 e futebol até 2005. Depois, passou a trabalhar no SporTV, no programa Arena comentando Fórmula 1, motociclismo e futebol. Sua carreira, portanto, atravessava diferentes gerações de mídia: começou no jornal impresso e no rádio, passou pelas revistas, chegou à televisão e, posteriormente, alcançou a internet. Essa capacidade de se adaptar talvez seja uma das características mais marcantes de sua trajetória.
A internet
Em 2012, meu pai e eu lançamos o Site do Carsughi, reunindo em um mesmo espaço conteúdos sobre indústria automobilística, Fórmula 1, futebol e turismo. Foi uma extensão natural de seu trabalho. A internet permitia que ele continuasse fazendo aquilo que sempre fez: observar, analisar, escrever e compartilhar sua experiência.
Depois de deixar a Jovem Pan, em 2015, ele passou a produzir conteúdo também pelo UOL, com os canais Carsughi, UOL Carros e UOL Esporte. Pouco tempo depois, voltou ao rádio pela Rádio Nacional, integrando a equipe do programa “No Mundo da Bola”, e também participou da programação esportiva da TV Brasil.
Aos poucos, o homem que havia começado escrevendo para um jornal italiano na juventude havia atravessado praticamente todas as grandes transformações da comunicação brasileira e ele sempre trafegou muito bem entre todas essas mídias.
Ao longo dos anos, meu pai recebeu diversas homenagens e reconhecimentos pela contribuição ao jornalismo, ao automobilismo e ao esporte. Ganhou na TV Record por alguns anos o troféu Roquete Pinto, além de vários prêmios de jornalismo pela Editora Abril.
Em 2015, eu criei o prêmio “Carsughi L’Auto Preferita”, reunindo jornalistas especializados para avaliar os principais modelos e marcas do mercado automobilístico e como uma forma de homenagear em vida a carreira brilhante que ele construiu. O nome Carsughi passou, assim, a fazer parte também da história da premiação da indústria automotiva brasileira.
Em 2025, aos 93 anos, meu pai recebeu uma homenagem na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em reconhecimento à sua trajetória e à contribuição que prestou ao jornalismo e ao automobilismo brasileiro.
Mas talvez o reconhecimento mais significativo tenha sido aquele que veio de colegas e de gerações de profissionais que aprenderam com ele. Rubens Barrichello, Felipe Massa, Milton Neves e tantos outros passaram a chamá-lo de “Mestre Carsughi”. Não era apenas um apelido, era uma forma de reconhecer uma carreira construída ao longo de décadas de trabalho.
O homem por trás do jornalista
Meu pai sempre foi muito mais do que aquilo que aparecia diante de um microfone ou nas páginas de uma revista. Era um italiano na sua essência, mas que cultivou um grande amor pelo país estrangeiro mais amado por ele, o Brasil. Em casa, a língua oficial sempre foi o italiano e ele sempre estava atualizado com as notícias daqui e da Itália.
Foi no Brasil que constituiu sua família, seus amigos e toda a sua história profissional. Foi marido, pai, avô, bisavô, jornalista, engenheiro, comentarista, editor, correspondente e acima de tudo, um homem profundamente correto. E é essa retidão de caráter que fica como um dos maiores ensinamentos que nos deixou. E uma de suas grandes marcas foi o humor ácido e as colocações cirúrgicas da verdade.
Outro grande ensinamento que me passou foi o de ser extremamente objetivo. Em poucas palavras sempre disse tudo o que pensava e essa característica, do meu ponto de vista foi o que mais marcou sua carreira e seu sucesso. Falar assertivamente sem enrolações. Isso eu aprendi com maestria.
Mais de sete décadas contando histórias
Quando olho para a trajetória profissional do meu pai, percebo que ela não pode ser resumida apenas pelos veículos em que trabalhou ou pelos cargos que ocupou. Sua história atravessa gerações.
Começa no rádio e no jornal impresso, passa pelas revistas, pelas grandes transmissões esportivas, pela Fórmula 1, pelas Copas do Mundo, pela indústria automobilística, pela televisão e chega à internet.
Ele acompanhou a transformação do automóvel brasileiro desde a Romi-Isetta. Viu nascer e crescer a Fórmula 1 no país. Cobriu cinco Copas do Mundo consecutivas. Trabalhou em algumas das principais redações esportivas e automobilísticas do Brasil. Conheceu e entrevistou gerações de pilotos, jogadores, dirigentes, engenheiros e jornalistas.
E fez tudo isso sem abandonar sua característica mais marcante: a independência de pensamento. Meu pai construiu sua carreira com conhecimento, trabalho e opinião própria. Por isso dedico esse texto ao Mestre, com carinho. Acima de tudo, meu grande Mestre, Mestre Carsughi!
Claudia Carsughi

Fotos do Arquivo Pessoal