O chefe de equipe, hoje com 78 anos, entrou na Fórmula 1 em 1969 e conseguiu se manter na categoria por meio século

Por Américo Teixeira Junior

Frank Williams, verdadeiro herói do automobilismo – Foto Glenn Dunbar/Williams – Sochi, Russia, 11.09.2015

Quando escrevi Frank Williams – A Primeira Geração dos FW na Fórmula 1, tive como motivação dois aspectos principais. O primeiro deles é a certeza, amadurecida ao longo de anos, que a principal manifestação do automobilismo é a construção de um carro de corrida. E de tanto Frank Williams reafirmar sua crença nesse conceito básico que fui buscar, na história da Fórmula 1, o início de tudo, antes mesmo do FW01, uma marcação que hoje está no FW43.

O outro foi a grande curiosidade em descobrir, com a maior quantidade possível de detalhes, de onde vinha a força desse homem, capaz de resistir aos maiores obstáculos para se manter independente e se constituir como último fundador em atividade. Nem mesmo a maior “pedra no meio do caminho”, o acidente que quase lhe tirou a vida, foi forte o bastante para que a equipe Williams desaparecesse.

É claro que já havia uma admiração anterior para que me dispusesse a escrever um livro sobre Frank Williams, mas o período de pesquisa só fez aumentar o meu respeito por esse inglês, que lutou desde muito cedo para fundar e manter sua equipe. Foram tantas as situações embaraçosas e humilhantes, sempre por falta de recursos, que seria natural compreender se ele resolvesse desistir de tudo, ainda no início dos anos 70, e fosse cuidar da vida noutras paragens.

Desde 1969 na Fórmula 1

Mas como disse Dom Helder Câmara, “eu acho uma beleza a gente ter razões para viver”. E a razão da vida de Frank Williams foi sua equipe. Assim, em lugar de assumir-se derrotado, Frank Williams tratou de arregaçar as mangas e lutar com mais força ainda. De tão rica essa história que o livro ficou circunscrito à Frank Williams Racing Cars, a equipe que estreou na Fórmula 1 em 1969 e perdurou até 1976.

Só a partir de 1977 passaria a existir Williams Grand Prix Engineering, a mesma dos dias atuais. Tivesse se destinado a contar a trajetória completa da criação e criatura, estaria até agora escrevendo.

Valeu a pena lutar, entretanto, se foi a equipe de títulos de Construtores e Pilotos, a Williams deixou de ser capaz de acompanhar, a partir de determinado momento, as profundas transformações e agigantamento da Fórmula 1. Apesar de ter se tornado vencedora, criadora de tecnologia e desbravadora de novos mercados com as inovações desenvolvidas em casa, a manutenção da independência se mostrou incompatível com a realidade.

Não houve outro caminho a não ser vender a equipe e, no Grande Prêmio da Itália deste 6 de setembro de 2020, dar-se-á o afastamento oficial e definitivo da família Williams do time fundado por Frank. Doente, o patriarca não vai às pistas há vários anos e coube à filha Claire comandar toda a organização. É na figura de Claire Williams que a Fórmula 1 vê a retirada da última família remanescente na categoria.

Por mais pragmática que possa ser a análise desses últimos tempos da Williams, é impossível não sentir corações estraçalhados nessa transição. É a obra de uma vida que se esvai por entre os dedos.

Por mais que empregos tenham sido mantidos e a venda seja garantia de continuidade, é o fim de um sonho, o desaparecimento de uma filosofia, o acordar de uma ilusão. É, os tempos estão repletos de choques de realidade ultimamente.

Claire Williams e o esposo Marc Harris no penúlimo dia da inglesa como Team Principal – Foto Williams – Monza, Itália, 05.09.2020

Capa/Destaque: Frank Williams nos tempos da Frank Williams Racing Cars – Foto Cláudio Larangeira – Interlagos, São Paulo, 27.01.1974

2 COMENTÁRIOS

  1. Não creio que seja o fim de um sonho. Foi uma trajetória vitoriosa e, como tudo na vida, um dia chega ao seu final. Mas o legado permanece, mesmo sendo conduzido por outras mãos. o importante é que o nome permaneça no futuro, para que as gerações que virão saibam o trabalho realizado por Frank Williams.
    A mesma coisa aconteceu com outras equipes na F-1. Algumas ainda tiveram o nome mantido até os dias de hoje, como a Mclaren, até mesmo a Ferrari, que um dia foi criada pelo Comendador Enzo Ferrari e hoje pertence a Fiat.
    Outras equipes simplesmente desapareceram, mesmo após ter sucesso, como a Lotus, Ligier e Brabham.
    Outras ainda continuam, mas com outros nomes, como Tyrrel, Minardi e Stewart.
    E assim a vida segue.

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