dm_020209_fd01_1975_wilson_cl_capa“Aquele ano, 1974, foi bastante difícil, de um trabalho terrível para mim, o Ricardo Divila e para toda a equipe que nós já tínhamos já montado naquele ano. Praticamente, da primeira idéia até encostar pela primeira vez as rodas no chão, foram exatamente 12 meses. Foi um ano de muito trabalho, mas valeu a pena. Quando nós encostamos as rodas do carro no chão, a satisfação entre nós foi muito grande e aí nos começamos uma nova fase da nossa vida. E o começo foi naquele dia de dezembro de 1974, quando o carro tocou o chão.

A expectativa que nós tínhamos era a de fazer uma temporada de regular a boa. Nós fizemos a configuração de um carro completamente diferente para a época, aerodinamicamente. Era uma época onde todas as equipes estavam começando ter uma idéia do que era um automóvel dentro de um túnel de vento. Então, o nosso raciocínio foi correto para a época porque tudo o que se gerava naquela época de downforce de Fórmula 1 era nos dois aerofólios, dianteiro e traseiro. Como nós tínhamos os dois aerofólios idênticos aos carros daquela época, nós resolvemos fazer um carro carenado inteiro, pois chegamos a conclusão de que iríamos andar um pouco mais em linha reta, que teríamos um pequena vantagem.

E a carga aerodinâmica, que a gente precisava para gerar o downforce, nós teríamos do mesmo jeito com o aerofólio dianteiro e traseiro. Acho que a decisão foi correta, mas nós precisávamos de mais tempo para desenvolver o carro.Tanto foi correta a decisão que depois de quatro ou cinco anos do nosso carro, todos os outros Fórmula 1 começaram a ser carenados inteiro, completamente, como é até hoje. Mas nós precisávamos ter terminado o nosso carro em setembro, ter testado por dois ou três meses. Mas como nós terminamos o carro em dezembro e em janeiro já foi o Grande Prêmio da Argentina, tudo foi muito difícil. E a decisão pós Argentina foi descarenar o carro e voltar a ser igual a um carro qualquer da Fórmula 1 daquela época. Nós precisávamos ter tido mais tempo para desenvolver todos aqueles elementos mecânicos e aerodinâmicos que nós tínhamos e que faziam a diferenciação do nosso carro para com os outros.

A partir do momento em que nós resolvemos montar a equipe, eu sabia que, se eu fosse pilotar, seria no máximo por um ano. Tanto é que, em meados daquele ano que nós estávamos em competição, eu já conversei com o Emerson e já ficou acertado de o Emerson iria pilotar a partir do próximo ano em diante. Então, desde o início eu sabia que eu estaria como piloto da equipe no máximo naquele ano, 1975.

A contribuição no Emerson para o projeto foi muito grande e a cobrança foi também enorme. E nós fomos, diríamos, desrespeitados por 90% da imprensa brasileira. Isso sem sombra de dúvida. Era uma imprensa que entendia, ou se dizia entender muito bem de futebol, e que resolvia narrar um Grande Prêmio de Fórmula 1. E aí só falavam besteiras, uma atrás da outra. Infelizmente, a imprensa impressa também. Com exceção, logicamente, de alguns. Mas a maioria que falava mais alto.

E aquilo foi criando uma pressão, foi mudando lentamente, com o passar dos anos, a opinião pública e foi também mudando lentamente a opinião de alguns patrocinadores possíveis que nós teríamos e o fim nosso foi triste. Trágico e que hoje eu sei que muita gente reconhece que nós estávamos certo. Só que aquela imprensa que nos prejudicou demais não existe mais hoje. Eu gostaria de chamar um por um e mostrar para eles aonde nós estávamos errados naquela época. Mas eles não existem mais. Ainda bem, ainda bem.

E onde nós tivemos o desfecho que eu diria de ouro em desrespeito à nossa pessoa e à equipe foi um radialista muito conhecido, que foi narrar o Grande Prêmio da Argentina, onde o Keke Rosberg classificou o carro em 3o e o Emerson em 5o, ou seja, os dois carros nossos entre os cinco primeiros. E esse radialista teve a coragem de várias vezes durante a narração do Grande Prêmio – onde o Keke terminou em 3o – chamar o nosso carro de a Geni Brasileira, como a da música do Chico Buarque. Aí foi o fim do fim. Eu acho que ultrapassou todos os limites, diríamos, de bom senso, de educação, de um mínimo de respeito com uma pessoa que se meteu a fazer um projeto do tamanho que é uma equipe de Fórmula 1.

Nos dois anos seguintes da equipe (1981 e 1982), apesar de todas as dificuldades, a equipe seguiu não apenas por um esforço nosso. Nós tivemos uma ajuda enorme da Brasilinvest, naquela época dirigida pelo Mário Garnero, e ele bolou uma forma de patrocínio para nós, onde nós iríamos dividir o nosso budget em 10, 12 empresas. Cada empresa em um Grande Prêmio estaria em destaque no carro e nas depois provas ela estaria em um espaço menor. E deu certo. Nós tivemos um apoio, só que não conseguimos fechar o pacote inteiro, mas conseguimos, das 10 empresas que a gente precisava, seis.

E aquilo nos deu um pequeno fôlego a mais e a gente conseguiu andar mais um ano e meio. Mas aí tivemos de tomar a decisão, em agosto de 1982. Eu liguei para o Emerson e disse: “Não vai mais nenhum tostão”. E ele perguntou: “O que nós vamos fazer? Eu disse: “Fecha, não tem mais o que fazer, fecha!” Nós tivemos um prejuízo, em 1982, ele e eu, de US$ 7,5 milhões. Patrimônio nosso. Nós perdemos em 1982, se fosse hoje, algo em US$ 15 milhões e US$ 20 milhões. E aí nós paramos e aí o resto todos conhecem.

Foi uma decisão que nós fomos adiando, adiando, adiando para tentar o possível e o impossível. Nós precisávamos tentar o possível e o impossível e nós tentamos. Só que chegou em um limite e realmente a coisa se tornou impossível. Quer dizer, quando eu tomei a decisão e informei ao Emerson – e ele já sabia que, em um breve espaço de tempo, teríamos de tomar essa decisão – de não mandar mais nenhum tostão para lá – parar, fechar, acabou – nós liquidamos o nosso patrimônio inteiro, inteiro, inteiro.

Tudo o que nós tínhamos juntado em 20, 25 anos da nossa vida. Perdemos tudo, tudo, tudo. Enfim, foi uma decisão difícil pelos dois lados. Primeiro, difícil de deixar de ter a equipe de Fórmula 1, que foi um negócio terrível para nós, pois era o nosso sonho e nós podíamos estar vivos até hoje. E, em segundo, difícil também a decisão porque, além de não termos mais a equipe de Fórmula 1, termos liquidado o nosso patrimônio inteiro. Então, simplesmente, nós saímos com a mão no bolso. Nem bolso quase tinha porque foram até as causas.

Foi uma coisa horrível, horrível, horrível que eu não quero mais passar por isso na minha vida nunca mais. Espero. Foi uma situação muito complicada, muito difícil e volto a repetir. Nós perdemos demais, demais, com uma imprensa que não entendia absolutamente nada – ressalvando algumas exceções, inclusive essas exceções nos ajudaram – mas infelizmente a maioria que falava mais alto não entendia e continua não entendendo nada até hoje. Foi um desastre, um desastre para nós.

O coração recuperou normalmente com o passar dos tempos, mas ficou um vazio. Eu não sei se tem esse vazio dentro do Emerson, mas dentro de mim tem um vazio. Nós sabíamos que estávamos no caminho certo e nós conhecíamos as dificuldades da Fórmula 1. Hoje, muita gente aqui no Brasil sabe e reconhece as dificuldades da Fórmula 1. Naquela época, não. Então, o que aconteceu? Às vezes eu faço uma análise fria sobre tudo o que aconteceu para saber onde nós erramos. Eu não sei se nem a palavra “errado” está certo. Mas eu acho que nós deveríamos ter começado a equipe uns 10 anos para a frente. Aí as pessoas já estariam entendendo mais de Fórmula 1, como entendem hoje. Hoje nós temos aí, calculo, no mínimo uns 10 jornalistas especializados que acompanham e que sabem como é difícil da Fórmula 1.

Eu só vou citar um pequeno exemplo. Hoje existe a equipe Williams, fantástica. Naquela época, o tamanho nosso dava umas cinco ou seis equipes Williams juntas. Só que nós paramos por falta de dinheiro e o Frank foi brigando, brigando, brigando, sobreviveu e chegou no que ele é hoje. Mas a vida continua…”


Depoimento de Wilson Fittipaldi Jr. a Américo Teixeira Jr.

2 COMENTÁRIOS

  1. A equipe Fittipaldi de F-1 foi a coisa mais corajosa feita no esporte brasileiro e realmente na época a imprensa foi sacana e realmente não entendia nada do esporte. Hoje até o Galvão percebe que não dá pra ficar falando bobagens e tem corrido atrás deposi de anos de teimosia e não acvompanhar a fundo a categoria.

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