Se a pandemia já deixa rastros de destruição, o ‘day after’ é algo angustiantemente imprevisível

Por Américo Teixeira Junior

Vinte homens sob clausura, enquanto deveriam estar correndo; apenas uma das incontáveis rotinas estupradas pelo flagelo do coronavírus. – Foto LAT IMAGES/AMG MERCEDES F1 MEDIA

Quando da Fórmula 1 encerrou a temporada de 2019 em Abu Dhabi, no dia 1º de dezembro, já surgiam na cidade chinesa de Wuhan os primeiros sintomas de contaminação por coronavírus, causador da grave doença no sistema respiratório chamada COVID-19. De lá para cá, o mundo virou de cabeça para baixo, o ordenamento de todos os setores foi subvertido e o cenário de perspectivas futuras recebeu cores sombrias.

Apesar do quadro aflitivo que envolve a todos, incluindo naturalmente eles próprios, os fãs da Fórmula 1 aguardam ansiosamente pela abertura da temporada 2020. Reside aí também uma boa dose de esperança em ver superada essa crise que já matou 17.031 pessoas, em números atualizados na manhã desta terça-feira, 24 de março, às 10:30*. Entretanto, já será um feito extraordinário se a F1 conseguir realizar algumas corridas até dezembro, embora o risco de simplesmente não acontecer seja real.

Há aspectos muito concretos que apontam para esse desfecho. Vamos a eles:

1 Caráter Mundial

Nunca foi tão “Mundial” o calendário da F1 como o de 2020. Embora desde seus primórdios apresente essa característica, nunca antes o giro internacional da categoria englobou 22 países, como agora. E todos, rigorosamente todos esses países registram cantaminados e mortes;

2 Baixa Prioridade

Num contexto de catástrofe, todos os esforços nacionais estão sendo direcionados – ou deveriam estar sendo direcionados – a aplacar o sofrimento do cidadão. Isso requer recursos humanos, financeiros e tecnológicos quase sempre escassos. Por conseguinte, seria financeira, moral e eticamente inviável destinar recursos públicos para ações não prioritárias. E, convenhamos, a Fórmula 1 nada tem de prioritário no contexto atual;

3 Mudança de foco

Alguns governos europeus estão estimulando que as equipes de F1 disponibilizem a alta tecnologia que possuem para desenvolvimento ou construção de elementos de extrema necessidade no momento, que são equipamentos de unidades de terapia intensiva para suprir hospitais físicos e de campanha. Quanto mais engajadas nesse propósito, mais distante ainda estará o momento de redirecionar o foco para a competição;

4 Controle de circulação

Há bilhões de pessoas confinadas atualmente, cada grupo a seu modo, em função de medidas restritivas impostas por governos. A diferença está no caráter da restrição, que vai da orientação ao uso de forças policiais. Isso se deve ao fato de a pandemia não ter se iniciado ao mesmo tempo no mundo todo. Começou no Hemisfério Norte e agora começa a se alastrar pelo Hemisfério Sul. Isso significa dizer que alguns países até poderão começar a afrouxar as restrições num espaço de tempo não muito distante. No entanto, outros sequer viram o topo do problemas em seus territórios. Tudo isso para constatar que, mesmo com a desejada, implorada e prevista queda nos números, as fronteiras estarão em alerta por muito mais tempo depois disso, com o deslocamento entre países atingindo grau inimaginável de dificuldade.

5 Nova realidade econômica

Após a pandemia, a economia como um todo precisará ser reerguida. Não há perspectiva de permanecer incólume qualquer estrutura, com graves impactos nas economias de pessoas físicas e jurídicas, nos capitais público e privado, da mesma forma que nas reservas de quaisquer espécies, inclusive de estados. Mas enquanto em alguns casos a consequência será menor disponibilidade de produção e investimentos, em outros representará miséria, fome, violência e morte. Há de se perguntar qual ente público e privado terá condições financeiras de honrar compromissos assumidos com a F1 e suas equipes. O automobilismo como um todo terá de ser redimensionado, diante da escassez de recursos. E principalmente a F1 precisará cair na real para o fato de não mais existir o “mundo paralelo” no qual parece viver;

6 Constrangimento

Quando a bolha imobiliária norte-americana estourou e deflagrou a crise financeira de 2008, a Honda deixou a F1 ao término daquela temporada. O motivo não foi, propriamente, falta de recursos – tanto que todos os compromissos já assumidos para 2009 foram pagos. O fator determinante foi o moral, diante da questão que se colocou: como gastar milhões com a F1 se a empresa é obrigada a demitir e fechar plantas? O mesmo tende a ocorrer novamente no ‘day after’.

Há outros aspectos que poderiam ser citados, mas já está claro que a F1 demorará a voltar. E, quando o fizer, será em outro formato e submetida ao novo mundo que teremos pela frente. No entanto, se Liberty Media, FIA e equipes insistirem nos padrões atuais, será muito maior o espaço entre os treinos de fevereiro em Montmeló e o próximo Grande Prêmio. Talvez, até, infinito.

*Com dados Channel New Asia Singapore 

Destaque/Capa – No Grande Prêmio da China de 2019, pandemia era coisa de ficção científica; hoje, uma realidade perversa que eclodiu no país em dezembro do mesmo ano e de lá para o mundo – Foto LAT IMAGES/AMG MERCEDES F1 MEDIA

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