A iniciativa particular do empresário Daniel Kelemen recebeu apoio da matriz da Hyundai para se tornar campeonato oficial, não sem antes alguns atropelos

Por Américo Teixeira Junior

Todos os modelos da Copa HB20 são da especificação R spec 1.6 (Foto Marcelo Zebra/H Racing)

Quem passa pela Avenida Corifeu de Azevedo Marques, em Osasco (SP), e se depara com uma elegante concessionária Hyundai, nem faz ideia de que ali está localizado o centro de operações da mais nova categoria de Turismo do automobilismo brasileiro, a Copa HB20, cuja primeira corrida será realizada nesse fim de semana em Campo Grande (MS). Mas diferentemente do que possa parecer, não é uma realização da Hyundai Brasil. Pelo contrário, a ideia inicial de colocar carros da marca sul-coreana nas pistas foi recebida com poucos sorrisos. Entretanto, na cabeça do realizador, o empresário Daniel Kelemen, já era uma ideia sem volta. Tanto que seguiu em frente, conseguiu as licenças devidas, fundou a empresa H Racing para conduzir toda a operação, comprou os carros da montadora e vem dividinho as poucas 24 horas de um dia comum entre as trarefas de pilotar, promover uma nova categoria e dirigir uma rede de concessionárias.

É um fato marcante saber que terão passados exatos 31 dias desde a chegada dos HB20 “pelados” na concessionária até a próxima sexta-feira, 12, quando estarão na pista pela primeira vez, no Autódromo Internacional Orlando Moura. Indubitavelmente, essa etapa operacional, comandada pelo piloto “elétrico” Marcelo Zebra, desafiou o calendário e os nervos de muita gente. Porém, é um exercício interessante tentar identificar quando exatamente tudo isso começou, ponto de partida para aquele mês de dias intermináveis.

Dependendo do quão profunda for a busca, talvez seja possível encontrar o embrião da Copa HB20 em 2017 ou bem antes, na década de 70, se for dada vazão ao amor pelo automobilismo.

Lá pelos anos 70, o senhor Antonio Paulo saía de sua casa no bairro paulistano do Ipiranga e, ao volante de uma Kombi, percorria concessionárias da região para recolher sucata. Com o tempo, o netinho Daniel passou a acompanhar o avô, cuja paixão pelos carros e habilidade para o comércio foram absorvidas pelo garotinho. Prova disso é que, num certo dia, Daniel pegou uma tampa de tanque de combustível e foi para a porta de casa. Ficava de olho na movimentação da rua e oferecia para quem passasse a tal tampa. Detalhe: ele tinha apenas três aninhos e queria comprar sorvete com o dinheiro da da venda.

Para a alegria do vendedor precoce, um vizinho comprou a peça. Só muito tempos depois é que ficou sabendo o motivo de ter tido sucesso na primeira investida como vendedor. Quando percebeu a atitude do neto, Antonio Paulo resolveu incentivá-lo. Chamou um amigo, entregou-lhe uns cruzeiros e pediu para que comprasse a mercadoria. Hoje, aos 42 anos, Daniel Kelemen conta essa história com lágrimas evidentes, ainda mais por conta da perda recente do avô, falecido em 2016.

A semente de vendedor já estava plantada e não tardou muito para que outra, a de piloto, passasse a “germinar” no coração do adolescente. Aos 14 anos já fazia bicos de vendedor, aos 17 foi chamado por um amigo para vender carros e logo depois descobriu que havia um troço absolutamente fascinante chamado kart. Mas o encanto não durou muito tempo, pois não havia dinheiro para aquela empreitada. Já estava trabalhando como vendedor nas Concessionária Viamar e a vida seguiu.

Vendi todo tipo de carro que você imaginar, menos roubado!

Daniel Kelemen

Quase 10 anos depois, em 2007, foi convidado para participar de um evento corporativo na Granja Viana e foi muito bem nas corridas. Saiu de lá com a impressão de que “eu sei fazer isso”. Essa mesma sensação se repetiu exatamente 10 anos depois, em 2017, quando venceu corridas em outro evento corporativo, só que dessa vez em Aldeia da Serra. Mas ao invés de ficar apenas no “eu sei fazer isso”, a esta juntaram-se outras afirmativas: “eu quero fazer isso” e “eu vou fazer isso”.

Nessa altura da vida, Daniel já havia se tornado sócio da Viamar, que agora é um grupo com 15 concessionárias entre as marcas Chevrolet, Nissan e Hyundai. O trabalho ininterrupto desde os 14 anos permitiu que ele fosse subindo na carreira a ponto de, enfim, realizar o sonho de ser piloto. Teve uma experiência com Gol na categoria Clássicos de Competição, apaixonou-se pela Old Stock e passou a correr de Opala em Interlagos. Era esse o cenário para Daniel no decorrer de 2017, conciliando a atividade profissional com a prática do esporte, que era um desejo antigo.

O lado piloto pendeu para o Chevrolet Opala da categoria Old Stock (Foto Reprodução www.Saveig.com)

Nesse meio tempo, o Grupo Viamar instalou uma concessionária Hyundai em Interlagos e estava sendo preparada a inauguração. Como sempre foi uma regra na empresa, esses eventos não respeitam propriamente um formato padrão. Pelo contrário, cada abertura de loja tem como tema algo identificado com a região. Foi então que a identificação de Daniel com o automobilismo fez surgir a ideia de preparar um HB20 para competição, de modo a se constituir no tema central da festa.

Para a operação, Daniel providenciou a preparação de um carro de corrida de verdade, todo idealizado por ele. As preparações do chassi pela Fast Racing e do motor sob a responsabilidade da Auto Tech Motorsport deixaram o piloto Rafael Lopes empolgado e pediu um HB20 para ele também.

No final das contas, o envolvimento passou a ser totalmente particular porque a festa de inauguração acabou não acontecendo e os carros nasceram a tempo de participar da última etapa do campeonato Paulista de 2017. Foi um momento de enorme realização para o Daniel, pois idealizou o carro, participou de cada etapa da sua concepção e, de repente, o HB20 de corrida estava ali, prontinho para a pista. Na equipe com dois carros, Rafael Lopes e Fabiano Cardoso dividiram um chassi e Daniel esteve na condução do outro com Pedro Pimenta.

O HB20 foi para a pista pela primeira vez em Interlagos (Foto H Racing)

A ideia de uma categoria monomarca só com modelos HB20 nasceu ainda na fase de preparação do carro para a inauguração da concessionária. Só que ficou momentaneamente inativa enquanto os dois carros eram finalizados. E foi uma felicidade imensa poder correr com os dois modelos, em Interlagos, naqueles dias 16 e 17 de dezembro de 2017.

Só que na quinta-feira, 21, num encontro de fim de ano com a diretoria da Hyundai, recebeu uma bela bronca e teve de pedir desculpas pelo esforço de colocar dois HB20 na pista. A ducha de água fria veio mais ou menos dessa forma:

– Você é louco, com autorização de quem você me coloca dois HB20 para correr, sem avisar nada para gente?

Essa manifestação de desagrado por parte da subsidiária brasileira foi motivada pela estrutura de comando da Hyundai Motor Company. Sediada em Seul, na Coréia do Sul, nada acontece envolvendo a marca, qualquer que seja o lugar do mundo, sem autorização expressa da matriz. O mesmo ocorre na área de Motorsport. Apesar de existir a Hyundai Motorsport na Alemanha, responsável primordialmente pela operação da companhia no Mundial de Rali, a palavra final é sempre de Seul.

A boa presença dos HB20 em 2018 culminou com o título no Turismo Nacional (Foto Reprodução www.saveig.com)

Essa modelo de gestão obrigaria Daniel a apresentar um projeto para a empresa no Brasil, que seria enviado para a Alemanha em caso de aprovação, e de lá para a capital sul-coreana. Apesar de ser concessionário Hyundai e presidente da Associação Brasileira dos Concessionários Hyundai, o empresário não imaginou que tivesse de passar por toda essa burocracia, visto se tratar de uma iniciativa particular, na concepção, execução e financiamento.

Mas até provar que focinho de porco não é tomada, o estrago já estava feito. O baque emocional foi tão grande que, para usar uma expressão bem automobilística, Daniel “ficou sem saber para que lado virar”. E não ficou só nisso. A empresa brasileira precisou reportar o que tinha sido feito. Ou seja, se uma sapatada local já tinha doído bastante, imagine uma – ou melhor, duas – transoceânica?  

Foi com essa sensação nada confortável que a família Kelemen saiu em férias antes do Natal e o empresário só retornaria às funções na segunda quinzena de janeiro. Pouco depois, foi chamado à sede da Hyundai Brasil.

– Xiiii, deve ter pensado.

Mas as notícias não poderiam ser melhores. Diferentemente da reação local, a Hyundai Motorsport não apenas mandou dizer que gostou muito da iniciativa, mas que também incentivava sua continuidade. Entre surpreso e encorajado, Kelemen aproveitou o momento e colocou o projeto da Copa HB20 na mesa. Enquanto aguardava um posicionamento da montadora, ampliou sua presença nas pistas e Fabiano Cardoso foi campeão do campeonato Turismo Nacional com o HB20.

Na sequência, os passos da Copa HB20 foram esses:

Agosto 2018 – A Matriz autoriza a competição;

30 de setembro de 2018 – Matriz autoriza apresentação no Salão do Automóvel;

6 de novembro de 2018 – Tendo a Hyundai Brasil como ums de suas patrocinadoras, a Copa HB20 é apresentada no Salão do Automóvel, em evento de premiação do Capacete de Ouro, da revista Racing, com previsão de custo de R$ 200 mil a temporada e calendário extra-oficial considerando a abertura entre os dias 22 e 24 de março, Goiânia (GO);

Dezembro de 2018 – Carros são construídos na fábrica da Hyundai em Piracicaba, sem diversos itens de acabamento comuns ao carro de rua;

Fevereiro de 2019 – Calendário da Copa HB20 é oficializado com oito etapas, sendo sete na mesma programação da Copa Truck, inclusive a inaugural de 12 as 14 de abril, no Mato Grosso do Sul;

11 de março de 2019 – 25 modelos HB20 Rspec são entregues na sede operacional da Copa, a H Racing;

Março de 2019 – São assinados os contratos com os pilotos, ao custo de R$ 180 mil a temporada;

7 de abril de 2019 – Todos os carros ficam prontos;

8 de abril de 2019 – Todos os carros são transportados por via terrestre para Campo Grande (MS)

12 de abril de 2019 – Os carros da Copa HB20 entrarão na pista pela primeira vez em treino livre no Autódromo Internacional Orlando Moura.

Eles já estão na Copa HB20

(0) Wagner Cardoso – (5) Edgar Colamarino – (6) Luiz Albuquerque – (8) Marcos da Silva Ramos – (11) Robinson Molly – (13) Marcelo Zebra – (15) Bruno Testa – (18) Daniel Nino – (20) Raphael Abbate – (33) Eduardo Doriguel – (42) Christiano Bornemann/Lucas Bornemann – (44) Diego Augusto – (55) Luís Ornelas – (60) Betão Fonseca/César Fonseca – (70) Kleber Eletric – (74) Odair Paraguai – (111) Sandro Siqueira/Luciano Viscardi – (113) Witold Ramasauskas

Capa/Destaque: Daniel Kelemen na sede da H Racing (Foto Rodrigo Aguiar Ruiz)
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Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.