Há dias venho ensaiando escrever sobre a decisão antecipada da Fórmula 1, que aconteceu domingo passado no México – diga-se, adorável México. Mas antes de vencer o marasmo, eis que leio o Substack do jornalista Flavio Gomes, autor das melhores linhas sobre o título de Andrea Kimi Antonelli. Sendo assim, ei-las para os leitores do Diário Motorsport (Américo Teixeira Jr.)
Por Flavio Gomes
https://flaviogomes.substack.com/
No dia 25 de agosto de 2006, um rapaz chamado Sebastian Vettel, aos 19 anos, sentava num carro de F-1 pela primeira vez em um fim de semana de GP. A equipe era a BMW Sauber e a pista, a da Turquia. Naquele ano, as equipes podiam usar terceiros pilotos nos treinos livres da sexta-feira. Vettel não ia correr. A dupla titular do time suíço era formada por Robert Kubica e Nick Heidfeld. Mas começava ali a sua carreira na categoria, oficialmente. Andou nas duas primeiras sessões entre os grandões como Michael Schumacher, Fernando Alonso e Felipe Massa. Fechou a sexta-feira, inclusive, com o melhor tempo do dia. Aquele alemãozinho parecia bom.
A cerca de 1.500 km do circuito de Istambul, naquela mesma sexta-feira, nascia em Bolonha, na Itália, um bebê que seria registrado como Andrea Kimi Antonelli. Diz a lenda que seu pai, Marco, era fã de Kimi Raikkonen, que no ano seguinte seria campeão mundial pela Ferrari. E que por isso colocou o primeiro nome do finlandês antes do sobrenome do garotinho. Faz todo sentido. Mas, em entrevistas que deu ainda criança, o garoto conta que a ideia foi de um amigo da família. Obviamente inspirado no nome de Raikkonen… O pequeno Kimi nasceu no hospital Maggiore, o mesmo onde em 1994 morreu Ayrton Senna.
Vettel, como se sabe, viria a conquistar quatro títulos mundiais na F-1 pela Red Bull. O primeiro deles, em 2010, aos 23 anos e 134 dias de vida. Tornara-se, então, o campeão mais jovem da história da categoria.
Até hoje [1º de novembro de 2026].
Aquele menininho, que nasceu no dia em que Vettel entrava na pista turca para participar de seu primeiro treino oficial na F-1, terminou o GP do México em terceiro lugar e conquistou neste domingo o título de 2026 com quatro provas de antecedência. Aos 20 anos e 68 dias de idade, Andrea Kimi Antonelli é, agora, o campeão mais novo de todos os tempos. Em sua segunda temporada pela Mercedes, chegou ao 16º pódio em 19 corridas. Ganhou nove delas. E foi receber seu troféu em ótima companhia. O vencedor da prova foi Max Verstappen, tetracampeão mundial. O segundo colocado, Lewis Hamilton — hepta. No pódio mexicano, nada menos do que 12 títulos. Nunca tantas taças subiram juntas a um pódio na categoria.
Foi o desfecho de uma história que começou quando Antonelli tinha 11 anos e corria de kart, ainda. Seus resultados chamaram a atenção dos olheiros da Mercedes e o garotinho foi adotado pela equipe alemã, disposta a fazer dele um piloto de F-1. Foi bicampeão europeu de kart pela equipe de Nico Rosberg, ex-piloto da equipe, campeão da F-4 Italiana e alemã, campeão da Fórmula Regional Europeia e do Oriente Médio, escalando com sucesso as categorias de base numa preparação cuidadosa e bem planejada.
Até que no começo de 2024 Hamilton chamou o chefe da Mercedes, Toto Wolff, para dizer a ele que no ano seguinte iria correr na Ferrari.
Foi um choque. Lewis era, praticamente, um patrimônio da equipe alemã. Seus sete títulos haviam sido conquistados com motores Mercedes — um na McLaren, os demais no time de fábrica. O dirigente ficou desnorteado, num primeiro momento. Quem poderia substituir um piloto que detinha os recordes de vitórias, poles, pódios e títulos, para muitos o maior de todos?
Max Verstappen seria a escolha natural. Houve tentativas, conversas, propostas. Mas as coisas não andaram. Então, Toto tomou uma decisão: quando Lewis trocasse a estrela de três pontas pelo cavalinho rampante, colocaria seu pupilo Antonelli na fogueira. Antes disso, providenciou sua inscrição no campeonato da F-2 de 2024, pulando a F-3, e preparou um programa de testes com modelos de F-1 de anos anteriores para dar quilometragem ao moleque. Meses depois, anunciou: Andrea Kimi Antonelli, de 18 anos, seria o substituto de Hamilton em 2025.
Muita gente achou uma loucura. Primeiro, porque ele era muito novo. Segundo, porque na F-2 Kimi não chegou a impressionar ninguém, com duas vitórias e apenas três pódios numa temporada em que terminou em sexto lugar — o campeão foi o brasileiro Gabriel Bortoleto. Mas Toto não deu ouvidos às críticas. A Mercedes chegou a perder dois patrocinadores.
Kimi estreou com um ótimo quarto lugar na Austrália, depois de largar em 16º. Mas teve um ano de altos e baixos, deixando de pontuar em nove corridas. Subiu ao pódio três vezes, terminou o campeonato em sétimo com menos da metade dos pontos de George Russell, seu companheiro, e passou por uma fase horrível na temporada europeia — um décimo na Hungria e um nono na Itália foram seus melhores resultados. Na Bélgica, depois de um apagadíssimo 16º lugar, desabou num choro incontido e deu munição aos críticos que defendiam a tese de que ele não estava preparado para a F-1 — e que Toto tinha dado com os burros n’água, insistindo por vaidade num novato cru, imaturo e de talento discutível.
O que Antonelli fez neste ano, porém, calou todo mundo. Sua temporada é impecável. Dúvidas sobre maturidade e talento desapareceram. Além de tudo, o garoto é simpático, carismático e querido por todos. O único que ficou emburrado com sua conquista, compreensivelmente, foi Russell. Bem mais experiente, cria da Mercedes, também, levou uma surra do italianinho que abalaria qualquer um. Vai ser difícil resgatá-lo da quase depressão que o aflige desde a sequência de cinco vitórias seguidas de Kimi, que começou na China, na segunda etapa do Mundial, e depois passou por Japão, Miami, Canadá e Mônaco.
Antonelli é uma unanimidade no grid. Depois da conquista deste domingo, a lista de elogios foi de “brilhante” a “fenomenal”, e ninguém, ninguém mesmo, deixou de reconhecer seus méritos e de admitir o espanto com o que ele conseguiu em tão pouco tempo. Mas quem melhor sintetizou as características do piloto foi seu engenheiro Peter Bonnington, o Bono: “Ele é uma esponja. Você diz qualquer coisa e ele absorve as informações imediatamente. Aprende tudo na hora. Isso explica essa evolução tão rápida de uma temporada para outra. O ano passado foi de preparação. Este ano, de execução”.
A esponja deu à Itália seu primeiro título mundial depois de 73 anos. O país só teve dois campeões antes: Giuseppe Farina, em 1950 com a Alfa Romeo, e Alberto Ascari, bi em 1952 e 1953 com a Ferrari. E foi com a bandeira tricolor que Antonelli comemorou seu campeonato, junto aos integrantes da equipe, à família que o acompanha em várias corridas — o pai Marco, a mãe Veronica e a irmã mais nova Maggie — e aos dois campeões que foram com ele ao pódio.
Kimi sorriu o tempo todo depois que desceu do carro diante de uma multidão no autódromo mexicano. As lágrimas vieram quando recebeu a bandeirada e, depois, ao encontrar os pais. Recebeu abraços carinhosos de Verstappen e Hamilton e um cumprimento elegante de Russell, ainda que com alguma frieza. Depois, foi erguido por Toto Wolff, seu mentor e maior responsável por revelar ao mundo um talento tão precoce e completo. Ele não estava errado, afinal. Nunca esteve.
A festa para Antonelli foi bonita, tanto na pista, como no pódio. Mas foi mais bonita ainda quando o público mexicano invadiu a pista. Não sei se todo mundo notou, mas as pessoas cantavam “olê, olê, olá, Lula, Lula”.
Foto Destaque: Mercedes F1