Para Rafael Câmara, o desafio está apenas começando

Por Américo Teixeira Jr.

Parafraseando outro pernambucano famoso, “nunca antes na história deste país” um filho do Nordeste tinha alcançado o estágio mais avançado do automobilismo, a Fórmula 1. Não tinha, mas agora tem. Dentre alagoanos, baianos, cearenses, maranhenses, paraibanos, piauienses, potiguares e sergipanos, coube ao recifense Rafael Chaves Câmara inaugurar esse ranking. Aos 21 anos (nasceu em 5 de maio de 2005), firmou acordo com a Haas F1 Team e passa a ser o 34º piloto do país na categoria.

O atual líder do FIA Formula 2 Championship reforçará a presença brasileira ao lado de Gabriel Bortoleto, da Audi F1 Team. Será a primeira vez desde 2016 que o Brasil terá dois representantes no grid. Antes, Felipe Massa, à época na Williams, e Felipe Nasr, então na Sauber, dividiram naquele ano o peso da representatividade.

Câmara não é, propriamente, um neófito na Fórmula 1, pois como piloto da Ferrari Driver Academy realizou testes com a equipe italiana. Ganhou quilometragem com o SF-25 em Mugello e Ímola, além de cumprir uma sessão de testes pela Haas no autódromo português do Algarve. Mas antes de efetivamente “meter a mão na massa”, Câmara tem um campeonato de Fórmula 2 para ganhar.

Como piloto da Invicta Racing, o brasileiro conquistou três vitórias, sete pódios e cinco poles, em 12 de 14 etapas, fixando-se na liderança do campeonato no Azerbaijão. São sete pontos de vantagem sobre o búlgaro Nikola Tsolov, vice-líder. Se a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque deixar, a decisão será nas etapas do Qatar (28 e 29 de novembro) e Abu Dhabi (5 e 6 de dezembro). Mas nada garante, pois Donald Trump disse recentemente que a guerra acabará quando ele quiser. Independentemente disso, Rafael Câmara já faz parte do seletíssimo grupo e, no lugar de francês Esteban Ocon, formará dupla com o britânico Oliver Bearman em 2027.

Agora que o bicho pega

Claro, é hora de festejar, mas todos sabemos que o mais difícil começa agora. Em sua carreira no kartismo e no automobilismo de base, é lícito supor que Rafael Câmara almejou uma atenção da imprensa que talvez nunca tenha tido. Agora, porém, até que a temporada 2027 comece (em março, lá pelas bandas sobejadas por bombas e similares), qualquer ‘pum’ dele terá potencial capaz de virar notícia. Responderá quase sempre as mesmas perguntas e precisará de paciência com um segmento que talvez já o tenha esnobado.

Os fãs, que obviamente já são muitos, multiplicar-se-ão aos milhões, da mesma forma que as demandas comerciais e promocionais também ocuparão sua agenda de forma inédita, em número e intensidade. Rodará pra lá e pra cá cumprindo compromissos em lugar de desvendar todos os cantos da fábrica, como gostaria, já de olho no carro do ano que vem.

Quando os carros começarem a rodar, ficará mais exposto ainda. Entre seus analisadores, que certamente comporão um grupo numeroso, haverá quem entende muito de automobilismo, quem está tentando aprender e quem nada sabe, mas posa de especializado, especialista, fodão. Mas a boa notícia é que Câmara não nasceu ontem (se bem que pela idade é quase isso), tem uma vivência no automobilismo como poucos, demonstra importante equilíbrio emocional e guia muito. Então, na medida do possível, não enchamos tanto o seu saco para que evolua e brilhe numa passarela por onde passaram – e passam – os anteriores 33 brasileiros na Fórmula 1.

Rafael Câmara luta por mais um título para chamar de seu, o do FIA Formula 2 Championship – Foto Getty Images/FIA F2
Foto Destaque: Haas F1 Team

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