Engeiro e projetista, passou pelas equipes Fittipaldi, Ligier, Fondmetal e Minardi

Por Américo Teixeira Junior

Copersucar-Fittipaldi FD01, primeiro carro de Fórmula 1 de Ricardo Divila – Foto fornecida por SECCO CONSULTORIA/DANA (Interlagos, SP, Janeiro 1975)

Bendito o homem que consegue sonhar, acreditar, realizar, desenvolver, espalhar conhecimento e se manter como um igual, mesmo sendo Gigante. Se essa frase não está nos livros sagrados, deveria estar para dignificar a genialidade generosa de alguns poucos, como Ricardo Divila

Magrelo, alto, olhos vivos, invariavelmente trajando jeans e camiseta, sorriso fácil e ótimo humor, Ricardo Divila em nada ostentava o gênio que era. O engenheiro aeronáutico falecido na madrugada de hoje, na França, compartilhava conhecimento, o que é próprio do sábio, bem diferente da insegurança egoísta de quem se considera o centro do mundo, guardando “tudo” para si mesmo. Cidadão do mundo, mas paulistano de nascimento, completaria 75 anos no próximo dia 30 de maio.

Morava na França, bem pertinho no circuito de Magny-Cours, e havia aproximadamente dois meses desde um acidente vascular cerebral. Estava em boa recuperação, apesar das dificuldades nos movimentos do lado direito do corpo. Ao ser internado novamente, no início de abril, o motivo era outro. Poucos sabiam que ele estava em tratamento contra um agressivo câncer no pâncreas, razão do falecimento.

Divila tinha uma comunicação fácil não apenas porque falava diversos idiomas, mas principalmente por ter conhecimento amplo em várias áreas. Poderia ter feito carreira brilhante em qualquer área da engenharia, mas dedicou o melhor de si ao automobilismo, à criação de carros de corridas.

Nesse sentido, a projeção mundial veio com a criação da equipe Fittipaldi de Fórmula 1, em 1975, que era mais conhecida por Copersucar em razão do patrocínio da cooperativa agrícola. O FD01 era tão avançado que todo mundo queria conhecer seu criador. Embora sem resultados muito animadores naquele ano de estreia, Divila introduziu soluções aerodinâmicas para diminuir o arrasto, que mais tarde foram incorporadas por outras equipes. Só para citar algumas das novidades, saíram de seus desenhos a nanquim, em papel vegetal sobre uma prancheta, o motor totalmente coberto pela carenagem, linhas laterais arredondadas e o radiador traseiro.

Como transitava com desenvoltura entre o revolucionário e convencional, o FD04, de 1976, ganhou semelhança a outros carros do grid, mas sem que houvesse desistido de inovar. Divila nunca deixou a equipe fundada por Wilson Fittipaldi Junior, mesmo quando os Fittipaldi erraram ao contratar os projetistas Dave Baldwin (F5) e Ralph Bellamy (F6). Quando a equipe comprou a Wolf Racing, Harvey Postlethwaite veio no “pacote” – assim como Keke Rosberg – e assinou os F7 e F8. Coube a Divila reassumir o posto de projetista principal na transição do F8 para o F9 e no projeto e evolução deste último. Lá permaneceu até o fim de 1982, quando a equipe fechou as portas.

Seguiu-se, a partir daí, carreira diversificada e conquistas importantes. Mas será para sempre lembrado, na história do automobilismo, como o projetista do primeiro carro da primeira e única equipe brasileira de F1. Para os que conviveram com Ricardo Divila, a lembrança será sempre a de um cara muito, mas muito gente boa. Desses que a saudade não é retórica, mas sentimento tão forte que é capaz de pegar com as mãos.

Ricardo Divila atuou durante muitos anos no automobilismo japonês pela Nissan – Foto REPRODUÇÃO TWITTER
  Destaque/Capa: Ricardo Divila - Foto REPRODUÇÃO TWITTER

1 COMENTÁRIO

  1. Bela matéria Américo, tive a grata satisfação em trabalhar com ele por alguns meses na Fórmula Vee. Genial era pouco, ele foi o grande projetista de carros de corrida e reconhecido mundialmente por isso.

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