long-beach-18042009-castroneves-o-retorno-6-irlDurante meses, enquanto eu afirmava e reafirmava que Hélio Castroneves e sua irmã Katiúcia eram inocentes, alguns jornalistas manifestavam opiniões completamente opostas, o que é absolutamente normal numa democracia. Ambas as teses foram sustentadas desde outubro do ano passado, quando do indiciamento dos Castroneves e do advogado esportivo do piloto, o norte-americano Alan Miller. Mas quando chegou o dia do veredito final, sexta-feira agora (17 de abril), foi possível ler, nesses mesmos veículos, digamos, mais pessimistas, toda ordem de manifestações de surpresa, afinal, à leitura diária de alguns desses espaços, dava-se mesmo a impressão de que a condenação era iminente. Entretanto, para mim, não foi surpresa. Quem me dá a honra de ler esse espaço, ao longo dos meses pôde se deparar com os argumentos que me levaram a ter e reforçar essa certeza. Não se trata aqui de festejar uma posição que se confirmou, mas sim de aproveitar a oportunidade para tentar explicar a filosofia deste site e homenagear pessoas de valor inestimável.

Em primeiro lugar, não posso julgar ninguém por apresentar uma abordagem diferente da minha sobre este ou qualquer outro caso. Não tenho esse direito porque a liberdade de expressão implica em responsabilidade e cada um sabe da sua na hora de dedilhar no teclado um conjunto de letras para informar ou expressar uma opinião. Cada um que assuma as responsabilidades do que escreve ou diz. Nesse sentido, não creio que a minha opinião seja importante e, além disso, seria apenas mais um opinando sobre assuntos que muitos já o fazem. Assim, pretendo fazer do Diário Motorsport uma fonte de opinião (sim, mas somente às vezes) e, principalmente, de informação inédita. Qual seria a graça de ser mais um a falar do difusor da Brawn GP ou dos capôs voadores da Stock Car?

Então, o Leitor pode estar perguntado por que eu assumi uma posição no caso do Helinho e não simplesmente noticiei? A resposta é simples. Acho que a opinião é algo importante e que não deve ser banalizada, mas existem momentos que um jornalista precisa assumir posições claras, principalmente diante de uma injustiça como a que estava sendo cometida contra Helinho e sua irmã Kati. Para ter essa certeza desde o início, tive a meu favor, em várias épocas diferentes, a condição de “testemunha privilegiada” que nenhum outro jornalista teve.

Uma delas, a mais recente e sobre a qual não fiz alarde, foi como testemunha de defesa de Helinho. Nesse sentido, estive na Corte de Miami na manhã de 2 de abril deste ano. Diante do juiz Donald Graham e dos membros do júri, pude contar o que sei sobre Helinho e sua família por 1h15min. Fui arguido pelos advogados de defesa, Roy Black e Howard Srebnick, e também pelo promotor Matt Axsroi. Este, apesar de se dirigir a mim de forma objetiva e com perguntas pontuadas, destas muito bem elaboradas para provocar um “escorregão’ nas respostas, primou pela educação e gentileza. Já Black e Srebnick merecem um capítulo especial, tamanha a competência, dedicação e a total devoção ao caso Castroneves. Conhecê-los foi um privilégio, da mesma forma que a David Garvin, advogado tributarista que teve uma papel fundamental em todo o trabalho.

É claro que durante o processo, justamente pela minha condição, não poderia simplesmente escrever tudo que via e ouvia. Tentei fazer desse site uma fonte de informação precisa sobre o que acontecia do lado de fora do plenário, nunca entrando no mérito do que estava acontecendo lá dentro. Mesmo assim, a promotoria chegou a reclamar para a defesa de que eu estava escrevendo sobre o julgamento. Dado o teor do que publiquei, em nenhum momento usando a condição de testemunha para facilitar o trabalho do jornalista, a demanda não teve eco. Mas, confesso, fiquei até meio lisongeado ao encontrar nos relatórios de acesso do site várias identificações para GOV USA.

Ainda no papel de privilegiado observador de um momento de forte impacto na vida dos Castroneves, pude estar com pessoas que lá estavam, na ensolarada Miami, com o mesmo propósito que o meu, dizer a verdade, sob juramento (como nos filmes), para que a justiça fosse feita. E que gente especial! Raul Seabra, Eduardo Homem de Mello, Heloisa Azevedo, Dr. José Maria da Costa, Renata Pepe, José Salles, Marina Penha e ainda, no fantástico apoio, Dra. Rita Costa e Aletéia Aleixo. E lá no escritório da Castroneves Racing, em Miami, a querida Fernanda Mello, com sua fé e força de trabalho.

Antes, muito antes, vi o Helinho vencer sua primeira corrida de kart (Jaú- SP, 1988), estive com ele na conquista de campeão brasileiro de kart (Viamão-RS, 1989) e em rigorosamente todos os títulos conquistados por ele no kartismo, afinal, fui seu primeiro assessor de imprensa e único em toda a fase da categoria-escola. Estive com ele também em toda a temporada de Fórmula Chevrolet (1992) e na estréia na Fórmula 3 Sul-americana (1993), esta última já não mais na condição de assessor de imprensa. Depois, já como editor de revistas especializadas, acompanhei in loco as duas vitórias dele em Indianapolis (2001 e 2002, pela revista Racing) e também vi-o trepar em outras grades durante coberturas da Indy.

Essa trajetória toda permitiu que eu conhecesse muito de perto Helinho e Família. Não estou falando desse ídolo internacional às vésperas de completar 34 anos e que passou pela experiência mais sofrida de sua vida. Refiro-me ao garotinho de 13 anos que eu conheci nos kartódromos, buscava no aeroporto e hospedava em casa em algumas oportunidades. vi esse garoto crescer, vi o sacrifício da família, vi a forma dedicada como encarava o esporte, vi abrir mão de facilidades da adolescência para tornar-se um piloto profissional. Vi a formação do esportista, mas vi também a formação dos cidadãos (incluo aqui a Kati, que abdicou de uma carreira como bailarina internacional para ajudar na carreira do irmão, sendo hoje a gerente da carreira e negócios), formação sólida que só poderia ser dada aos filhos em um lar estruturado, unido e repleto de fé como o de Sandra e Hélio pai, dois verdadeiros gigantes que carregaram essa carga inimaginável de forma heróica, mantendo a família unida em todos os momentos, principalmente nos mais desesperados.

Daí a minha certeza desde o início. Evidentemente que fiquei feliz e emocionado com o veredito, mas só confirmou o que eu já sabia e sentia. Só estaria usando os mesmos termos que a imprensa está usando hoje para falar da absolvição – “surpresa”, “inacreditável”, “contra todos os prognósticos”, “milagre” e etc – , se fossem declarados condenados. E são inocentes e ponto final. Isso porque, nos Estados Unidos, a justiça vira e revira a sua vida de cabeça para baixo e atua em todos os flancos. E se o veredito é pela absolvição, realmente e sem sombra de dúvidas, você é inocente.

É, eu estava certo!

Foto Ron McQueeney/Serviço de Imprensa da Indy Racing League

7 COMENTÁRIOS

  1. Texto brilhante!!! Verdade acima de tudo!!! Vc tem cara de cientista mas tem a sensibilidade de um poeta. Agradeço pela deferência. Mas, na bôa, como falei, matei aquele puto daquele promotor encarando ele como brazuca marrento que sou. Não devíamos nada a eles. E isso se extende a quem vc desejar. Abraço, irmão!!! Pretendo vê-lo de novo!!

  2. américo, na torcida pela absolvição buscava por aqui subsídios de informação clara no mesmo sentido da torcida. claro que estava seu apoio e interação sobre o assunto, saber “das últimas” em direção ao desejado foi deveras reconfortante. os bons ventos sopraram. paz aos castroneves.

  3. Américo,

    Que prazer “conhecer” você, pelo visto uma pessoa grandiosa também, assim como seu trabalho…Uma pena que só vim a ter conhecimento do teu site, apenas uma semana antes do final do julgamento do Helinho e da Kati…
    Tu estás de parabéns mesmo, pelo belo trabalho, e acreditar que a justiça seria feita, como aconteceu…
    Admiro muito o trabalho e a pessoa do Helinho, e sou uma apaixonada por automobilismo, e por esse infeliz acontecimento pude “vir a conhecer” (pelo menos via “contatos virtuais”) pessoas maravilhosas ligadas a ele e a família dele, como você, o Eduardo Homem de Melo e a Aletéia…
    Belo texto!!!
    Obrigada, mais uma vez.

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