Fundou também a Lauda Air, uma empresa de aviação que teve rotas para o Brasil

Por Américo Teixeira Junior – Fotos Rodrigo Berton/Grande Prêmio

A mais completa cobertura do falecimento de Niki Lauda está no Grande Prêmio

Niki Lauda disputou 171 GPs, dos quais venceu 25; foram mais 20 pódios pelo 2º posto e outros nove pelo 3º lugar

Eu era criança ainda, quando me “converti”. Lá pelos 10 anos, entreguei-me a uma “religião”, a Fórmula 1, e me tornei devoto de seus “santos”, os pilotos. Pode parecer exagero – e é -, mas era exatamente assim que via aquele mundo que para mim era “encantado”.

Era a temporada de 1972, com esporádicas exibições na televisão brasileira, e passei a registrar cada corrida num caderninho. Ficou claro que a televisão não me bastava e passei a buscar detalhes nos jornais e nas revistas. Acho que foi aí que teve início essa compulsão pela apuração.

Minha mãe, a inesquecível e saudosa Dona Marinalva, era quem me comprava os impressos quando ia ao supermercado ou outro lugar qualquer. Num desses, tinha a foto de umjovem e mina mãe disse carinhosamente: “Ele é dentucinho como você!”. Essa é a primeira lembrança que tenho de Niki Lauda.

Torcia intensamente por Emerson Fittipaldi e a presença de Lauda na Ferrari a partir de 1974 fazia dele adversário direto do brasileiro. Depois do título de 1972 e o vice de 1973, Emerson foi para a McLaren como o número 1 do mundo. Tanto que, naquele ano, conquistou seu segundo título mundial. Lauda vinha em larga ascensão e venceu dois Grandes Prêmios, mas foi só em 1975 que ele passou a ser, efetivamente, o Grande rival de Emerson. No final, o austríaco levou a melhor e faturou seu primeiro título, com Emerson em 2º.

Por esse cenário construído ao longo dos dois últimos anos, 1976 seria uma temporada absurdamente disputada. De um lado, Emerson Fittipaldi e o McLaren M23 Cosworth DFV 3L V8. De outro, Niki Lauda e o Ferrari 312T, com câmbio transversal e motor de 12 cilindros. Seria um campeonato daqueles…

Eis que Emerson, ainda no fim de 1975 e mesmo após ter feito o primeiro teste com o M23 da próxima temporada, anunciou a ida para a Copersucar-Fittipaldi, deixando vago o cockpit mais cobiçado daqueles tempos.

Enquanto isso, James Hunt entrava em desespero, pois a equipe Hesketh fechava suas portas por falta de dinheiro, deixando o piloto pop star na “fila do seguro desemprego”. Há uma certa controvérsia sobre como Hunt foi parar no lugar do brasileiro. Não importa, na verdade, se ele foi contratado de forma quase automática ou se implorou de joelhos a oportunidade para Teddy Mayer. Fato é que quem entrou foi Hunt. Mas se as coisas pareciam caminhar para o bi de Lauda, o acidente de Nurburgring botou o Mundial de pernas para o ar.

É importante ter em vista os recursos disponíveis na época. Os detalhes chegavam aos poucos, basicamente pelo rádio e o impresso do dia seguinte. E eram desesperadores! Para que nasceu num lar católico, a simples menção ao ofício da extrema unção era algo de dimensões gigantescas. Mas assim como nos filmes e fábulas, Niki Lauda materializou a figura do gigante renascido das cinzas.

Tudo isso e o que aconteceu após, a história registra, mas para garoto de seus 14/15 anos, era um feito tão extraordinário que transformara um piloto em verdadeiro deus. E lá fui eu, sabe-se lá com quais sonhos na cabeça, escrever o meu primeiro “livro”.

O título era: “Niki Lauda – Antes de depois de Nurburgring”. Foi escrito num caderninho escolar, com uma caneta tinteiro que eu tinha ganho do meu pai, o Seu Américo, homem maravilhoso que a vida me roubou cedo demais. Claro que nunca foi publicado e, para minha frustração imensa, procurei-os tempos atrás, mas não encontrei os caderninhos de corridas e nem o “livro”. Revisitar a mim mesmo seria uma experiência interessante …

Os anos se passaram e um dia, já como jornalista, topei com Niki Lauda pela primeira vez. São absolutamente raras minhas fotos com pilotos. As que tenho foram feitas por grandes fotógrafos e a mim ofertadas gentilmente. As que tenho lembrança ou vejo no meu escasso mural não foram solicitadas por mim. Autógrafo, então, menos ainda. Todos da época anterior à minha profissionalização. Admiro quem tenha essas lembranças e acho legal cultivá-las, apenas que eu estabeleci alguns padrões que me distanciaram dessas práticas.

Isso para explicar que lá estava Niki Lauda. Eu parei, olhei e com o coração disparado, sorri. Ele fez um aceno com a cabeça. Pura educação de quem vê alguém no seu caminho. Foram diversas as outras oportunidades, depois disso, que Niki Lauda e eu dividimos o mesmo ambiente. Sempre tive uma dificuldade enorme para entender sua fala, mas ouvia tudo, com o coração disparado. Sem fotos ou autógrafos, mas ouvido atento.

Ontem, o coração disparou, tanto, que fui dormir sem escrever. Como naquela primeira vez, parei, mas sem o sorriso.

Campeão mundial em 1976, 1977 e 1984, Niki Lauda foi vice-campeão no ano de seu inclassificável acidente em Nurburgring

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