marcosg50s_detalhe2bContratado no início de 2007 pelo grupo britânico LNT, proprietário da Ginetta Cars, o engenheiro brasileiro Marcos Lameirão (foto) foi um dos principais responsáveis pelo novo carro da em­presa, o Ginetta G50, que conquistou o título do Campeonato Britânico de GT4 de 2008. Oriundo da JL Racing de Zeca Giaffone, o filho do lendário piloto Francis­co Lameirão vive em Leeds, norte da Inglaterra, País no qual recebeu a re­por­tagem no stand da Ginetta Cars, na Autosport International 2008. Na ocasião, em janeiro, Lameirão estava participando da apresentação do G50 no mesmo local onde, exatamente um ano antes, em 2007, fazia a entrevista para o emprego que acabou conseguindo. O carro é usado tanto na GT4 britânica e européia, quando no campeonato próprio, o Ginetta Cup, que teve a G50 sendo disputada pela primeira vez na temporada passada, ao lado da Ginetta 20 Sênior e Ginetta Júnior, onde correu Josh Hill, filho de Damon Hill.

Lameirão falou do trabalho intenso que marcou a criação do novo carro e a seqüência dos trabalhos que ocorreu, na seqüência, com a criação de uma versão de rua. Fez uma comparação entre a forma de trabalhar do mecânico brasileiro e do inglês, ao mesmo tempo em que falou da satisfação de projetar um carro em mais de 90% de sua totalidade e vê-lo nas pistas vencendo corridas e também um campeonato importante com o GT4 do Reino Unido.

Entrevista a Américo Teixeira Jr., de Birmingham, Inglaterra

DIARIO MOTORSPORT – Gostaria que você explicasse qual foi a sua participação nesse projeto do Ginetta 50.
MARCOS LAMEIRÃO – Na verdade, eu desenhei a maior parte do carro. em 2007, aqui na Feira, eu estava fazendo a entrevista para esse trabalho. Acho que eu fui o único louco suficiente para pegar o trabalho porque ninguém achou que fosse possível fazer o carro no tempo que a gente fez. Eu desenhei o carro praticamente inteiro. Em outubro do mesmo ano entraram dois designes para me ajudar, mais na parte de produção. Pode-se dizer que eu desenhei mais de 90% do carro. Claro que usei a experiência de todo mundo, mas a parte operacional, de desenho, foi toda minha.

DM – Qual era a recomendação que você tinha da empresa quando começou a trabalhar no carro?
LAMEIRÃO – Era fazer um carro simples, fácil de mexer e com bom custo benefício. Quando você está desenhando, sempre quer partir para uma solução mais high tech, mas nesse caso não. A gente tentou manter tudo o mais o simples possível. E eu acho que esse objetivo foi atingido. O Ginetta G50 pode correr no FIA GT4 é o mais barato da categoria. Mas está bem competitivo, mesmo assim.

DM – E motorização e eletrônica?
LAMEIRÃO – É um motor Ford 3,5 litros, norte-americano, dependendo da parte eletrônica fica entre 260 cv e 300 cv. Eletronicamente ele já é relativamente mais complexo. Uma Motec M800, que uma ECU bem avançada. O acelerador eletrônico, o drive-by-wire (acelerador acionado eletronicamente). Há a possibilidade de habilitar controle de tração e uma série de coisas, mas a opção é não fazer no momento. Como a idéia é ter um campeonato que funcione como degrau para chegar num GT, não tem sentido aplicar tudo isso agora.

DM – Se você tivesse de comparar esse carro novo com o G20, modelo anterior da Ginetta e que está nas pistas, o que você conseguiu aproveitar do projeto anterior?
LAMEIRÃO – Nada. Ele é completamente diferente, a gente realmente começou do zero. O G20 é um carro com certa tradição, que eles vêm fazendo há muitos anos. Na verdade, o LNT Group, para quem eu trabalho, comprou a Ginetta há dois anos e meio atrás. Então, eles querem dar uma evolução na Ginetta e esse carro se chama G50 porque agora, em 2008, a Ginetta está completando 50 anos.

DM – Entre o momento em que você, já contratado, sentou na cadeira pela primeira vez, até o dia em que o carro ficou pronto, quantos meses se passaram de trabalho?
LAMEIRÃO – Efetivamente eu comecei a trabalhar em março do ano passado e o carro andou pela primeira vez na primeira semana de setembro.

DM – Que tipo de estrutura você teve para poder realizar esse trabalho em tempo recorde?
LAMEIRÃO – O cara que trabalhou comigo a maior parte do tempo foi o Simon Finnis, o Project Manager. Ele me ajudou muito porque foi atrás dos fornecedores, me levava lá para conhecer, entrava em contato com as empresas e eu ficava mais concentrado na parte de desenho no computador. Basicamente nos primeiros quatro meses fui eu e ele somente trabalhando no projeto. Depois, conforme o protótipo começou a ser montado, veio mais gente do time para ajudar e no lançamento do carro, em janeiro na Autosport, praticamente todo o setor automotivo da LNT (LNT Automotive) estava envolvido, com cerca de 30 pessoas.

DM – Depois daquela primeira vez que o carro foi para a pista, em setembro, quais foram os passos seguintes no programa de desenvolvimento?
LAMEIRÃO – Duas semanas e meia depois, o Lawrence Tomlinson, chairman do LNT Group, decidiu que faríamos a corrida da GT4 em Nogaro, na França. Fomos para lá com 2,5 horas apenas de pista. Eu tive 1,5 dias para desenhar as lanternas do carro. Foi meio loucura, mas acabou dando certo porque o resultado foi o 2º lugar na primeira corrida na GT4. Foi bem legal. Depois, com esse primeiro protótipo, foram cumpridas umas 40 horas de running (teste de pista). A prova na França acabou sendo um dos primeiros testes.

DM – Quantos carros estão sendo produzidos neste ano?
LAMEIRÃO – Na verdade, a idéia era ter um grid de 26 carros na Ginetta G50 Cup, mas a procura foi grande e já foram vendidos muito mais do que isso. Muitos times da GT4 gostaram do carro, pois não precisa um staff muito grande para fazer o campeonato, além do preço. Ja foram entregues 49 carros e estamos no chassi número 70. Ganhamos corridas na Bélgica e Espanha em campeonatos locais por lá.

DM – Quem são os principais concorrentes do G50 na GT4?
LAMEIRÃO – É basicamente o Aston Martin N24 V8 Vintage no Campeonato Britânico. Já no Europeu há também o Aston Martin, Nissan 350Z, BMW Z4, Lotus Elven, Mustang FR500. A questão está no preço e no desempenho. O G50 custa, na sua versão Cup, cerca de £ 40.000 e £ 45.000 na versão GT4 (algo entre R$ 140.000 e R$ 160.000). Todos os outros custam muito mais. O Aston Martin e o BMW, por exemplo, são carros caríssimos.

DM – Profissionalmente, como tem sido essa vida inglesa?
LAMEIRÃO – É um aprendizado contínuo. O jeito do inglês é bem diferente do brasileiro. Está valendo muito. O meu último emprego no Brasil foi na ZF e eu gosto muito do pessoal lá. Aqui está sendo um desafio muito bom para mim. É diferente, mas eu não posso reclamar. O pessoal me recebeu muito bem e foi muito paciente comigo porque, por mais que você fale inglês no Brasil, quando chega aqui tudo é muito diferente. Tem sido um bom aprendizado nesse aspecto também. A dinâmica do mecânico inglês é bem diferente da do brasileiro. Eles trabalham mais concentrados do que os brasileiros e procuram fazer as coisas com um mínimo de esforço para o máximo resultado. Eles são bem pragmáticos nesse aspecto. Mas se você, às vezes, precisa trabalhar até mais tarde, a turma já faz cara feita. Eu acho que o mecânico brasileiro tem muito mais boa vontade que o inglês. Vira a madrugada sem nenhum problema. Aqui a coisa não é bem assim. Isso sem falar no talento, que ambos têm, obviamente. O inglês trabalha mais focado, não se dispersa tanto.

Entrevista editada a partir da publicação original na MOTORSPORT BRASIL nº 30 (Junho/Agosto de 2008)

Foto fornecida por LNT Group

2 COMENTÁRIOS

  1. tive a oportunidade de pilotar um dos primeiros projetos do Marcos no ano de 1995. na epoca pilotava no campeonato da Parilla em Sap Paulo e conhheci o Marcos eo o famoso Chico Lameirao, pai do Marcos. o kart era muito bom, facilde pilotar, resistente, realmente muito bom. tenho certeza que que este novo projeto do Marcos é um dos muitos sucessos que veremos deste grande profissional. boa sorte e que \deus te acompanhe.

  2. Boas colega Américo

    Estive com o pai de Marcos (o grande Chico) em Interlagos sábado passado durante prova da GT3 e batemos um papo sobre o passado. Ele falou que está escrevendo um livro e como sou jornalista fiquei de divulgar na oportunidade de lançamento. Ficamos de marcar um novo encontro, pois tenho material para repassar a ele. Mas perdi seu telefone, já que ele falou que não utiliza internet. Poderia ajudar-me ou passar o e-mail do Marcos. Desde já agradeço.

    Abraço

    Fernando Passos
    [email protected]

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