A dúvida é saber até quando o grupo norte-americano terá fôlego para segurar as pontas de equipes e promotores

Por Américo Teixeira Junior

George Russell e o Williams FW43 no Red Bull Ring: arquibancadas vazia – Foto Williams F1 Media (Zeltweg, Áustria, 10.07.2020)

A Fórmula 1 conseguiu passar pelo desafio de iniciar a temporada 2020 sem coronavírus em seu seio. As duas provas consecutivas no Red Bull Ring foram cercadas por um aparato sanitário que, pelo menos aparentemente, deu conta do recado. Não faltaram alguns deslizes, é verdade, mas a tal da “bolha” permitiu que as corridas acontecessem e experiências fossem acumuladas num cenário no qual, convenhamos, ninguém sabe direito para que lado virar. Apesar disso, sobraram questões ainda não respondidas e a principal delas é: quem paga a conta?

Sim, trata-se de uma pergunta pertinente porque estão fora de combate algumas das principais fontes de renda do Liberty Media, grupo norte-americano de entretenimento que comanda a categoria, e promotores locais. As mais visíveis são justamente aquelas proporcionadas pelo público, barrado atualmente. Ingressos, dos “populares” aos mais sofisticados, e áreas para receber convidados VIPs, os chamados Hospitalities Centers, somam grandes arrecadações e geram outros diversos negócios paralelos como praças de alimentação, atividades de lazer, comércio de artigos oficiais, exposição de produtos destinados àquele público algo, etc.

Embora sejam dados fechados, estima-se que a arrecadação de um GP de Fórmula 1, apenas no que se refere ao envolvimento direto do público, gire em torno de US$ 20 milhões por corrida. Isso sem contar a comercialização de publicidade e as taxas cobradas pela detentora da categoria. É nesse ponto que reside outra grande interrogação.

Como qualquer outra categoria profissional de automobilismo, a Fórmula 1 não corre necessariamente onde quer, mas desembarca onde paguem melhor. Essa foi a razão pela qual Bernie Ecclestone, quando ainda era o Supremo da Fórmula 1, expandiu o calendário para países com pouca – ou nenhuma – tradição no automobilismo, mas repletos de riquezas, quase sempre turbinadas pelo petróleo.

É sabido que essas taxas não são uniformes, variando entre US$ 20 milhões e US$ 50 milhões, dependendo do tempo de contrato e das característica locais. O Brasil, por exemplo, foi isentado de taxas no último contrato, assinado em 2014 e que termina agora em 2020.

Fato é que, atualmente, o cenário mudou. Se o Liberty Media tinha o “mundo” a seu dispor, podendo cobras taxas altas de interessados em maior número do que os disponíveis no calendário, agora são poucos os destinos. Logo, é mais do que natural que gestores locais queiram renegociar seus compromissos.

Como normalmente não são negociações muito fáceis, não é difícil imaginar que alguns promotores sintam, no íntimo, um inconfessável sentimento de vingança nessas horas. Mas a questão é prática. A operação de um GP de Fórmula 1, para o promotor, custa caro. A conta dificilmente fecha com valores inferiores a US$ 15 milhões. A receita, normalmente, vem da bilheteria. Assim, compensações são mais do que necessárias.

É claro que as contas vão parar no colo do Liberty Media, cujos executivos estão com a “batata quente” na mão. Não deve ser mesmo uma operação muito tranquila de equacionar: resolver as demandas da hora que passa (como dizia o antigo locutor do rádio), mesmo que sem lucro, mas sem comprometer o caixa do grupo e o futuro da categoria. Como devem ganhar bem para o que fazem, o desafio presumivelmente está em boas mãos.

Largada GP da Estíria - Foto LAT/Mercedes F1 Media (Zeltweg, Áustria, 12.07.2020)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here