Aos 21 anos, esse mineiro nascido no Japão já é campeão no automobilismo real e virtual

Por Américo Teixeira Junior

Campeão do Toyota Racing Series, Igor Fraga festeja a conquista no Circuito Chris Amon ao lado do pai e principal apoiador, Fabrizio Fraga (esq.) e de seu coach, o ex-piloto de Fórmula 1 Roberto Pupo Moreno. Fotos JOHN COWPLAND/Toyota Gazoo Racing NZ (Fielding, Nova Zelândia, 16.02.2020)

“São 30 kg, senhor Fraga”.

Assim avisou a funcionária da companhia aérea naquela segunda-feira, 17 de fevereiro último, na Nova Zelândia, sobre o excesso de bagagem. O senhor Fraga em questão, um garoto de prenome Igor – e Omura como nome do meio -, bem que estava desconfiado que isso de fato aconteceria. Mas ele e o seu pai, o mineiro Fabrizio Fraga, nem se importaram, pois o motivo do sobrepeso era mais do que bem-vindo.

A bagagem estava abarrotada de troféus, 15 para ser mais exato, incluindo o de campeão do Toyota Racing Series, título que aos 21 anos acabara de conquistar, e o Chris Amon Trophy, em homenagem ao ex-piloto neozelandês de Fórmula 1, Christopher Arthur Amon, o Chris, como era conhecido (este repórter odeia adjetivos em textos jornalísticos, mas abre aqui uma exceção para expressar encantamento pelo Chris Amon Trophy, um dos mais lindos e simbólicos troféus do automobilismo).

O título resultou de cinco semanas ininterruptas de disputas no país de Bruce McLaren. Foram quatro vitórias em 15 corridas, quatro poles, mais cinco pódios e uma margem de seis pontos sobre seu principal adversário, o neozelandês Liam Lawson, ambos da M2 Competition.

Pois foi exatamente esse título, conquistado no dia 16 de fevereiro, que pavimentou seu caminho até aquele 16 de março, quando a Red Bull anunciou o ingresso de Igor Fraga em sua academia para jovens talentos. Feito de inegável relevância, significa que haverá muito trabalho pela frente. Nada, porém, que assuste a ele e seus pais, cuja história até aqui tem ares dramáticos, alguns ainda anteriores ao seu nascimento do garoto.

Todos os troféus sobre o carro, em seus braços e os todos os demais conquistados no giro neozelandês, não passaram incólumes pela balança do aeroporto – Foto JOHN COWPLAND/Toyota Gazoo Racing NZ (Hampton Downs, NZ, 02.02.2020)

Japonês-mineiro (ou Mineiro-japonês?)

Esse lado japonês de Igor Fraga merece um capítulo destacado, pois ofereceu a ele inestimável ganho cultural e experiência internacional precoce. Corria o conturbado ano de 1992, ocaso do governo Fernando Collor de Mello, quando seguiram para terras japonesas, desde Ipatinga (MG), Fabrizio Fraga e Diana Omura. Casados no ano anterior, passaram por dificuldades extremas no Japão, sendo trilhados os primeiros passos literalmente entre suor, lágrimas e trabalho, muito trabalho. Pesavam o preconceito contra estrangeiros e desconhecimento do idioma.

Mecânico Industrial de formação, Fabrizio não conseguiu de pronto exercer sua profissão. Por outro lado, a união do casal só se fortalecia, tornando-se maior ainda seis anos depois. Igor nasceu às margens do Mar do Japão, na capital da província de Ishikawa, Kanazawa. Naquele sábado outonal, 26 de setembro de 1998, um futuro nas pistas talvez já passasse pela cabeça de Fabrizio, ele próprio um apaixonado por carros de corrida e preparação.

Mais ou menos na mesma época, Fabrizio viu dar frutos seus esforços de anos e passou a trabalhar com manutenção de máquinas industriais. A partir daí, não parou de crescer. Já com um vocabulário bem mais amplo do que Ohayou Bom dia e Kon’nichiwa Boa tarde e Konbanwa Boa noite (se estiver errado, a “culpa” é do Google Translator), sentiu a necessidade de estudar porque a indústria japonesa era extremamente mais moderna do vira no Brasil.

Relembra que ficou apaixonado por robótica e seu interesse, aliado à intensa dedicação aos estudos, gerou mudança de área. De mecânico de manutenção, passou a ser especialista em robôs, projetos de máquinas e programação.

Tanto cresceu que os últimos oito anos de Fabrizio no Japão, dos 20 que lá passou, foram dedicados à sua própria empresa, especializada em projetar maquinário para os mais diversos setores, incluindo as unidades centrais de eletrônica e informática, além da programação.

Período próspero, poderia ter durado por muito mais tempo (quem sabe se não até os dias de hoje, né?), não fosse a crise global da economia a partir de novembro de 2008, quando estourou a “bolha” imobiliária nos Estados Unidos. A consequência direta foi a paralisação nos negócios durante quase todo o ano de 2009, seguida por lenta retomada. Era chegada a hora de voltar ao Brasil.

A mãe Diana ansiava pelo convívio do filho com a família no Brasil e a assimilação da cultura nacional. Assim, em 2011, Igor passou a residir em Ipatinga (MG), que até então só conhecia por meio de visitas esporádicas na infância. Ele tinha 13 anos e cinco temporadas no kartismo japonês e internacional. Seu pai, o parceiro de pista, ainda ficaria no Japão até o final de 2012.

Nasce uma carreira

Na verdade, demorou pouco tempo para que Fabrizio iniciasse uma rotina que já dura 15 anos, a de promover e prover a estada de Igor nas pistas. Como kartista, o catatau começou a correr com seis aninhos e venceu diversos torneios entre 2004 e 2008. Foram exatos 11 títulos correndo não apenas no Japão, mas também em Macau, Indonésia, Tailândia e Filipinas. Acrescentou também ao currículo participações no Mundial de Kart, na Europa.

Nessa frequência de dois títulos por ano, o entusiasmo do piloto só crescia. Mas a mesma crise de 2008, que derrubou a empresa da família, revelou-se cruel para a carreira de Igor, porém, ponto de partida para grandes transformações. Algo na base do transformar o limão em deliciosa limonada.

No Japão desde a infância e no Brasil a partir de 2011, Igor sempre esteve muito ligado em tecnologia e apaixonado por jogos de computador, notadamente os de corridas automobilísticas. Aparentemente, as telas de computadores e os simuladores eram instrumentos de preparação para quando voltasse às pistas. Mas não só.

O kart já era coisa do passado e o objetivo de Igor passou a ser o monoposto. O esforço, como não poderia deixar de ser, foi enorme e envolveu Fabrizio e Diana. Em 2014, enfim, estava de volta às pistas.

Inicialmente, foram algumas provas em categorias de base do automobilismo paulista, como Fórmula 1600 e Fórmula Vêe. Ganhou corridas e deu o próximo passo. Foi aí que ele encontrou um senhor entusiasmado e jovial chamado Dárcio dos Santos, cujos cabelos brancos apenas revelam uma vida inteira dedicada ao automobilismo. A vitalidade, entretanto, é a de quem começou ontem sua tradicional Prop Car Racing.

A relação de piloto com chefe de equipe se transformou numa amizade entre famílias e, mesmo com sacrifícios e apertos de todos os lados, foram cumpridas três temporadas na Fórmula 3. Das 16 provas do calendário 2015 da categoria Light, Igor venceu quatro e encerrou o campeonato no 3º posto com o Dallara F301 Berta F3 da Prop Car Racing. A tentativa de subir para a categoria principal não deu muito certo em 2016. Esteve em apenas quatro provas, das 16, e o melhor resultado, um 3º lugar na última etapa, em Interlagos.

A volta para a Fórmula 3 Light em 2017 poderia parecer um recuo, mas Igor, Fabrizio e Dárcio sabiam o que estavam fazendo. E como sabiam. O título veio após 10 vitórias, sete poles e sete melhores voltas. Tudo isso festejado também com o título de equipes para a Prop Car Racing.

Campeão Mundial

Enquanto os resultados em pista se tornavam cada vez mais sólidos, o empenho no automobilismo virtual também era evidente. Já fazia – ou pelo menos deveria – ser coisa do passado o preconceito contra os “pilotos de computador”. Obviamente que nunca deixou de ser, para a maioria dos adeptos, entretenimento e diversão. Mas a inquestionável profissionalização da outrora brincadeira faria de Igor, aos 19 anos, passasse a ser um ídolo internacional da modalidade.

E motivos não faltaram.

Pode-se dizer que a maioridade do automobilismo virtual ocorreu em 2018. Popular no mundo todo, ganhou status com a criação, pela Federação Internacional de Automobilismo, do primeiro mundial da modalidade. O FIA Gran Turismo Championship Nations Cup foi encerrado em Mônaco com a vitória de Igor Fraga, um campeão mundial da “tribo” do automobilismo sem fronteiras ou barreiras entre o virtual e o real.

E não ficou por aí. Venceu também outra competição internacional do automobilismo virtual, o McLaren Shadow, cuja final aconteceu na sede da equipe de Fórmula 1, na Inglaterra. Essa nova conquista aconteceu em janeiro de 2019 e, depois disso, focou no Fórmula Regional European. Na estreia no automobilismo europeu, fechou o ano em 3º, com quatro vitórias.

Tempo de espera

Igor mora atualmente na República Tcheca, país do leste europeu que agora se chama Tchéquia, após decisão do congresso nacional. É na capital Praga seu novo endereço, cidade sede da Charouz Racing System, equipe que defenderá no FIA Formula 3 Championship.

Igor, Fabrizio, Diana e demais familiares estão reunidos em Ipatinga desde a noite de domingo (15), quando pai e filho chegaram de uma longa viagem, a partir de Praga. Nesses dias obscuros de coronavírus, o piloto está junto aos seus, mas certamente contando os dias para iniciar o novo desafio, agora potencializado por Helmut Marko, o homem da academia Red Bull que vive com cara de bravo, que tem o celular direto de Igor. E para o bem ou para o mal, o austríaco liga a qualquer hora. É ou não é um desafio?

3 COMENTÁRIOS

  1. Parabens pela reportagem.
    Eu talvez seja fa número 1 do Igor, depois e claro do pai e da mae.

    Mas alguns detalhes gostaria de compartilhar do Igor. No Japao quando corria de kart, ja apresentava-se como eximio acertado de chassi e motor. Sempre que chegava em uma pista desconhecida (mesmo com apenas 15 minutos de treino) ele batia o Record da categoria naquela pista.
    Os expet da Mclaren Shodow, perceberam durante os testes, que o Igor tem percepções apuradissimas de reflexo lateral e memorização. No teste realizado na Inglaterra, eles ficaram boquiabertos ao sentir que em apenas 15 minutos de treino Igor tinha um diagnóstico completo do carro apresentado.

    O que mais agrada nesse piloto e a sua competitividade, humildade e temor a DEUS, assim como foi nosso saudoso Ayrton Senna.

  2. Que matéria!

    Parabéns pela forma com que explorou o lado humano e também geopolítico. Por algumas vezes já havia me perguntado o porque dos jornalistas do Grande Prêmio dizerem “Tchéquia” ao invés de “República Tcheca”, mas agora descobri.

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