Por Americo Teixeira Jr. – Embora sejam inegáveis os méritos que resultaram num grid de 16 carros na abertura da Fórmula 3 Brasil, em Viamão (RS), há passos importantes que devem ser dados imediatamente para que esse bom resultado não se desmanche ao longo do ano. Não é o bastante o campeonato ter renascido bem, tem de ter ferramentas que permitam o seu crescimento. A Fórmula 3 não é um “mundo” em si mesmo, mas uma “ponte”, de modo que suas “raízes” tem de ultrapassar fronteiras.

A Confederação Brasileira de Automobilismo, a empresa promotora Vicar e os donos de equipes de Fórmula 3 assumiram compromissos e o campeonato só está acontecendo no atual formato porque nenhuma das partes roeu a corda. A entidade homologou o campeonato brasileiro e o isentou de taxas. A Vicar incorporou a categoria de monopostos aos seus demais eventos, principalmente o Brasileiro de Marcas, garantiu transmissão e promoveu a diminuição custos para as equipes, notadamente em relação aos pneus Pirelli. As equipes tiraram os carros das garagens e os colocaram na pista, adequando-os aos custos estabelecidos em acordo.

Há de se dar “nomes aos bois”. As ações no âmbito da CBA tiveram a participação direta do presidente Cleyton Pinteiro e do diretor de marketing Paulo Gomes. O diretor geral da Vicar, Maurício Slaviero, assumiu uma tarefa nada fácil de promover o novo certame. Mas nenhum desses esforços teria sido o bastante, não fossem os carros na pista por intermédio dos chefes de equipe Augusto Cesário, Dárcio dos Santos, Eduardo Benites, Mário de Souza, Robson Santos, Rodrigo Contin e Rogério Raucci.

O futuro é agora

É inegável que o atual formato é vitorioso, mas ganha maior dimensão se comparado aos derradeiros e sofridos anos do extinto Sul-americano. Entretanto, se a base de comparação for o Sul-americano do final dos anos 80 e início dos 90, quando era promovido por Antonio de Souza Filho e Alan Magalhães, há uma trilha muitíssimo longa para ser percorrida. Como o automobilismo mudou muito nos últimos anos, as ferramentas atuais podem não ser exatamente as mesmas daqueles tempos. Mas independe de época a necessidade de tornar um campeonato forte e sustentável. Logo, há alguns passos que podem ser analisados e eventualmente executados:

INSTITUIÇÃO – O sucesso da Fórmula 3 passa necessariamente pela sua mudança de status. Como cabe a ela o papel principal de revelar talentos para o automobilismo internacional, esse fato por si só já a eleva um patamar diferenciado. A CBA, por consequência, precisa criar um projeto que dê à categoria a visibilidade e benefícios para essa condição de  escola. Espécie de “projeto educacional”, tem de incluir também a Fórmula Júnior e a categoria principal do Brasileiro de Kart. O importante é que estejam atreladas entre si e de posse de todos os certificados disponíveis pelas leis de incentivo do país;

DIVULGAÇÃO – Os pilotos devem ser vistos como os eventuais futuros ídolos do esporte e, para tal, precisam receber suporte. Está na capacidade da divulgação a diferença entre meninos disputando um campeonato “secreto” e jovens esportistas trilhando caminhos que outrora o foram por quase todos os ídolos que oxigenam os sonhos da nova geração. Assim, a Vicar poderia ampliar a parceria com SporTV e Terra, que transmitem o campeonato, para que a categoria faça parte da programação não apenas por ocasião das corridas. Tudo isso potencializado por um trabalho de assessoria específico para a “instituição” Fórmula 3;

AMPLIAÇÃO – Capitaneada pelo ex-promotor Dilson Motta, a categoria recebeu em 2009 os Dallara 309, que hoje formam a categoria A. Já os 301, até então na classe principal, passaram a ocupar o lugar dos antigos F394 na Light. Estima-se que somente dos modelos mais novos haja pelo Brasil entre oito e dez chassis. É das equipes a tarefa de acabar com esse “descanso” dos carros de corrida e levá-los para as pistas. Como isso custa dinheiro, carro em atividade precisa representar dinheiro em caixa. Por isso que a gerência dos direitos comerciais da categoria precisa ser assumida de forma clara por uma das partes, profissionalizada e com capacidade de transformar a Fórmula 3 numa empresa de sucesso e um rentável produto chamado “corrida de monopostos”. Isso para permitir que haja verba para dividir entre os donos de equipes, proporcional ao número de carros inscritos. Seria a premiação pelo investimento e assiduidade;

INTERCÂMBIO – A Fórmula 3 perdeu forma, status e visibilidade. Atualmente, ser campeão da categoria não tem o mesmo peso de antigamente, quando até a super-licença vinha no pacote de premiação, resultado de uma negociação direta de Antonio de Souza Filho e o então presidente da CBA, Piero Gancia, com Bernie Ecclestone. Para que a categoria não fique restrita ao seu pequeno universo e tenha estabelecida a condição de “ponte”, há de se criar um intercâmbio com alguma categoria internacional. Independentemente de ser na Europa, Estados Unidos ou Japão, o piloto da Fórmula 3 precisa correr sabendo que, em caso de título, terá benefícios que permitam a sua ida para a categoria parceira;

CATEGORIA ALVO – O produto categoria escola fica enfraquecido se ele se resume a uma única categoria. Mas sob o ponto de vista de marketing e potencial de divulgação, a Fórmula 3 tem de ser o “objeto do desejo” dos pilotos da Fórmula Júnior ou de qualquer outra categoria que venha a ser criada para receber os ex-kartistas. O kartista precisa encarar os desafios de um Brasileiro de Kart sabendo que haverá benefícios para que ele suba para a categoria de entrada nos monopostos e de lá para a Fórmula 3;

INTERNACIONALIZAÇÃO – A Fórmula 3 precisa se mostrar ao mundo como alternativa para que pilotos de fora, tendo em vista os custos menores aqui praticados e da desvalorização do real frente ao dólar, possam ter a categoria brasileira como opção de carreira. Para que isso ocorra há de ser feito um trabalho internacional de relações públicas, com divulgação em publicações de âmbito mundial, visita a eventos, participação em feiras de negócios e convites diretos para o público alvo;

FORMAÇÃO – O conceito de escola precisa ser o mais amplo possível, não se restringindo apenas ao ato de pilotar. Como alavanca de marketing, divulgação e até de receita, cada etapa da categoria poderia ter lugar para uma espécie de seminário, no qual especialistas pudessem dividir suas experiências com os membros da categoria em itens diversos, tais como relacionamento com a imprensa, captação de patrocínio, uso das mídias sociais, relacionamento com a comunidade, ações de filantropia etc;

MUNDO DIGITAL – A grandes categorias do mundo, atualmente, dispõem de ferramentas digitais para que os interessados tenham acesso a seus passos em tempo real. A Fórmula 3 precisa fazer de seu site oficial o “porto seguro” para todos aqueles que estão em busca de informação, sem espaço para erros ou omissão. Pelo contrário, algo que sirva de motivação para que a legião de fãs da categoria seja ampliada, além de ser um facilitador para sua divulgação na imprensa.

E por aí vai …

 

Pedro Piquet, da Cesário F3, venceu as duas provas de Viamão (Foto Bruno Terena)
Pedro Piquet, da Cesário F3, venceu as duas provas de Viamão (Foto Bruno Terena)
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1 COMENTÁRIO

  1. Caro Américo
    Seus comentarios são sempre bemvindos, ate porque são acompanhados de belas sugestões que serão analizadas pela CBA e por todos envolvidos.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.