Copersucar-Fittipaldi F5: O meu primeiro Fórmula 1

Emerson Fittipaldi e o Copersucar-Fittipaldi F5 no Grande Prêmio da Bélgica de 1977, em Zolder (Foto John Millar)
Emerson Fittipaldi e o Copersucar-Fittipaldi F5 no Grande Prêmio da Bélgica de 1977, em Zolder (Foto John Millar)

Por Americo Teixeira Jr. – O ano era 1984 e, embora estivesse apenas no segundo ano de faculdade1, já estava metido no jornalismo de automobilismo desde 19812. Apesar de minha imaturidade e estar buscando adquirir experiência da maneira que me era possível, estar cursando Jornalismo e escrevendo em jornais sobre corridas de automóveis representavam para mim estar a caminho de realizar um sonho que vinha sendo acalentado desde 1972, quando descobri a Fórmula 1 por intermédio do meu tio, hoje médico, Gilvan Timóteo.

Eu até trabalhava num banco3, que hoje nem mais existe, mandando títulos vencidos para cartório. Eram incômodos duplos, uma vez que estava perdendo meu tempo numa área totalmente estranha para o meu projeto de vida profissional e, ainda por cima, complicando mais ainda a vida de quem já estava ferrado, pois de outro modo a maioria não estaria com os pagamentos em atraso. Mas eu precisava daquele dinheiro para pagar a faculdade, manter-me e também tentar ajudar um pouco em casa. Afinal, já estava bem grandinho para continuar dependendo do seu Américo e da D. Marinalva.

Era uma época de rotina complicada e mesmo a energia que todo moleque nesse idade tem, para mim acabou faltando numa determinada fase. Mas sempre tive em mente uma frase que Frei Betto me disse numa entrevista que fiz com ele, em 1983, para um jornal mural chamado O MURO, que o grupo do qual eu fazia parte mantinha no roll de entrada do prédio de Comunicação da Metodista: “Toda opção implica em renúncia!4.

Acordava às cinco da manhã, pegava um ônibus às seis e às sete já começava o trabalho. Saía uma da tarde, almoçava de graça na lanchonete do meu tio Nelson querido, já falecido, que ficava ali perto e uma sensação de liberdade se apossava de mim. Eu tinha a tarde toda livre para atividades extra-curriculares, antes de ir para a faculdade no período noturno. Vivia em tudo quanto era congressos, palestras, eventos, seminários, cursos livres e tudo mais que pudesse contribuir para a minha formação como jornalista. Foi num desses, aliás, que conheci um cara cuja sabedoria marcou a minha vida: Paulo Freire. Mas sobre o mestre dos educadores pretendo falar em outra ocasião.

Eu queria escrever em jornal e saí à caça de oportunidades. Foi quando descobri um universos fantástico representado pelos jornais de bairro da cidade de São Paulo. Foi fácil descobrir que havia um congresso desse setor, participei (não faço a menor ideia onde foi, só sei que se passou entre 1983 e 1984) e lá conheci o pessoal de um jornal chamado Gazeta da Vila Prudente5.

O dono era um cara 101% dedicado ao jornal e, talvez por isso mesmo, de personalidade forte e centralizador. De certa maneira ele me deixava um pouco tenso, tímido até, mas uma dessas figuras que acaba fazendo parte do seu aprendizado e lá na frente você constata que foi valiosa para sua formação. Seu nome, Irão Tessari, o jornalista que me disse uma coisa que eu, tanto tempo depois, lembro cada palavra e é como estivesse ouvindo agora mesmo aquela voz rouca.

Eu, moleque, nem sempre podia fazer o que eu queria porque o Irão tinha um modo diferente de pensar sobre o que seria a minha coluna. Tempos depois entendi perfeitamente o que ele queria dizer. Eu estava querendo fazer a coluna que me agradava, sem ter uma visão do que o leitor gostaria de ler. Numa dessas ocasiões de confronto, ouvi dele: “Senhor Americo, eu posso não ser o Senhor Todo Poderoso do Jornalismo, mas sou o Senhor Todo Poderoso da Gazeta da Vila Prudente. Portanto, não me questione e faça o que eu mando“.

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Copersucar-Fittipaldi F5 (Foto Paul Kooyman, reprodução PandiniGP)

Para encurtar a história, escrevi lá por algum tempo e, depois, embora não me lembre exatamente por quais caminhos, fui parar no jornal Gazeta de São Bernardo6, cujo dono era um cara muito educado e gentil, chamado Ivan Marques. Sempre fui muito grato ao Ivan. Ele me deu a oportunidade para um moleque fazer o que desse na telha, em termos de automobilismo no jornal dele. Além disso, a redação era um “parque de diversões” para mim. Num dos cômodos daquele sobrado, caixas e caixas de papelão estavam repletas de fotods antigas. Passava horas vasculhando as de corrida. Muitas publiquei no próprio jornal.

Naquele semanário, eu escrevia uma página em formato standard sobre carros e corridas. Na prática era “Corridas, corridas, corridas e corridas. Ah, carros também!”. Infelizmente, por diversas circunstâncias, eu não guardei nada daquela época – aliás, de época alguma – e nem sei dizer se escrevia algo que prestasse. Tenho minhas dúvidas. Se passadas três décadas eu ainda quero escrever melhor, calculem no século passado um garoto apaixonado por automobilismo e jornalismo, mas sem ter a menor ideia de como fazê-lo.

Mas independentemente do que tenha representado para o leitor, para mim aquela jornada na Gazeta de São Bernardo permitiu que eu realizasse alguns sonhos. Certamente, o mais significativo deles foi entrevistar Emerson Fittipaldi, fato que me levou a conhecer o meu primeiro carro de Fórmula 1. Foi o Copersucar-Fittipaldi F5 Ford Cosworth V8 3.0L. Aqui, preciso de dois “parênteses” para explicar algumas coisas:

1 Quando eu digo “conhecer o meu primeiro carro de Fórmula 1”, estou me referindo àquele que vocês chega perto, sente o cheio, examina cada detalhe, passa mão com carinho e reverência. A carreira me permitiu “namorar” alguns carros dessa forma intensa, mas em termos de Fórmula 1 o primeiro foi aquele carro amarelo de fraco desempenho, mas de uma beleza impressionante;

2 O meu despertar para o automobilismo aconteceu em linha direta com a minha idolatria para com Emerson Fittipaldi. Eu só me referia a ele como “O Maior do Mundo” e era de fato o meu ídolo. Foi o primeiro e único, visto que muito cedo procurei adotar uma postura profissional e tentei estabelecer a distância necessária. Claro que são inúmeros os pilotos que admiro e essa convivência resultou em algumas amizades, mas nenhum deles foi alvo daquela veneração quase religiosa que eu tinha por Emerson Fittipaldi na adolecência e, felizmente, não muito tempo depois passei a encará-lo unicamente como um profissional merecedo do todo o respeito respeito, nada mais do que isso.

Tudo isso para contar que eu tinha um objetivo primeiro, absoluto, fundamental, mais até do que cobrir o meu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1: entrevistar Emerson Fittipaldi. Eu nunca quis ser outra coisa que não repórter de Fórmula 1, cobrir corridas e entrevistar seus principais personagens. Essa história de me tornar editor, chefe, assessor e etc foi tudo circunstancial. Eu nunca quis ser chefe de nada, apernas repórter. E os meus primeiros passos no jornalismo, mesmo ainda com aquele pensamento idiota na cabeça de que todo piloto era um ser especial ou ser de outro planeta, foram nesse sentido.

Pois então, bastaram apenas algumas semanas de publicação das minhas colunas na Gazeta de São Bernardo para que eu telefonasse para um cara chamado Willy Hermann. Falar do Willy requer um capítulo especial de inúmeras páginas – até mesmo um livro – em razão de suas realizações como empresário no automobilismo. Mas naquele 1984, o hoje membro da IndyCar e representante da Fórmula Indy no Brasil era empresário de Emerson Fittipaldi e era ele a pessoa a ser procurada para agendar a entrevista.

F5
O modelo do F5 construído na Alemanha

Willy deixou em mim uma marca muito positiva e ali começava uma amizade que ultrapassou as barreiras do tempo, virando o século e durando até hoje. Eu não passava de um moleque deslumbrado. Não sei se bobão ou arrogante, mas totalmente iludido com essa coisa do “mundo encantado da Fórmula 1”. Só que apesar disso o Willy me tratou como um profissional de imprensa, sem qualquer discriminação por ser um jornal pequeno e um repórter em formação. E a entrevista foi marcada.

Num canto de um galpão, o F5

O endereço ficava no setor empresarial de Alphaville, na Grande São Paulo e às margens da Rodovia Castelo Branco, no sentido, Capital-Interior, longe pacas de Santo André, onde morava. Eu tinha tirado a carteira de motorista não havia muito tempo. Se hoje dirijo mal, calculem em 1984. Mas lá fui eu dirigindo um Fusca verde que meu pai tinha, apelidado de Horácio. Não lembro do ano e nem que fim levou aquele carro, mas fui com ele para minha primeira entrevista com Emerson Fittipaldi.

Era um dia particularmente agitado no escritório, pois Emerson estava viajando naquela noite para os Estados Unidos, já para reiniciar sua nova carreira, agora na Fórmula Indy, então sob a bandeira da CART. Fui recebido pelo Willy e na hora marcada o Emerson veio até mim. Pediu desculpas, mas precisava me pedir para esperar um pouqinho mais, pois ele estava ao telefone resolvendo as questões relativas ao aluguel de um imóvel que usaria provisoriamente em Miami.

Agora, vamos parar um pouco e pensar. Eu estava naquele dia realizando um sonho. Tinha Emerson como o ídolo maior e era justamente ele, o bicampeão mundial de Fórmula 1, o “Maior do Mundo”, quem vinha até mim para perdir desculpas! Óbvio que esperaria o tempo que fosse necessário, por mais longo que fosse. Foi então que Willy Hermann me convida para conhecer o local. Queria me mostrar uma coisa.

Era uma espécie de galpão, com escritórios na parte de cima. Lá embaixo ficava a coisa que o Willy queria me mostrar. E lá estava ele, sozinho, abandonado num canto e com o volante no banco, o F5. Não o F5A, de resultados expressivos, mas o F5, que na pista foi um fracasso. Notem, não sei se estou conseguindo passar a dimensão do que aquele dia representou para mim, mas lá estava um objeto que para mim representava felicidade, o sonho, o objetivo de vida, o Olimpo. E aqui vai outro parênteses:

3 Para vocês entenderem como era aquele meu envolvimento emocional com a Fórmula 1 naquela época, eu não seria claro o bastante se me rotulasse como torcedor da equipe Fittipaldi. Não, era algo mais intenso, meio doentio, uma espécie de veneração religiosa. Tudo o dissesse respeito à equipe brasileira de Fórmula 1 me dizia respeito, embora obviamente não me dissesse.

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Copersucar-Fittipaldi F5 acidentado nos treinos do Grande Prêmio da Suécia de 1977 (Foto reprodução PandiniGP)

Sei lá quanto tempo eu passei ali ao lado do F5, mas o suficiente para ver e tocar aquilo que até então me maravilhava apenas pela televisão e páginas de revistas. O lado bom de uma situação financeira difícil é que você não comete loucuras que, de outro modo, faria sem pensar. Aquele era um caso. Eu queria tanto levar para casa aquele carro de Fórmula 1 que, se fosse de família rica, teria tentado comprar. Sei, coisa de maluco, mas eu era totalmente maluco e retardado naquela época. Eu nunca bebi ou me droguei, mas a minha droga era o automobilismo. Tempos depois o Willy me contou que aquele carro, o “meu” carro”, entrou num pacote de coisas que foram vendidas para pagar dívidas ainda dos tempos da falida equipe de Fórmula 1 dos irmãos Fittipaldi.

Feita a entrevista, gravada em um gravador portátil, mais parecido com um parelelepípedo, deixei o escritório encantado com o Emerson, super agradecido com o Willy e louco de vontade para levar o F5 para casa. Fiz algumas fotos que, infelizmente, não puderam ser aproveitadas. Por ter feito alguma coisa errada (provavelmente cagada minha no laboratório da facultade; sim, eu fotografava e eu mesmo revelava e fazia as cópias de fotos em meio a produtos químicos e no escuro), eu ficado sem fotos proprias para ilustrar a matéria de página inteira. O jeito foi usar uma foto autografada que ganhei do Emerson naquele dia.

Havia na época toda uma pressão do sindicato dos jornalistas para que estudantes não ocupassem o lugar de profissionais formados. Ocorre que aquela geração tinha de começar a aprender o ofício de alguma maneira e não assinar a coluna era um alternativa. Mas como não assinar uma entrevista com Emerson Fittipaldi? Sem querer criar problemas para a direção do jornal, mas ao mesmo tempo não querendo perder a oportunidade de vincular o meu nome àquele até então maior momento da minha iniciante carreira, tratei de enfiar um “entrevistado por Américo Teixeira Jr” no meu do texto e, assim, foi publicado.

É isso, amigos, não tenho fotos e nem a cópia do jornal, que deve ter sido publicado entre abril e maio de 1984. Nem a data me lembro, repararam? Mas, tirando os detalhes, nada tira da minha memória o dia em que tive nas mãos o meu primeiro Fórmula 1.

Dados Explicativos:

1 Instituto Metodista de Ensino Superior, no bairro de Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, São Paulo. Meu curso foi de 1983 a 1986. Atualmente é Universidade Metodista.

2 Eu estabeleço o dia 4 de abril de 1981, um sábado, como o marco inicial de minha carreira como jornalista. Tinha 19 anos e publiquei minha primeira matéria num semanário chamado Informação Resumo Jovem, que existia em São André, o A do ABC Paulista (B de São Bernardo e C de São Caetano).

3 O Banco Boavista tinha sede no Rio de Janeiro e eu trabalhava na agência da Rua XV de Novembro, no centro histórico de São Paulo. Isso foi pelo período entre 1983 e 1984. Pelo que pesquisei para escrever essa nota explicativa, o banco foi vendido nos anos 90, passou de mão em mão e acabou no conglomerado liderado pelo Bradesco. Mas como o objetivo aqui não é falar de banco, acho que já está bom.

4 Eu realmente não consigo me lembrar se essa entrevista eu fiz sozinho eu em grupo. Pela proposta de O Muro, acho que foi mesmo em grupo, mas não me lembro. Só sei que foi num prédio no entorno de uma igreja em Perdizes, bairro da cidade de São Paulo.

5 O jornal perdurou por 30 anos ininterruptos e ao encerrar as publicações, em 1994, contabilizava um total de 982 edições.

6 O jornal foi fundado pela família Marques e foi dirigido pelo jornalista Ivan Marques até 1994. A Gazeta de São Bernardo foi vendida naquele ano e mudou de nome: Gazeta do ABC. Naquele mesmo ano, Ivan fundo um novo jornal na cidade, o Leia São Bernardo, que existe até hoje.

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Emerson Fittipaldi e o Copersucar-Fittipaldi F5 no Grande Prêmio da Inglaterra de 1977, em Silverstone (Foto John Millar)

5 Comments

  1. Eugenio Cesar 1 de novembro de 2014 at 21:10

    Que espetáculo!!!Fantástico !!

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  2. Luis F. Crecencio 30 de outubro de 2014 at 0:38

    Putz Américo, você acerta todas! rs…
    Comecei a ler suas colunas a pouco tempo, e pelo jeito não sabia o que estava perdendo…
    Parabéns!

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  3. Willy Herrmann 29 de outubro de 2014 at 19:47

    Grande Américo,
    Você sempre foi e continua sendo um ótimo profissional
    Parabéns pela brilhante carreira.
    Fico feliz de ter podido conviver em alguns capítulos com você, e se prepare pois ainda há muito por vir.
    Um abraço,
    Willy

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  4. Claudio Aragão F. 25 de outubro de 2014 at 16:17

    Excelente matéria, da pra sentir a emoção transmutada em palavras e isso é sensacional sem dizer que o mundo dos anos 80 leva consigo o DNA de tudo que ocorre hoje, realmente tocar um copersucar deve ser algo quase Mitológico por representar algo muito maior do que resultados de pista mas em fim curti muito esse relato Sr Americo.

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