Quanto mais simples e barata for a competição, maiores serão as condições para a retomada das corridas

Por Américo Teixeira Junior

O “combustível” que moverá o automobilismo pós-pandemia será a simplicidade – Fotos RODRIGO RUIZ

O automobilismo está parado no mundo todo e, até aqui, foram inúteis todas as tentativas de retomada. Nada mais natural que haja esse esforço para voltar às pistas, assim como nada mais natural que nenhuma delas tenha dado certo. As mãos outrora poderosas estão vazias e, parafraseando Richard Bach, em Fernão Capelo Gaivota, um canto do planeta sob controle “é um lugar que não existe”. Só que, mais cedo ou mais tarde, muitas atividades, agora inertes, voltarão a acontecer. Diferentes, sim, mas voltarão.

O topo da pirâmide do automobilismo tem a presença solitária da Fórmula 1, cujo gigantismo é o principal entrave para reorganização. O que vem abaixo, como WEC, IndyCar, Fórmula E e outros campeonatos não necessariamente nessa ordem, também não têm soluções fáceis. Logo, a engrenagem do automobilismo só começará a girar onde houver simplicidade, baixo custo e bom senso: Os Campeonatos Regionais de Automobilismo.

Por “regionais” entenda-se as competições locais. Elas podem ser municipais, estaduais, distritais e nacionais, dependendo das características de cada lugar. Para algo além disso, principalmente se envolver logística e cruzamento de fronteiras, a dificuldade só tende a aumentar.

Estamos diante de uma crise econômica de alcance mundial e sem comparação sob o ponto de vista histórico. Mesmo a Segunda Guerra Mundial, apesar das impiedosas consequências, não corrompeu todas as fronteiras. O estouro da bolha imobiliária em 2008, nos Estados Unidos, quebrou inúmeras empresas e exigiu aportes governamentais nunca antes vistos. Agora, porém, tanques e intervenção maciça do Estado não são páreo para esse inimigo invisível que está 181 países, dentre os 195 membros da Organização das Nações Unidas.

Soluções, pelo menos teóricas, existem

Haverá automobilismo depois disso tudo, mas será outro. Nesse sentido, algumas sugestões podem contribuir para a sua reestruturação:

  • Carros de Competição Ampla utilização dos já existentes e, em caso de construção, pautar o projeto pela simplicidade;

  • Motores Preparados Preparação bem abaixo da potência possível, para que não haja quebras e custosas manutenções;

  • Regulamentos Simplificados ao máximo e eliminando-se tudo o que resultar em encarecimento, sem comprometer a segurança;

  • Produtos e Serviços Será impossível manter preços e margens de lucro, qualquer que seja o segmento do automobilismo em questão, o que exigirá bons acordos comerciais para garantir equilíbrio;

  • Empregos Também o automobilismo terá de ser sensível à necessidade de gerar empregos locais, principalmente para a mão-de-obra de baixa renda;

  • Logística A única maneira de o automobilismo recomeçar é localmente, sem deslocamentos ou estruturas que possam comprometer o equilíbrio financeiro;

  • União A redução de pilotos será drástica, o que inviabilizará campeonatos individualmente. Somente haverá chance de caminhar se houver o reagrupamento de forças até então separadas por questões políticas e econômicas;

  • Eventos econômicos As programações precisarão ser curtas, preferencialmente de um dia apenas, se for viável para o todo;

  • Calendário curtos Não será factível tentar manter o número de provas até então programadas. Elaborar um calendário longo será perda de tempo. Deve ser seguido o exemplo da Copa Truck e Fórmula Inter, com duas ou três provas com validade para uma copa;

  • Segurança Economia não é base para porcaria, portanto, não é porque o caminhar é modesto que a segurança pode ser negligenciada;

  • Bom senso Não haverá lugar no automobilismo de sobrevivência para autoritarismo, falta de diálogo, falta de transparência, transigência com transgressores …

Resumindo: Nem tudo o que até ontem existia, terá lugar quando passar a longa “tempestade”. Se no inevitável processo de escolha e definição de prioridades sobrar lugar para o automobilismo, será o momento de recriá-lo, talvez até a partir de uma folha em branco.

4 COMENTÁRIOS

  1. Acho muito oportuno está reportagem será um ano difícil para todos e não podemos esquecer dos clubes que tocam Autodromos já com muita dificuldade !! Será hora do automobilismo se reinventar e todos juntos sairmos desta com o menor trauma !! Todos terão que ceder para não quebrar as engrenagens ! Abraço amigo !! Jhonny Bonilla

  2. Suas matérias me obrigam a voltar ao passado quando tínhamos 25/30 jornalistas especializados ou se especializando em esporte a motor. Hoje são poucos que entendem e tem uma visão para o futuro do automobilismo, mas estes poucos são a nata daquilo que tínhamos ou melhor são os melhores, sou suspeitissimo mas não vou deixar me me expressar por isto, você esta entre os melhores. Sua visão é perfeita porem, em São Paulo o Estado/Prefeitura segue na contra mão desta direção e tem uma visão totalmente dúbia quando se fala em automobilismo regional, esquecendo os deveres do Estado listado na Constituição Federal, onde esta claro que:
    É DEVER DO ESTADO FOMENTAR O ESPORTE, pois trata nosso esporte como uma fonte geradora de baixo rendimento financeiro locando o autódromo para outros fins em detrimento do esporte auto motor inclusive reservando datas para locação futura sem contar com o desrespeito a Legislação Desportiva merecendo inclusive uma fiscalização pelo MP quanto eventual crime de prevaricação por desrespeito a Legislação Federal.

  3. Boa tarde Américo! A Turismo Nacional BR também tem uma proposta de baixos custos se comparados a outros certames nacionais e custos próximos aos dos regionais, nosso grid vem crescendo desde o início em 2017 onde tivemos uma média de 22 carros, para 2020, obviamente antes da pandemia do coronavírus, esperávamos um grid com mais de 70 carros.
    Acompanho seu trabalho e espero sucesso nessa nova modalidade comercial que você está implantando.
    Abraços.
    Angelo Corrêa

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