Muito mais importante do que vitórias e títulos acumulados é a atitude de meter o “dedo na ferida”
Por Américo Teixeira Junior

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Lewis Hamilton “incendiou” a Fórmula 1. Com a autoridade de quem possui sete títulos mundiais, o mais recente conquistado neste domingo, 15, na Turquia, é dono de uma voz que ultrapassa fronteiras. Tornou-se o maior de todos nas estatísticas e já havia superado Michael Schumacher no ranking de vitórias (94 X 91). Agora, empata com o alemão em número de títulos.
Mais completo piloto da Fórmula 1 na atualidade, tem em torno de si a equipe expoente do grid, a Mercedes AMG F1, e conduz um carro que, de tão especial o W11, poderia até ser chamado de “outro mundo”, tamanha a superioridade.
Mas a característica principal deste inglês de 35 anos é falar e ser ouvido sobre questões fundamentais da sociedade. E o fato ganha contornos especiais por fazer de palco justamente a categoria mais elitista do automobilismo. Sobre isso, Cristiano da Matta disse uma vez, quando ainda era piloto da Toyota: “Todo mundo aqui acha que tem o rei na barriga”.
O neto do imigrante caribenho Davidson Hamilton, que deixou sua Granada natal para buscar alternativas de vida melhor na Inglaterra, chegou no topo da Fórmula 1. Os números lhe conferem tal status. Poderia, por consequência, deixar hoje as pistas com o mais amplo sentimento do dever cumprido, pois inexistem perspectivas de ser superado a médio/longo prazo.
Nesse particular, vale voltar no tempo e recordar as 27 vitórias de Jackie Stewart, conquistadas entre 1965 e 1973. Também pareciam inatingíveis. Precisou que a categoria se transformasse radicalmente para que surgissem Schumacher e Hamilton. Só uma nova transformação, portanto, faria supor tal possibilidade.
Mas o novo heptacampeão precisa continuar. Não para ampliar marcas, pois já é fato superado. O que exige sua permanência é sua voz. Aliás, ele até gosta de música, mas não é o novo Cauby Peixoto ou versão pop de Salvador Sobral. Sua “música” é bradar, mesmo diante de narizes brancos torcidos, contra o racismo, falta de oportunidades, desigualdades sociais, aniquilação de sonhos e vidas.
A Fórmula 1, em síntese, não merece Lewis Hamilton. Em seus subterrâneos, deve até querer vê-lo pelas costas. Mas o seu “fico”, que estar por vir, é gênero de primeira necessidade, espécie de “vocês vão ter de me engolir”, em bom zagallonês.
A voz do Hamilton é mais intensa com ele na ativa. Ele precisa seguir incomodando e a humanidade precisa de mais gente vim essa coragem.
Ele só é o que é graças a fórmula 1. É uma simbiose, um precisa do outro e nenhum deles tem direito de se isolar.
A Fórmula 1 não merece mas nós merecemos, além disso… precisamos!