(Matéria publicada originalmente em Agosto de 2006, na revista Motorsport Brasil)
Italiano de nascimento e brasileiro por adoção, Piero Gancia está comemorando 40 anos da conquista do primeiro campeonato basileiro de automobilismo
Por Marcus Zamponi
Estamos frente a frente com a história, e que história! Aos 84 anos, Piero Valarino Gancia mantém no trato gentil e absolutamente impecável trajar, nossa lembrança aberta para uma era romântica do automobilismo que já foi denominada como dos “gentleman drivers”. E a ele não caberia nada mais perfeito que a classificação de “gentleman”. Culto, refinado, capaz de só sentar-se após o interlocutor tomar a mesma iniciativa e se convidado, o grande Piero espelha talvez apenas no semblante, a glória de super homens que certamente não irá repetir-se. A fala pausada reflete também, através do olhar tranqüilo, a visão de quem admirou, aprendeu e ensinou muito a quem veio depois. “Hoje a Fórmula 1 deixou para trás a emoção da parceria do homem com a máquina. Basta olhar os painéis destes carros. São tantos botões, tantas alternativas, que a impressão é a de que um robô pilotando seria melhor”.
A apatia insuspeita transforma-se em arremedo de empolgação quando a conversa converge para os pilotos. “Não perco sequer uma corrida de Fórmula 1 na televisão e, podendo, estou sempre nos boxes da Ferrari no Grande Prêmio do Brasil. Muita gente não enxerga possibilidades para nossos pilotos em futuro próximo, mas estão errados. Este menino, o Massa, é muito bom, está crescendo e eu poderia apostar que tem tudo para transformar-se em um grande campeão. É só questão de tempo”. Gentil como lhe cabe, evita discorrer sobre Rubens Barrichello. “Sempre foi bom, mas me parece que nunca teve sorte”. E, mais não disse.
Sorte, de fato, tivemos nós. Afinal, durante um certo tempo, dividimos uma mesa na diretoria do Automóvel Clube de São Paulo com Piero e seu maior parceiro nas pistas, Emilio Zambello. Hoje, Emílio é presidente e Piero vice do clube tradicional. E como nos velhos tempos, continuam dinâmicos no dueto. Pelo menos, quando um eventualmente esquece um fato ou data, recorre à memória do outro. O próprio Emílio trata de explicar essa amizade de meio século. “Conheci o Piero no início da década de 50, quando ele decidiu morar no Brasil. Eu já corria desde 1952 e nos demos muito bem, até nos negócios. Juntos, corremos de 1961 a 1971 em cerca de 80 provas. Foi quando proibiram a importação de carros! Acho que deu para nos conhecer muito bem, não é?”.
O primeiro ídolo
Estamos comemorando a primeira conquista de um título brasileiro oficial e a figura a ser festejada é mesmo a de Gancia. Foi em 1966, 18 de dezembro, no então recém-inaugurado Autódromo do Rio de Janeiro. A prova era denominada Mil Quilômetros da Guanabara e compunha com alguns eventos do ano anterior na tabela que apontaria o maior piloto da época. Nesta corrida pelo anel externo, quase 30.000 pessoas disputavam um lugar ao longo do traçado ou nas então arquibancadas de madeira, que só existiam na área em frente aos boxes. “Havia muita gente, o Rio estava em festa com o novo autódromo”, relebra Piero.
Na classificação geral, a dupla formada por Wilson Fittipaldi Jr. e Ludovino Perez, de São Paulo, levou a melhor com um dos célebres Karmann Ghia Porsche. Além dos vencedores na geral, a prova também premiava várias categorias: Turismo 850cc, Turismo até 1300cc, Turismo acima de 1301cc, GT e Protótipos. Piero tornou-se campeão brasileiro ao vencer na categoria acima de 1301 cc, justamente em parceria com Emílio Zambello. Naquele dia, a equipe dos Porsche, a Dacon, festejou muito. Afinal, sempre refém das quebras mecânicas, fez a dobradinha com o outro carro da equipe, pilotado pela dupla José Carlos Pace/Totó Porto chegando logo atrás. Carol Figueiredo/Terra Smith com Alpine e Emerson Fittipaldi/Jan Balder, com Malzoni DKW, completaram as quatro primeiras posições na geral.
Há quarenta anos atrás, naquele evento, a Alfa Giulia de Piero e Emilio chegou em 6º. “Era o bastante para conquistar o título”, registra Piero Gancia. “Ele sempre foi matemático, correto e conservador. Corria com o regulamento nas mãos, nada de mais, nada de menos. A confiabilidade das Alfa Romeo permitia”, completa Zambello. Foi uma merecida consagração para quem começara a correr quatro anos antes, em uma 12 Horas de Interlagos (Grande Prêmio Cidade de São Paulo), em parecia com Celso Lara Barberis em uma Alfa. Fechou a corrida em 5º, na vitória da dupla formada por Chico Landi e Camilo Christófaro. “Na minha estréia andamos rápido, mas tive muitos problemas. No meio da prova levei uma pedrada no parabrisas e acabei pilotando enrolado em jornais de tanto frio e vento”.
Coração do sonho
Aquela corrida de estréia foi a coroação de um sonho. Nascido em Turim em 1922, Piero aprendeu a dirigir aos 10 anos com o motorista da família. No ano anterior, assistiu sua primeira corrida na pista de Alessandria. Marcou-o demais. Um cachorro solto provocou um engavetamento que vitimou o piloto local, Italo Bordino. Já apaixonado, tinha como ídolo Tazio Nuvolari, já na década de quarenta. “Era um bravo, fantástico”.
Responsável por parte da administração da empresa familiar Frateli Gancia, uma vinicultura fundada por seu avô Carlo em 1850, Piero só podia acompanhar o automobilismo de longe. Em 1947, casou-se com Dona Lula e desta união teve os filhos Carlo – hoje banqueiro residindo em Mônaco e outrora um dos donos da equipe de Fórmula 1 Forti Corse – e Bárbara, jornalista. “A Barbara sempre escreveu muito bem, era repórter do jornal da escola com menos de 10 anos de idade”, registra orgulhoso Piero. De família abastada – “Diziam que eu tinha até título nobiliárquico; não sei de onde tiraram isto” – o crescimento da empresa permitiu que Piero viajasse pela América do Sul prospectando oportunidades para a Frateli. Acabou indo morar no Uruguai, onde nasceu Bárbara, em 1951, depois de Carlo já ter nascido na Itália. Do país vizinho andou ainda pela Argentina até que, em 1952, pôde vislumbrar negócios aqui no Brasil. Gostou tanto que acabou naturalizado.
O gosto pelas corridas está nas veias da família. Além de Piero, Carlo correu de kart e automóveis. E até Dona Lula eventualmente corria. E dizem que pilotava bem. Em 1966, enquanto o marido vencia em dupla com Marivaldo Fernandes a prova 1000 Km de Brasília, ela chegava em 5º na classificação geral com outra Alfa, em parecia com Felice Albertini. Dado curioso, Albertini era também motorista particular do casal Gancia. Bons tempos. Naquela prova, quem diria, Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace quebraram em meio a disputa quando pilotavam em dupla com uma Alfa Zagatto.
Anos atrás, as dificuldades do mercado brasileiro para produtos de altíssimo nível, como os Frateli, inviabilizaram a representação da marca que operava sob o comando de Piero desde que se instalou, 1952, na cidade de São Roque (SP). Quando a Martini adquiriu a empresa na Itália, a representação brasileira passou a denominar-se Martini, Rossi & Gancia. E Piero Gancia manifesta até hoje um vivo assombro quando declara o valor da transação de venda da empresa Martini para um grupo norte-americano, já na década de 70: “Três BILHÕES de dólares!”.
Giuseppe Pereggo
Quem guarda na memória o nome de Piero Gancia, não consegue dissociá-lo do de Emilio Zambello. E também do de Giuseppe Pereggo, um mágico na arte de preperar carros de corrida. O italianinho trabalhara na Fórmula 1, onde fora mecânico da Maserati e de feras como Juan Manuel Fangio e Stirling Moss. Giuseppe veio trabalhar no Brasil exatamente em uma oficina que Emílio Zambello possuía na Av. Senador Queiroz, em São Paulo. ) ano era 1953.
”Eram carros muitos bons. Ferrari, Maserati dois litros, Maserati quatro litros e pilotos ótimos como o Celso Lara Barberis e outros”. A maioria destes equipamentos acabou se transformando em Mecânica Continental, onde mesclavam componentes e, de alguma forma, incentivaram também a evolução das famosas Carreteras. Através de Emilio, Piero Gancia conheceu também Pereggo e, de conversa em conversa, nascia a Jolly Gancia. Até 1971 – “quando o Delfin Netto fechou as importações“ – a Jolly fazia história como representante exclusiva da Ferrari e da Alfa Romeo. Assim, introduziu em nossas pistas, pela ordem, as Alfa Zagatto, Giulietta, Giulia, GTA e GTAm e os protótipos P33 e T33, verdadeiras obras de arte. No meio de nossa conversa, Emilio e Gancia apontam na garagem do Automóvel Clube, uma Alfa GTA, de número 23, em imaculado estado de conservação e que pertencera a Zambello ao longo de muitas batalhas.
Sempre sob a supervisão leal e dedicada de Pereggo, além de primeiro campeão brasileiro, Piero Gancia foi também bicampeão paulista (1965 e 1966) e campeão sul-americano (1970). Contra ou em parceria com os grandes nomes do nosso automobilismo, Piero Gancia disputou dezenas de provas exibindo a marca Alfa Romeo equipe Jolly. Guarda especial carinho para as Alfa GTAm, que venceu inclusive uma Mil Milhas com os irmãos Abílio e Alcides Diniz – “Era um carro que nasceu em 1966 como GTA e só evoluiu” – e para o piloto José Carlos Pace, novamente em sua definição, “um bravo”.
Seu estilo negociador alicerçou também um momento crescente de internacionalização do nosso automobilismo, quando foi presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, no período de 1988 a 1990. É hora de nos despedir. Piero levanta e, gentil, ajuda-nos. Manifesta seu agradecimento pela conversa e renova a sua esperança: “Massa stato molto bene”.
Fotos VINÍCIUS NUNES

Exemplo para ser seguido ontem, hj e sempre…excelente texto Zampa!! Parabéns…