Ford Motorsports HistoryO Campeonato Mundial de Fórmula 1 terá seqüência no próximo domingo, 24, com o Grande Prêmio de Mônaco. Nesse tradicionalíssimo circuito de rua, cuja visual faz veteranos fotógrafos, como Miguel Costa Jr., vibrarem diante de tanta beleza e possibilidades infinitas de imagens especiais, o Brasil poderá obter a sua 100ª vitória oficial na categoria. É verdade que esse número, sem incluir as provas extra-oficiais (muito comuns nos anos 70), ronda todas as corridas desde o início do certame de 2009, visto que a 99ª foi obtida por Felipe Massa no Grande Prêmio do Brasil do ano passado, a mesma que por meros segundos fez dele o campeão do mundo. Aquela foi a conquista de número 11 na carreira de Felipe, que somadas às 14 do pioneiro Emerson Fittipaldi (foto, Arquivo Ford Motor Company), ao triunfo único de José Carlos Pace, às 23 de Nelson Piquet, às 41 de Ayrton Senna e às nove de Rubens Barrichello perfazem o número atual.

José Carlos Pace vencendo em Interlagos com o Brabham BT44B Ford no dia 26 de janeiro de 1975
José Carlos Pace vencendo em Interlagos com o Brabham BT44B Ford no dia 26 de janeiro de 1975 (Foto Arquivo Motorsport Brasil Magazine)

De todos os atuais representantes brasileiros, quem reúne as chances maiores de sacramentar a marca histórica é Rubens Barrichello, com o BGP 001 Mercedes, mesmo diante da exponencial vantagem numérica do inglês Jenson Button no confronto direto que trava com o ex-piloto da Ferrari pelo campeonato e em disputa interna na Brawn GP. Não há como ignorar, mesmo havendo uma explicação lógica para cada uma dessas ocorrências, que Barrichello soma dois 2º lugares contra quatro vitórias – em cinco provas – do companheiro de equipe.

Felipe Massa, às voltas com as deficiências da Ferrari F60 (que permitiu ao brasileiro marcar seus primeiros três pontinhos no ano somente na quinta corrida e ainda tirando o pé para economizar combustível), vê-se em grandes dificuldades para fazer as honras da casa dessa vez. Mas como seria ilógico imaginar que não haverá, cedo ou tarde, uma recuperação do time italiano, não seria de todo surpreendente uma vitória de Massa, até porque está na sua melhor fase como piloto.

O tricampeão Nelson Piquet faturou 23 Grandes Prêmios na Fórmula 1. Foto Williams F1 Team
O tricampeão Nelson Piquet faturou 23 Grandes Prêmios na Fórmula 1 (Foto Williams F1 Team)

Já Nelson Angelo Piquet, esse sim, em caso de vitória, seria uma agradabilíssima surpresa. Zerado em pontos com o Renault R29, tem ainda de suportar o discurso áspero de Flavio Briatore o tempo todo. Mas independentemente da condição de cada um rumo ao triunfo centenário, fato é que que nenhum deles havia nascido naquele 4 de outubro de 1970, na pista norte-americana de Watkins Glen, quando Emerson Fittipaldi obteve a primeira vitória brasileira na Fórmula 1. Ao abrir essa contagem, Emerson começava a “escrever” uma história que está próxima de completar 40 anos. Neste especial, o Diário Motorsport tenta contar uma parte pequena dela.

QUANTO TUDO COMEÇOU

Chico Landi, Gino Bianco (italiano radicado no Brasil desde a infância), Fritz d’Orey e Hernando da Silva Ramos (franco-brasileiro) já se aventuravam na década de 50, mas foi com emerson Fittipaldi que o Brasil entrou em definitivo para a história da Fórmula 1. O dia era 19 de julho e o calendário da Fórmula 1 apontava para a sétima etapa do Mundial de 1970, em Brands Hatch. Aquele 21º Grande Prêmio da Inglaterra, há quase 39 anos, representou um marco que transformaria a história do automobilismo do Brasil, com a estréia de Emerson Fittipaldi. Foi o ponto de partida para uma carreira que registrou dois títulos mundiais, dois vices e 14 vitórias em 144 provas oficiais disputadas (ela só não foi mais exuberante pela opção de Emerson correr com seu próprio carro, a partir de 1976). Mais ainda, esse pioneirismo contribuiu para que, mais tarde, jovens brasileiros, dentre eles Nelson Piquet e Ayrton Senna, trilhassem o mesmo caminho.

Ayrton Senna, com 41 vitórias, é nosso maior recordista (Foto Miguel Costa Jr.)
Ayrton Senna, com 41 vitórias, é nosso maior recordista (Foto Miguel Costa Jr.)

Tudo começou em 1969, quando Emerson deixou o Brasil para tentar uma inédita carreira internacional. Naquele ano, correu na Fórmula Ford e na Fórmula 3. Em 1970, antes de testar o primeiro carro de Fórmula 1, participara de algumas provas de Fórmula 2, uma espécie de GP2 dos anos 70 e que a Fédération Internationale de L’Automobile (FIA) reeditará a partir desde ano. Foi nesse período que dois chefes de equipes voltaram as suas atenções para o jovem brasileiro, então com 23 anos.

Um deles, Frank Williams, não era na época nem sobra do vitorioso homem de Fórmula 1 em que se transformaria a partir de 1978. Sua então modesta equipe, com o britânico Piers Courage e o australiano Tim Schenken, disputava o campeonato com os chassis De Tomaso e poucos recursos financeiros. O outro dono de equipe, Colin Chapman, comandava a poderosa Lotus e já observava atentamente a tocada de Emerson, ao volante de seus carros, nas categorias de acesso. Aliás, já contratado pela Lotus, Emerson tinha como meta em 1970 ser campeão da Fórmula 2, apesar de ser seu grande sonho, aquele que o moveu para a Europa, ser justamente o de se tornar piloto de Fórmula 1.

A primeira vitória de Rubens Barrichello, no Grande Prêmio da Alemanha de 2000, com Ferrari
A primeira vitória de Rubens Barrichello, no Grande Prêmio da Alemanha de 2000, com Ferrari (Foto Scuderia Ferrari)

Mas as coisas começaram a tomar um rumo bem diferente já a partir de março. Frank Williams o procurou acenando com a possibilidade de um teste com o De Tomaso e uma eventual contratação como segundo piloto de Courage. Nem bem refeito do impacto do convite, Colin Chapman o procurou para a mesma conversa, só que ao contrário de Williams, marcou a data e, em maio, Emerson foi para Silverstone com o construtor, o chefe dos mecânicos Dick Scammell e o austríaco Jochen Rindt, o primeiro piloto da equipe já utilizava o novíssimo modelo 72. Para Emerson Fittipaldi, que nunca tinha andado em um Fórmula 1, coube conduzir o Lotus 49, o mesmo com o qual Rindt vencera o Grande Prêmio de Mônaco poucos dias antes.

Desnecessário dizer que o resultado do teste foi considerado ótimo, não sem antes o piloto passar por uma situação peculiar. Rindt deu algumas voltas com o modelo 49 para ver se estava tudo em ordem e já passou para o 72, carro que estava em fase inicial de testes. Quando o brasileiro foi para a pista, em um misto de ansiedade, alegria e preocupação, percebeu que o 49 tinha a tendência a sair de frente. Emerson parou nos boxes, instruiu alterações no aerofólio dianteiro e retornou para a pista com a sensação de estar guiando um outro carro. Soube depois que as regulagens foram deliberadamente alteradas para que Chapman pudesse observar a sensibilidade do novato em um quesito tão importante como o acerto do carro. O teste de Silverstone ocorrera as vésperas do Grande Prêmio da Holanda, em Zandvoort, prova que marcou o acidente fatal com Piers Courage, de 28 anos. Sem seu principal piloto, Frank Williams voltou a procurar o brasileiro e, novamente, Chapman foi mais rápido, contratando-o para estrear na Fórmula 1 já na Inglaterra.

Felipe Massa: será dele a 100ª vitória brasileira na Fórmula 1? (Foto Vinícius Nunes/JV Photo Racing)
Felipe Massa: será dele a 100ª vitória brasileira na Fórmula 1? (Foto Vinícius Nunes/JV Photo Racing)

Quando a categoria chegou para a etapa em Brands Hatch, seis das 13 provas programadas para o Mundial de 1970 já haviam sido realizadas e os postulantes ao título, até aquele momento, eram Rindt (líder com 27 pontos após as vitórias em Mônaco, Zandvoort e Clemont-Ferrand, na França), Jack Brabham (o více-líder com 20 pontos ao volante de um McLaren) e Jackie Stewart, o piloto da Tyrell, com 19 pontos. Como o campeonato daquele ano previa dois descartes, cada um dos três pilotos já ficará sem pontuar em duas oportunidades, o que tornara plena cada conquista.

Enquanto essa disputa de peso concentrava as atenções, o Lotus 49 número 28 de Emerson Fittipaldi não era a prioridade na equipe e apresentava muitos problemas. Não era um carro fácil de guiar e, além disso, raspava o tempo todo o assoalho no asfalto. A conseqüência foi um lugar na última fila do grid, com o 21º e antepenúltimo tempo – 1min28s1. A seu lado, com uma marca 0s3 pior, estava Graham Hill, um dos ídolos de Fittipaldi e com um carro igual ao seu (Hill já entrara em uma fase menos festejada de sua carreira, após as conquistas dos títulos mundiais de 1962, com BRM, e 1968, com Lotus, e corria com um Lotus 49 não oficial).

Fechando a fila (naquela época o grid era composto por filas com dois e três carros, alternadamente), alinhava o norte-americano Peter Lovely, com 1min30s3, também ao volante de Lotus 49. Lá na frente, com a pole position, estava Jochen Rindt com 1min24s8, marca 3s3 melhor que a do estreante companheiro de equipe. Nada disso, porém, importava para Emerson. Provavelmente ele era o mais feliz de todos aqueles 23 pilotos da prova e seu intuito era chegar ao final.

Mesmo largando em uma posição ruim, com um carro já superado e contando como experiência anterior em Fórmula 1 apenas dois treinos em Silverstone, Emerson andou forte. Fez algumas ultrapassagens e disputava posição com François Cevert, companheiro de Stewart na equipe de Ken Tyrrell, quando perdeu a quarta marcha. Como não adiantava parar nos boxes, continuou na pista e passava direto da terceira para a quinta marcha. Mesmo assim chegou em 8º, com duas voltas menos, dentre os 10 pilotos que conseguiram classificação. O vencedor foi Rindt.

Poderia ter sido mais uma simples estréia na Fórmula 1, mas não foi. Na prova seguinte, na Alemanha, Emerson marcou os primeiros pontos ao chegar em 4º, após largar em 13º. Foi em 2 de agosto. Quatorze dias depois, na Áustria, fechou a prova em Osterreichring na 15ª posição. Detalhe: três provas com o mesmo chassi e o mesmo motor Ford Cosworth! Aliás, naquela temporada, com exceção das Ferrari, Matra e BRM, todas as equipes utilizaram o mesmo motor Cosworth em plataforma Ford.

As perspectivas para Monza, a corrida seguinte, eram ótimas. Emerson teria o Lotus 72 e Rindt rumava para o título. Mas Rindt morreu nos treinos de sábado e a equipe se retirou das etapas da Itália e Canadá. A Lotus só voltaria nos Estados Unidos, com Emerson no modelo 72. Foi a sua primeira vitória (4 de outubro de 1970) na quarta prova, feito que ajudou a garantir o título de Rindt, mesmo após a morte do austríaco. Tudo isso faz parte de uma história que começou há quase quatro décadas.

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