Por ocasião deste 1º de maio, dia em que celebramos a memória de Ayrton Senna, reedito texto publicado recentemente, no seu aniversário de 50 anos, atualizado em 1º de maio de 2010

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Por Américo Teixeira Jr. – Tenho boas lembranças de Ayrton Senna. Não aquelas das “manhãs de domingo” ou algo do gênero, mas de momentos que se transformaram marcantes para mim. Não fomos amigos, visto que nossos caminhos se cruzavam raramente, mas nas poucas vezes em que isso aconteceu, Senna sempre me dispensou atenção e é essa pequena história que gostaria de dividir com os amigos do Diário Motorsport.

Lembro-me de ter estado com Senna pela primeira vez em Interlagos. Era final de 1982 ou 1983, encerramento do campeonato de Fórmula Ford, e ele estava com a boca torta por causa de uma disfunção muscular. Fotografei-o em preto e branco com uma maquininha de pouca importância e o detalhe que me vem à memória é que, por achar que poderia estar incomodando, esperei um pouco e, antes, pedi licença para fotografá-lo. Sua resposta positiva, acompanhada de um sorriso, liberou-me para os clicks. Não sei onde foram parar essas fotos.

Seguiram-se os anos, ele lutando para se firmar na Fórmula 1 e eu, objetivo menos ambicioso, corria de jornal em jornal tentando escrever sobre automobilismo. Feliz ou infelizmente, não sei, nos meus 20 anos a tarefa de publicar uma matéria era verdadeiramente árdua, muito longe do “mundo novo” criado pela internet.

Embora estudante de jornalismo, já mantinha coluna fixa sobre o assunto em jornais de bairro e do ABC Paulista. E foi representando um desses que segui para a Vila Maria, em São Paulo, dois dias depois do Grande Prêmio da Bélgica de 1985.

Depois da temporada de estréia pela Toleman, no ano anterior, Senna passou a defender as cores míticas da Lotus e já na segunda corrida do ano, em Portugal, venceu a primeira de suas 41 corridas de Fórmula 1. A vitória maiúscula, debaixo de chuva, lincou o Autódromo do Estoril à sua história. Era o 21 de abril de 1985 e o carro, 97T com motor da Renault.

Quase cinco meses depois, em 15 de setembro, Senna faturou a primeira de suas cinco vitórias em Spa-Francorchamps. Logo depois, viajou para o Brasil e no seu escritório paulistano, que se transformou após seu falecimento em sede da Torcida Ayrton Senna, reuniu a imprensa. Eu estava lá e por essas coisas que acontecem sem a gente entender, na hora de sentar ao redor da mesa, Senna puxou a cadeira e me chamou a sentar ao lado dele. Confesso que não me lembro dos detalhes, mas na minha lembrança ficou para sempre marcada aquela gentileza de Senna para comigo.

Na época, o assessor de imprensa dele, o jornalista Charles Marzanasco Filho, enviava por correio, rotineiramente, maravilhosas fotos preto e branco. Eu, numa fase em que ainda era possível sonhar com o jornalismo de automobilismo, usava e abusava daquelas imagens nos meus longos textos na “Gazeta de São Bernardo”, jornal semanal no qual escrevia. Já tive curiosidade de reler essas matérias. O que – e como – eu escrevia naqueles tempos?

Esse encontro com Ayrton Senna, que fique bem entendido, foi em uma mera coletiva de imprensa, corriqueira e óbvia. Mas aquele gesto do Senna, permitindo que eu me colocasse ao seu lado, deixou marcas em mim. Eu acabei ficando mais tempo do que a maioria, falei com ele um pouco mais e, claro, só dava Ayrton Senna na minha coluninha publicada na edição seguinte.

Seguiram-se outras oportunidades, mas aí ele já vivia a fase de campeão do mundo, a multidão que o cercava já era muito maior do que naquele dia de dezembro de 1982 (ou 1983), em Interlagos, ou no 17 de setembro de 1985. Quando ele “partiu”, eu ainda buscava meu espaço e coube a mim abrir páginas e páginas, nos meus posteriores anos de Racing e Motorsport Brasil, em sua memória. Isso tudo está por aí, publicado.

Fico por aqui. Neste período de tantas referências à sua morte, tentei falar do Ayrton Senna, vivo, que eu, felizmente, tive a oportunidade de conhecer.

Feliz Aniversário!

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Ayrton Senna em sua estréia na Lotus, no Grande Prêmio do Brasil de 1985, em Jacarepaguá (RJ)

Foto Miguel Costa Jr. – Rio de Janeiro (RJ), 7 de abril de 1985

7 COMENTÁRIOS

  1. este foi e sera o nosso grande idolo, infelismente foi pouco o tempo que esteve entre a gente, mas o suficiente para nos apaixonarmos e ama-lo, eu não consigo imaginar outro que tenha a capacidade de ser mamado como este. Airton para sempre em nossos corações.

  2. Dear Friend,

    Greetings (saludos & saudações). Neste artigo, junto de outros, você recebeu merecidos elogios. Duvido que eu tenha algo novo à acrescentar. Mas sim, posso ressaltar que muito aprendi lendo sua matéria (nossa, já estou sendo repetitivo, posto o fato de que MUITO aprendi em textos por você assinados, em diversas ‘medias’). Mas, voltando. Na realidade, o que mais chamou-me a atenção foi a frase, in verbis, “Já tive curiosidade de reler essas matérias” (no caso, artigos de sua autoria no jornal “Gazeta de São Bernardo”). Pois você nunca teve vontade de ‘matar’ tal curiosidade? Particularmente e, por ocasião de deslocamentos à POA — como aliás encontro-me neste momento –, sempre aproveito para visitar uma entidade chamada “Museu da Comunicação” (saí de lá faz pouco tempo; fui tirar dúvidas sobre a extinta categoria Divisão 3. Dúvida esta que não consegui sanar em revistas automotivas da década de 70). Nâo nego, tal entidade serve como fonte de pesquisas para incontáveis dados sobre o automobilismo nacional. Vale citar, no “Museu da Comunicação”, o interessado tem a disposição coleções de jornais diversos — do RGS e de outros Estados (RJ, SP, MG, GO). Para que você e demais leitores do DM tenham uma idéia, o local possui quatro andares e ocupa uma quadra inteira no centro da capital gaúcha. Por isso o espaço físico para jornais e revistas. Anyway… na próxima visita, indagarei ao monitor se eles tem volumes do jornal que você escrevia. Será um prazer ler suas matérias. Usando frase de filme Americano… conte com isso! My pleasure.
    With kind regards,

    Paulo McCoy Lava

  3. Amigo! Não é fácil ler o seu artigo sem encher os olhos de lágrimas. Uma perda irreparável que ficará em nossas lembranças até o fim de nossas vidas. Abraço

  4. Muito comovente este artigo, Américo.
    Hoje, antes de ir para Interlagos, pensei que seria diferente estar próximo ao “S” do SENNA num fim de semana tão especial.

    Um abraço,
    Kico

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