Americo Teixeira Jr. – Quero falar de um piloto que não está mais nas pistas. As circunstâncias o levaram a caminhos diferentes dos planejados, seu nome não está mais na mídia e hoje, prestes a completar 31 anos, direciona seus esforços para uma “bandeira quadriculada” que não está na linha de chegada em uma pista espalhada pelo mundo. Não, seu esforço é no sentido de levá-lo à vitória na vida. Estou falando de Nilton Rossoni Filho, o Niltinho, que muitos irão se lembrar, visto que disputou o Paulista de kart no início do anos 90, ingressou na Fórmula Chevrolet, passando depois para os Estados Unidos nas categorias de acesso à então Fórmula Cart, hoje Fórmula Indy.

Por que estou falando de alguém que, sob o ponto de vista do noticiário automobilístico atual, faz parte do passado? Talvez seja simplesmente o registro de um lamento, pois Niltinho Rossoni foi um dos melhores pilotos que este jornalista teve a oportunidade de ver de perto. No corpo do piloto adolescente já havia uma cabeça madura e um olhar determinado e concientemente mirando o futuro. Um misto de talento, caráter elevado e apoio familiar pareceu ser a receita ideal para que o Brasil pudesse brilhar nos pódios das principais categorias do mundo por intermédio desse curitibano.

Apoio incondicional da família

A história de Helio Castroneves e sua família, marcada por amor, fé, compromisso e parceria no nível mais alto que se possa imaginar, estão no livro “O Caminho da Vitória” e é bastante conhecida. Guardadas as proporções e em alguns aspectos, a trajetória dos Rossoni é semelhante. Niltinho foi para as pistas por demonstrar total identificação com o esporte e, mesmo garoto, sabia que as dificuldades iriam muito mais além do que as disputas nos campeonatos Paranaense e Curitibano de kart.

Para desenvolver essa tarefa, teve o apoio do pai. Certamente o verbo apoiar não traduz por completo o que foi essa parceria entre pai e filho. Na verdade, o automobilismo está repleto de histórias belíssimas que se confundem com as dos Rossoni e também dos Castroneves.

O empresário Nilton Rossoni não foi apenas o mantenedor financeiro de uma estrutura. Não, porque simplesmente pagar não é o bastante. Nilton pai foi além, como muitos outros que se sacrificaram e se sacrificam para realizar os sonhos de seus herdeiros. Grande administrador, planejador e estrategista, Nilton pai é, sem sombra de dúvida, uma das melhores pessoas que este jornalista teve a honra de conhecer e conviver. Poucas pessoas impactaram tanto pela bondade, sensibilidade, visão de futuro e ajuda ao seus semelhantes próximos ou distantes.

D. Marly e Mel, mãe e irmã dedicadas, completavam o inestimável suporte familiar que Niltinho Rossoni teve para seguir adiante. Seu momento máximo foi o título da Barber Dodge Pro Series, nos Estados Unidos, em 2000. Mas aquele momento de festa, também compartilhado por seu coach, o saudoso Plácido Iglésias, confundia-se com a emoção da conquista, mas igualmente com a preocupação de um momento familiar desfavorável, notadamente nas questões financeiras, em razão das reviravoltas da economia.

O fim de um sonho

Poucas manifestações de coragem e determinação foram testemunhadas por este jornalista, em seus 31 anos de carreira, que se assemelhassem aos esforços do patriarca Rossoni para que Niltinho pudesse participar da Indy Lights, então categoria de acesso à Fórmula Cart. Isso foi em 2001 e, na pista mexicana de Monterey, enquanto Cristiano da Matta vencia com o carro da Newman Haas na categoria principal, Niltinho Rossoni iniciava a jornada pela Conquest Racing.

Foi a primeira e única corrida de Niltinho Rossoni na Indy Lights. O dinheiro acabou, os negócios da família praticamente deixaram de existir, não se fizeram presentes alguns apoios que eventualmente poderiam, pelo menos, ajudar na continuidade da carreira e o horizonte dourado se transformou em tempestade de raios e trovões.

Quando a crise se abate e nem todos os compromissos podem ser cumpridos, só nos resta lutar pela sobrevivência e nos defender das pedradas que surgem de todos os lados. Cada uma sabe de sua vida e onde o calo aperta, então, as reações à derrocada dos Rossoni foram diversas, desde as complacentes até as violentas, todas de certo modo compreensíveis numa ótica particular e individual, visto que a sensação de justiça ou injustiça é prerrogativa de cada um.

A tênue linha entre justiça e injustiça

Com Niltão, Niltinho, D. Marly e Mel não foi diferente, cabendo a eles, principalmente ao já ex-piloto e seu pai, fazer opções e seguir em frente. Hoje, tudo isso é história e a trajetória pública de Niltinho Rossoni no esporte é passado. No âmbito particular, as opções são prerrogativas de cada um. A vida é assim. Quantos de nós não tivemos planos frustrados e acabamos, na tentativa de acertar, errando bastante, tentamos novamente, voltamos a errar até que, um dia, a coisa tomou um rumo certo?

O automobilismo é um esporte que faz sonhar e enebria as mentes. Para alguns, o sonho de realiza; para outros, o que fica é um sentimento de vazio. Muitas são as jornadas que comprovam isso, sempre foi assim e, no Século XXI, a questão financeira tem um peso mais significativo ainda. É nessa hora que a questão de justiça vem à mente e, certamente, poucas vezes o peso da INJUSTIÇA foi tão gigantesco e cruel como no caso dos Rossoni. Definitivamente, essa família não merecia passar por infortúnios tão intenso (e obviamente não estou falando apenas da questão esportiva).

Portanto, como foi dito no início, esse texto é um lamento, pois tudo poderia ter sido muito, muito diferente. E quando a gente vê um garoto como Bruno Senna, avançando na carreira e conquistando espaços, é impossível não ver o outro lado da moeda, o lado de alguns que iniciaram a caminhada com o mesmo objetivo, o do sucesso nas pistas, mas que, por algum motivo que não cabe julgamento, apenas constatação, tiveram de mudar de calçada.

Fotos Miguel Costa Jr.

 

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8 COMENTÁRIOS

  1. ola,estava hoje buscando pilotos que tive o prazer de correr no passado e o nome nilton rossoni veio a mente. quando o conheci correndo na mesma categoria que ele em MID OHIO speedway, penso que foi em 1994 ou 1995 pois eu fazia a eastern series e ele fazia o Midwest e nos encontravamos nesta pista no meio do campeonato.
    Me aproximei dele por perceber que era brasileiro tb,nos conhecemos mas tomamos rumos diferentes.Depois de 1998 season,Passei para o campeonato nacional de turismo e nunca mais vi ou ouvi do rossoni que
    sempre vinha a minha mente o que acontecera com ele.
    poderiam postar mais sobre ele?
    obrigado..

  2. Caro Américo. Legal seu texto, bem tocante. Não sei exatamente o que aconteceu com a família, afinal, o único contato que tive com o nome Rossoni foi no tempo em que você foi assessor de imprensa dele. Você sabe que tive um dos primeiros escritórios de verdade de gerenciamento de carreiras de pilotos no Brasil, portanto, convivi com dezenas de casos semelhantes. A coisa que mais repeti à exaustão, principalmente aos pais dos pilotos, era de que o automobilismo não é um esporte, mas um negócio e como tal, exige investimento, tem riscos e mais possibilidades de fracassos do que de êxitos. A pirâmide do esporte vai se afunilando conforme o piloto vai subindo e as vagas vão escasseando geometricamente. São poucos os que chegam lá em cima e muita gente merecedora fica pelo caminho.
    Sem planejamento estratégico a possibilidade de êxito fica ainda mais difícil e era aí que eu fazia de tudo para deixar a emoção de lado, afinal, para todos os pais que se sentavam lá na sala de reuniões da Av. Paulista, seus filhos eram ‘o novo Senna’. Um dos argumentos mais furados usados era de que há não sei quantos anos, meu filho disputou uma corrida de kart na Europa e chegou na frente do Alonso (exemplo); deu um pau no Alonso, e hoje o Alonso tá na F1 e meu filho não, como se isso fosse a grande injustiça dos deuses.
    A maioria desses possíveis clientes acabava não fechando conosco, exatamente pela teimosia deles e nosso pragmatismo. Insistiam em fazer o contrário do que recomendávamos. No automobilismo é quase certo que dar um passo atrás para depois dar dois à frente, é uma prática mais do que recomendada. Não vou citar nomes, mas vários pilotos com bom talento e alguns com excepcional talento, não deram em nada e estão por aí fazendo coaching de kart, trabalhando em eventos para montadoras ou ‘dando’ consultoria.
    Na grande maioria eles vinham de famílias com boa situação financeira, mas misturar a família com essa emoção foi fatal à maioria delas e quase todas se esfacelaram, são filhos que não falam mais com os pais, irmãos que cobram o mesmo valor investido no mano piloto, enfim, a maioria teve fim triste.
    Como disse no início, não sei o que realmente aconteceu com os Rossoni, mas sempre ouço que um Rossoni é presidente da Câmara dos deputados em Curitiba, ou Assembléia, sei lá, sempre pensei que fosse o pai dele. Casos como o do Helinho são exceção, raridade mesmo, uma união de fatos, ações e acontecimentos que convergiram para o lado certo. Não nos esqueçamos que o Helinho esteve no fio da navalha para voltar ao Brasil sem chance na Cart e com as finanças familiares em frangalhos. Mas por um detalhe, um detalhezinho, toda sua história mudou. Se esse detalhe não tivesse ocorrido, estaríamos aqui escrevendo um mural de lamentos pela família Neves? Talvez.
    Portanto, claro que torço por todos, desejo o melhor a todos, até a meus inimigos, mas não vejo o que lamentar (falo do lado esportivo) e se por acaso a família foi à bancarrota por causa do automobilismo, desculpe, continuo pensando igual. Não foram poucas as pessoas que alertaram o Sr. Roberto, pai do Ricardo Maurício, sobre o que ele estava fazendo e deu no que deu, sorte que o Ricardinho conseguiu reverter, senão seria mais um mural aqui. Às vezes as pessoas ficam cegas e não medem o que fazem. Comparar o momento do Bruno Senna com o do Niltinho também me parece um pouco fora de questão, afinal, me lembra um pouco aquele pau que o ‘novo Senna’ deu uma vez no Alonso.
    Como disse o Jim Clark ao ser perguntado por um repórter sobre quem seria o melhor piloto do mundo, ele respondeu: “Não sei, talvez seja um lenhador no interior da Finlândia, que usa seu machado de forma mais eficiente que os outros, que seja mais detalhista e metódico no corte de uma árvore e que consegue cortar mais árvores que todos os seus pares, mas ele nunca será conhecido, pois talvez jamais dirija um carro, jamais pise num autódromo, por falta de oportunidade”.

  3. Lembro bem daquele fim de semana do Niltinho no México. Pedi a você alguma informação ou foto por e-mail, para o jornal onde trabalhava, você me telefonou do número 000000 e ficamos por longo tempo ao telefone. Foi a primeira vez que nos falamos. Abração, amigo.

    • Boa lembrança, Luc. A prova foi num lugar maravilhoso, o Parque Fundidora, em Monterrey. Como a prova era patrocinada pela Telmex, a sala de imprensa era no interior de uma galeria de arte, instalada no próprio parque, e a companhia telefônica mexicana disponibilizou para cada jornalista uma linha gratuita e livre. Foi um dos trabalhos mais facilitados que tivemos naquele início dos anos 2000, visto que os acessos aos recursos não eram tão fartos como hoje.

      Abraço e obrigado pela lembrança.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.