No próximo domingo, dia 18 de outubro, quando estiver acontecendo o Grande Prêmio de Fórmula 1, o torcedor brasileiro estará sentindo as emoções desta que ainda é a mais prestigiada categoria do automobilismo mundial pela 39ª vem em nosso país. A história automobilística estará registrando 37 corridas válidas pelo Campeonato Mundial de Pilotos e Construtores de Fórmula 1, tendo também um espaço reservado para a etapa realizada no Distrito Federal, em 1974, para a inauguração do então Autódromo Emílio Garrastazu Médici, hoje internacional Nelson Piquet. Mas, antes disso tudo, houve a primeira corrida, a primeiríssima corrida realizada em 1972.

Emerson Fittipaldi fez a pole position daquele Grande Prêmio do Brasil, mas abandonou quando liderava por problemas na suspensão do Lotus 72 (Foto Ford Motor Company, no Grande Prêmio da Inglaterra daquele mesmo ano)
Emerson Fittipaldi fez a pole position daquele Grande Prêmio do Brasil, mas abandonou quando liderava por problemas na suspensão do Lotus 72 (Foto Ford Motor Company, no Grande Prêmio da Inglaterra daquele mesmo ano)

Se hoje a relação entre a categoria e o torcedor brasileiro já é a de um “casamento duradouro”, ver essas máquinas em nossos autódromos, no início da década de 70, ainda era um sonho distante, que só veio a se concretizar na quinta-feira, 30 de março de 1972, com a realização do primeiro Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, no formato de disputa extra-oficial. A prova teve problemas, mas colocou definitivamente o Brasil no calendário mundial. Depois daquele dia, muita coisa aconteceu. Vencemos e perdemos, vibramos e choramos com a Fórmula 1, mas ela nunca mais deixou de cruzar o Oceâno Atlântico para duelar sob as agruras do implacável verão brasileiro em grande parte de suas edições.

Já naquela época, a Rede Globo de Televisão estava envolvida com a Fórmula 1 e foi um importante suporte para que o empresário Antônio Carlos Scavone pudesse garantir a presença dos carros em Interlagos. Com esse objetivo, o Autódromo de Interlagos passou por uma reforma substancial, principalmente no asfalto.

Como a etapa brasileira não contava pontos para o Campeonato Mundial, nem todos os grandes nomes da temporada puderam vir a São Paulo. Apenas 12 carros se inscreveram para a prova e se não tivesse havido a antecipação de um dia na realização da corrida, esse número poderia ter sido ainda menor. É que, nos anos 70, muitos pilotos disputavam a Fórmula 1 e a Fórmula 2 (guardadas as devidas proporções e passadas quase quatro décadas, uma espécie de GP2) simultaneamente. A antecipação permitiu, assim, que os pilotos voltassem para a Inglaterra no vôo São Paulo-Londres naquele 30 de março para iniciar os treinamentos em Thuxton no dia 1º de abril.

Equacionadas as questões de qualidade do asfalto e de calendário, os primeiros treinos aconteceram no dia 28 de março em uma pista totalmente empoeirada pelo fato de ainda não ter sido utilizada após o reasfaltamento. E já naquele primeiro dia o público compareceu em peso a Interlagos para, principalmente, ver o ídolo Emerson Fittipaldi. Aos 25 anos, o piloto paulistano já acumulava os primeiros 17 Grandes Prêmios de Fórmula 1 até aquele momento – em uma carreira que seria concluída, na categoria, em 1980, com 144 provas disputadas, dois campeonatos mundiais e 14 vitórias oficiais. Por ocasião da corrida em Interlagos, Fittipaldi já havia iniciado a arrancada que lhe daria, ao final do ano, o seu primeiro título de campeão mundial de Fórmula 1, o mais importante do automobilismo. Mesmo não tendo marcado pontos na Argentina, na abertura da temporada de 1972 (Buenos Aires, 23 de janeiro), obtivera o 2º posto em Kyalami, África do Sul.

Mas os olhos que estavam atentos aos passos de Emerson Fittipaldi viram o sueco Ronie Peterson assinalar o melhor tempo daquele dia com o March 721. Entretanto, qualquer sentimento de frustração foi sepultado no treino decisivo para a formação do grid de largada. Ao volante do lendário Lotus 72D preto e dourado, Fittipaldi assinalou a pole position com o tempo de 2min32s363 pelo circuito de 7.960 metros do Autódromo de Interlagos. A superioridade do brasileiro ficou evidenciada pelos mais de 2s de vantagem sobre o argentino Carlos Alberto Reutemann, outra sensação daquele início de temporada. Com 30 anos, El Lole, como é conhecido até hoje na Argentina, havia estreado na Fórmula 1 há apenas dois meses, justamente em seu país, e logo de cara marcou a pole position com o Brabham BT 34. O feito histórico reforçou ainda mais a crença por parte de seu patrão, um ex-piloto e empresário inglês que comprara a equipe do tricampeão Jack Brabham no início do ano anterior. Seu nome: Bernie Ecclestone.

Além de Fittipaldi, na dianteira do grid, mais três pilotos brasileiros alinharam para a primeira prova de Fórmula 1 no Brasil. Com um Brabham BT33, Wilson Fittipaldi Jr. fez o 4º tempo para a largada nesta que foi sua segunda prova na categoria (sua estréia oficial aconteceria no Grande Prêmio da Espanha daquele ano, marcado para 10 de maio, em Jarama). José Carlos Pace,  que já havia feito sua estréia no Grande Prêmio da África do Sul pela equipe de Frank Williams, foi o 6º na classificação com o March 721. Por fim, Luiz Pereira Bueno foi o 9º no grid com um March 711 alugado pela Equipe Hollywood, através da qual já era ídolo no automobilismo brasileiro. Quem comandava o marketing daquela empreitada da Hollywood era o gênio da publicidade brasileira, Mauro Salles, que promoveu a quebra do recorde do circuito externo de Interlagos por Bueno.

Na prova, Wilson Fittipaldi Jr. assumiu a ponta logo na largada, deixando o irmão e o companheiro de equipe argentino em uma forte disputa pela 2ª colocação. A liderança daquele que viria a ser o construtor do primeiro Fórmula 1 brasileiro durou apenas duas voltas. O motor Ford Cosworth (que equipava todos os carros daquele grid, menos os BRM) cameçou a falhar e ele foi suplantado pelo piloto da Lotus na terceira passagem. A partir daí o que se viu foi um domínio total de Emerson Fittipaldi, o que lhe garantiu uma vantagem de mais de 20s sobre Reutemann com 30 voltas completadas, das 37 programadas.

A partir desse ponto da prova, porém, o Lotus 72D começou a apresentar um comportamento arisco, atravessando muito de frente. Na 33a volta, quando faltavam apenas cinco para a bandeirada, quebrou-se em definitivo o braço inferior da suspensão traseira. Assim, dos boxes, Emerson Fittipaldi viu a primeira vitória de Reutemann (a primeira oficial, contando pontos para o Mundial, só viria em 1974, na África do Sul) e o 3º posto do irmão Wilson. Entre eles, Ronnie Peterson.

José Carlos Pace conseguiu completar apenas uma volta, pois travou o acelerador de seu March 721. Segundo a equipe de Frank Williams, que naquela época não dava a mínima indicação da poderosa escuderia na qual se transformaria no final dos anos 70, o motivo foi a poeira levantada pelos outros carros na saída. Luiz Pereira Bueno reclamou do March 711. Para ele, um carro inguiável. Para piorar, a prioridade na equipe era para Peterson. Mesmo assim, foi o 6ª colocado.

As reclamações pela multidão presente nos boxes e a sujeira da pista foram grandes, mas o Brasil passou no teste e a partir do ano seguinte entrou no calendário oficial. Só que na estréia contando pontos, em 11 de fevereiro de 1973, a festa foi brasileiríssima.