


Com tantos anos de jornalismo no automobilismo, nem sempre presenciando somente momentos nobres, é uma constatação que o espaço para emoções vai diminuindo. Acho que é um ciclo natural, talvez até podendo ser creditado ao chamado amadurecimento – se bem que até isso pode ser questionável, pois uma fruta muito madura, que cai e se arrebenta no chão, para nada serve.
Eis que, neste mais recente Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, a emoção me atropelou nas pessoas do Cadu Campos e sua mãe, Andreia.
É um bálsamo para a alma e o coração conviver com um jovem tão positivo, tão feliz, tão otimista, tão carinhoso, tão amoroso, tão generoso, tão inteligente, tão intenso na capacidade de se doar, sem nada pedir em troca. Queria escrever sobre o Cadu, mas para me salvar de minha desorganização, que infalivelmente resulta em falta de tempo, Andrea Amadeo, grande jornalista do time de Reginaldo Leme – que não é grande, apenas, é SUPREMO, GIGANTE, INCOMPARÁVEL – enviou um texto perfeito. Logo, publico-o na íntegra.
A história de Cadu Campos e Lewis Hamilton é daquelas que parecem escritas pelo destino — uma narrativa de conexão, superação e afeto que atravessa o tempo, o paddock e o coração de quem a testemunha. Em 2018, Cadu tinha apenas 10 anos quando, recém-operado, pediu à mãe para ir à Fórmula 1. O que parecia um simples pedido infantil se transformou em um momento marcante: levado ao Hotel Transamérica, onde os pilotos se hospedavam, o menino chamou a atenção de Hamilton, que reconheceu nele algo familiar — a mesma deficiência física de seu irmão Nicolas.
O britânico quis saber tudo: onde o garoto morava, como era seu tratamento, o que gostava de fazer. E então, fez um convite que mudaria para sempre a vida de Cadu: visitar o box da Mercedes no dia seguinte. O encontro foi mágico. Cadu entrou no carro do heptacampeão, ganhou o pneu da pole position, acompanhou o pódio de perto e, por três dias, viveu dentro do universo da equipe que dominava a F1. Naquele instante, nascia uma conexão que ultrapassava a relação entre fã e ídolo.
Cinco anos se passaram — pandemia, dificuldades, distâncias. Mas em 2023, quando Hamilton chegou ao paddock de Interlagos, avistou Cadu, desceu do carro e o abraçou. Um gesto simples, mas cheio de significado. No ano seguinte, em 2024, a própria Petronas organizou uma surpresa: vendado, Cadu foi levado ao box da Mercedes e, ao abrir os olhos, viu novamente seu ídolo à sua frente. As lágrimas e sorrisos contaram tudo o que as palavras não poderiam.
Em 2025, o reencontro parecia improvável. Sem convite para o GP de São Paulo, Cadu já se conformava em acompanhar tudo “do setor S — o sofá”. Mas o destino, outra vez, tinha planos diferentes. Um convite de última hora o levou ao autódromo, e durante a visita ao pit lane, Angela Cullen, fisioterapeuta de Hamilton, o reconheceu e fez uma selfie. Poucos minutos depois, ela retornou acompanhada de Lewis.
Ao ver Cadu, agora com 17 anos, Hamilton pediu que o levassem para dentro do box. O garoto vestia uma camiseta estampada com fotos de todos os encontros anteriores — “Lewis and Me”. O piloto sorriu, apontou para as imagens, relembrou cada momento e fez questão de autografar. Abraços, lágrimas, sorrisos e celulares registrando o instante em que o tempo parou.
O vídeo se espalhou pelas redes. Em poucas horas, ultrapassava meio milhão de visualizações. Até a Scuderia Ferrari, rival histórica da Mercedes, publicou as imagens em seu feed, acompanhada de comentários de fotógrafos, fãs e pilotos do mundo todo. O carinho por Cadu ultrapassou fronteiras e mostrou que, no esporte, a empatia é o verdadeiro troféu.
Hoje, Cadu é um jovem que sonha em se tornar jornalista especializado em automobilismo. Com apenas 17 anos, já possui o canal de YouTube “Nas Pistas com Cadu“, onde produz seus podcasts na KombiCast, uma Kombi transformada em estúdio com apoio de pilotos e equipes que se encantaram por sua trajetória. Também apresenta o programa “Tá ExpliCadu”, no canal AutoMotor, em parceria com a Spot MediaTech, onde explica os bastidores da F1 com leveza, humor e um olhar curioso — o mesmo olhar que, sete anos atrás, chamou a atenção de um heptacampeão mundial.
Porque algumas histórias não nascem apenas nas pistas. Elas nascem de encontros que transformam vidas. E a de Cadu Campos e Lewis Hamilton é, sem dúvida, uma delas.