Felipe Massa lança o Racing Festival e mostra que o automobilismo brasileiro é viável

Sem tentar esconder as cicatrizes de seu grave acidente, Felipe Massa foi a grande atração do Racing Festival (Foto Carsten Horst/Racing Festival)
Sem tentar esconder as cicatrizes de seu grave acidente, Felipe Massa foi a grande atração do Racing Festival (Foto Carsten Horst/Racing Festival)

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Não existem milagres no automobilismo e o esporte não avança se não for encarado como negócio. Felipe Massa mostrou isso ontem, em São Paulo, ao ser o padrinho do Racing Festival, evento que a partir do próximo ano reunirá uma categoria de monopostos (Fórmula Future, para recém-saídos do kart), uma de Turismo (Trofeo Linea Fiat) e outra de motocicletas, a 600 Super Sport. Por “padrinho” entenda-se aquele que, através de seu nome e relações comerciais, propiciou o projeto e sua viabilidade econômica, cabendo a condução da empreitada para familiares e sócios. O grupo responsável não está “salvando a pátria” ou de forma magnânima “resgatando” o automobilismo local. Está, sim, provando que tem visão estratégica e de futuro, capacidade de atrair uma grande empresa como a Fiat, disposição para trabalhar em um ramo sabidamente de relações árduas e, sobretudo, mostrando que o automobilismo brasileiro é viável.

Não adianta querer “reinventar” a roda e achar que é possível fazer automobilismo diferente. É um tripé que, sem uma das “pernas”, o caminho certo é o chão, pois automobilismo é também negócio que gera muitos empregos, não filantropia. Tem de haver um promotor, como é o caso da RM Racing Events, empresa comandada por Titônio Massa, Dudu Massa e Carlos Romagnolli. Cabe a esse grupo negociar com os administradores de pistas, contratar fornecedores, captar patrocínio para a realização do evento, garantir exposição e divulgação das corridas, criar condições para que as empresas investidoras possam utilizar o evento para seus objetivos de marketing e relacionamento com clientes, atrair os competidores e fixar compromissos através de contratos, garantir a disponibilidade técnica dos equipamentos e muito, muito mais.

Resumindo, se alguém acha que ser promotor é fácil, não entende nada de automobilismo. Se já é uma tarefa difícil mesmo com um patrocínio coerente com as necessidades do empreendimento, como teve Pedro Paulo Diniz (Renault) e tem agora Felipe Massa, imaginem ter de fazer tudo isso sem patrocinadores? Ou é uma questão de heroísmo ou maluquice, cada um que escolha a melhor definição.

Ninguém faz nada sozinho

A outra parte é a técnico-desportiva. A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) não pode se arvorar de criadora da categoria, pois não é. Mas da mesma forma não pode ser responsabilizada pelo seu término se, por algum motivo, amanhã os contratos chegarem ao fim e as partes resolverem partir para outra empreitada. A CBA não é promotora de eventos mas, apesar de não ter qualquer adesivo da entidade nos carros ou no evento de ontem, é peça fundamental para o funcionamento do Racing Festival.

Cabe a ela tornar a competição oficial por meio da homologação de seus regulamentos e equipamentos (isso dá um trabalho absurdo!), introduzir o evento no calendário oficial, garantir o cumprimento das normas técnicas e desportivas na ação direta do diretor de prova, comissários técnicos e desportivos, além de oficializar resultados e tornar aplicáveis todas as premissas impostas pela Fédération Internationale de L’Automobile (FIA) para o funcionamento do automobilismo.

Aqui também estão inseridas as federações locais e os clubes organizadores, cujas funções são claras em termos de legislação e de atuações práticas. Há quem considere que uma entidade técnico-desportiva não faz nada. Se isso tudo – e muito mais – não é o exercício pleno de funções necessárias para o automobilismo, não sei o que seria. E como a Confederação não vive de brisa, os executivos do Racing Festival devem ter pago – ou pagarão – as taxas correspondentes, que são cobradas dos demais promotores e não haveria justificativa para não fazê-lo no caso das duas categorias de automobilismo que formam o evento. Essas taxas são públicas e variadas. De acordo com o Código Desportivo do Automobilismo, em seu Regimento de Taxas (Capítulo 16, Artigo 131, Item A, Página 46), dentre outras, a de homologação por categoria é de R$ 360.000,00 (Trezentos e Sessenta Mil Reais). Esse valor é pago uma única vez. Já a de inscrição no calendário é anual e hoje fixada em R$ 160.000,00 (Cento e Sessenta Mil Reais).

Competidores e demais profissionais

Por último, os competidores e demais profissionais. De nada adianta as competências acima estarem a pleno vapor, transbordando de eficiência, se pilotos e equipes não estiverem em linha com o evento. E essa condição só acontece se a equipe e piloto puderem atingir seus objetivos. Lógico que a vitória e a glória do pódio são as metas de todos e, em nome disso, todo sacrifício é feito. Afinal, aquela história de que o “importante é competir” é conversa fiada. Ou como aparece em alguns releases: “Fulano quer vencer”. E quando vejo isso sempre me pergunto: “PQP, tem algum infeliz que entra na pista com o pensamento fixo em ‘eu não quero vencer'”?

Mas há também o lado prático da coisa, o lado pé no chão. A equipe busca se sustentar enquanto empresa, geradora de emprego e cumpridora de suas obrigações financeiras. Já o piloto, se em fase de formação, quer fazer da categoria um trampolim de qualidade para os seus alvos de carreira. O competidor de Turismo, já longe do sonho de “Fórmula 1”, mas profissional em seu ofício, preciso ser pago ou ter condições de fazer o seu salário por intermédio de seus patrocinadores pessoais.

Enfim, é um círculo virtuoso que envolve todas as demais gamas profissionais que atuam no esporte, mas que pode se tornar vicioso se algumas partes refugam ou, pior, tentam transferir responsabilidades. Automobilismo não é brincandeira, é coisa séria. Automobilismo não é só sonho e paixão, mas principalmente profissionalismo. Automobilismo não é caridade e nem um “coitadinho” que precisa que se passe a mão na cabeça, mas um segmento da economia que, como todos os outros, merece elogios, incentivos, apoio, divulgação, críticas construtivas e parcerias. Mas também caneladas, de acordo com o rumo tomado.

3 Comments

  1. Guilherme 3 de setembro de 2009 at 18:12

    obs.: Passos

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  2. Guilherme 3 de setembro de 2009 at 18:10

    Gostaria de saber quais sao os paços para participar da categoria Future! Necessariamente preciso estar correndo atualmente no kart? Tenho 23 anos, isso significar estar fora da categoria Future ou existe alguma outra possibilidade? O Valor para participar do campeonato esta estimado entre R$200 a R$300 mil reais ?

    Agurado retorno!

    Atenciosamente,

    Guilherme Delli Zotti

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  3. Carlos Gondim 3 de setembro de 2009 at 16:11

    Gostaria que alguém me esclarecesse o que aconteceu no acidente do Felipe, desde o momento em que a mola o atingiu até a batida na barreira de pneus. Pelo que foi mostrado no vídeo da Globo, ouve-se o som do motor na redução das marchas e as sucessivas travadas dos pneus dianteiros, no trecho entre a saída da pista e a barreira de pneus, deixando marcas no parte cimentada. Por fim, o som do motor acelerado, com o carro já parado (com o cambio em ponto morto?). Como poderia acontecer tudo isso se o Felipe estava desacordado? No dia, o Galvão Bueno não comentou estes detalhes. Será que ele não entendeu o que aconteceu?

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