detalhe-1Trata-se, por enquanto, apenas de uma possibilidade, mas não está descartada a hipótese de o Protótipo Alfran Braspress 450 A (foto), construído pelo falecido preparador João Alfran para a Família Helou, retornar às pistas. Esse plano foi revelado no GP Cidade de São Paulo, domingo passado, em Interlagos, pelo jornalista João Alberto Otazú, que tem uma longa parceria com os Helou na área de divulgação. O carro está sob a guarda do veterano piloto Urubatan Helou e, por trás das linhas sóbrias da carroceria e da potência do motor instalado no chassi tubular, está uma história de amor pelo automobilismo, mas prematura e lamentavelmente interrompida tão cedo.

Para contar essa história, eu tenho de voltar quatro anos no tempo e recordar um encontro muito especial com o meu amigo João Alfran. Aquele dia, 18 de dezembro de 2004, um sábado, foi particularmente importante para Alfran. Depois de 18 meses de trabalho, do projeto ao término da construção, ele colocava na pista pela primeira vez o Protótipo Alfran Braspress 450 A. Esse chassi, como motor Chevrolet V8 de 600cv, foi o grande projeto da Alfran Racing e resultado de uma longa parceria com o piloto Urubatan Helou e seu filho, Urubatan Júnior.

Ex-mecânico das equipes Eurobrum, Coloni, Andréa Moda e Minardi de Fórmula 1, Alfran e Urubatan Helou Júnior aproveitaram a prova da categoria Força Livre, disputada naquele dia em Interlagos – última etapa do Campeonato Paulista de Automobilismo, da qual fizera parte também a rodada dupla de encerramento do Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos – para fazer um shakedown com o protótipo. Era importante aquela prática porque as semanas seguintes seriam dedicadas para realizar eventuais ajustes, pois a estréia oficial seria na Mil Milhas do mês seguinte.

A prova de longa duração seria o ponto de partida para a participação do carro na temporada brasileira da modalidade, incluindo o Campeonato Brasileiro de Endurance. Feita a verificação desejada, o Protótipo Alfran Braspress 450 A foi aprovado e recolhido para as oficinas da Alfran Racing.

Era visível a alegria de Alfran e de sua equipe por ver o seu carro pronto e correndo na pista de Interlagos. Seria, por certo, o ponto de partida para muitas outras corridas. Ele e Urubatan Jr. mostraram todos os detalhes do carro, inclusive algumas improvisações para que aquele dia de experimentação não fosse perdido.

Lembro-me que logo fiz a matéria e separei as fotos feitas com exclusividade por Vinícius Nunes. Mas se toda aquela movimentação parecia um start, para Alfran foi a bandeirada final. Aos 48 anos, ele faleceu no dia 3 de janeiro por problemas cardíacos. Compreensivelmente, o 450 A não disputou a Mil Milhas Brasileiras de 2005 e o carro ficou restrito à admiração dos Helou. Infelizmente, a material precisou ser refeita pelo pior dos motivos.

Caso se concretize a idéia de Urubatan, já aventada antes mesmo do GP Cidade de São Paulo, talvez todos nós tenhamos o privilégio de ver novamente esse carro nas pistas. O mesmo privilégio que eu tive naquele já distante e saudoso 18 de dezembro de 2004. E quiseram as circunstâncias do destino que aquela entrevista dada a mim em Interlagos talvez tenha sido a última de Alfran.

foto-principalAo alto, o Alfran Braspress 450 A, em Interlagos, pouco depois de ter estado na pista pela primeira vez; Ao lado, João Alfran passa orientações para Helou Jr., no cockpit

Fotos Vinícius Nunes

5 COMENTÁRIOS

  1. Existem pessoas que nascem, passa pela infância, adolescência e chega a adulto e não sabem o que fazer na vida. Outras só conseguem definir quando adulto.
    João Alfran não !!! Desde sua infância já era fascinado por carro. Lembro-me em nossa infância quando ganhava algum carrinho era uma grande alegria, e ái de quem ousa-se pegar em seus carrinhos. Chegando na pré-adolescencia fazíamos carros de rolemã, despertando já aí a fascinação por carros de corrida.
    Lembro-me também que em alguns finais de semana, ele junto com amigos ía ao autódromo de Interlagos assistir treinos ou corridas, muitas vezes só com o dinheiro das passagens (ele dizia que pulava o muro). Já rapaz de si, conseguiu fazer curso de mecânica no SENAI. No ano de 1977 perdemos nosso pai (infarto aos 52 anos). Em 78 a família, nossa mãe Josefa, Jerônimo, Jussara, Sallus e Pedro, decidimos voltar para Natal, João não !!!Já tinha 20 anos e sua meta era ser mecânico ou piloto de carros de corrida e sabia que para isso teria que ficar…
    Com o decorrer do tempo com sua determinação e experiência com carros de corrida, foi ficando conhecido juntos aos pilotos devido a colocação dos carros em que “preparava” tanto nas provas de classificação como nas provas. Um desses pilotos chama-se Roberto Pupo Moreno; dizia ele um grande amigo um irmão. Moreno conseguiu leva-lo para um dos seus maiores sonhos, a fórmula 1. Passou dois anos com muitos sacrifícios na pequena escuderia Coloni na Itália; dizia ele que sofreu muito, não era bem visto por não ser “engenheiro” mecânico e pior, havia discriminação por ser brasileiro. Disse que seu “teste” para ficar foi o dono da equipe Enzo Coloni, levando-lhe a sucata da oficina (digamos, restos de peças e carros F-1)disse-lhe, veja o que você pode fazer com essa sucata. Em poucos dias trabalhando só, com muita disposição, pois sua permanencia na Itália dependia deste “teste”, conseguiu sem ainda dispor de conhecimento de F-1 montar um carro completo. Dizia ele, os “caras ficaram babando”, dizia isso com muito orgulho. Passou 89 90 adquirindo experiências e com problemas de saúde (sempre teve asma)e com outros objetivos como montar uma oficina, uma equipe de mecânicos no Brasil para carros de corrida, voltou.
    Saudades, muitas saudades, meu irmão…
    Que estejas em companhias dos anjos…

  2. […] Tomo a liberdade de reproduzir, com destaque, o comentário deixado ontem por Carina Alfran de Lima, filha do nosso querido e saudoso João Alfran, um dos profissionais mais experimentados do automobilismo brasileiro e que nos deixou em 3 de janeiro de 2005, aos 48 anos. O comentário de Carina foi escrito em função da matéria “Protótipo Alfran Braspress 450 A poderá retornar às pistas, quatro anos após a morte de seu criador”, publicada neste Diário Motorsport, em 30 de janeiro de 2009 (click aqui para ver matéria). […]

  3. tenho muito orgulho de carregar o nome do meu pai e de ter o seu sangue correndo em minhas veias, infelizmente o seu sonho de ver o “Alfran Braspress 450 A” correr as mil milhas de 2005, não foi realizado, mas eu tenho certeza que aonde quer que ele esteja, está orgulhoso do seu carro! Fico eternamente grata a família Helou e a todos os que fazem homenagens ao meu pai! obrigada por reconhecer o seu esforçado trabalho, respeitoso e acima de tudo a sua inteligência. Um exemplo de pessoa humilde e amigável. Aonde quer que você esteja pai, saiba que eu TE AMO MUITO E TENHO MUITO ORGULHO DE VOCÊ!

    Eternamente grata,

    Carina.

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