"Conhecer Emerson Fittipaldi Foi Um Dos Maiores Momentos Da Minha Vida".

Por Américo Teixeira Jr.

Jornalista de Automobilismo desde 1981. Foi editor da Racing, Motorsport Brasil (da CBA) e trabalhou como assessor de imprensa para Helio Castroneves, Tony Kanaan, Rubens Barrichello e Oswaldo Negri Jr.


                 ⭐⭐⭐⭐⭐


Em "Os Campeões e Eu", o Jornalista Américo Teixeira Jr. narra como seus emocionantes encontros com os três grandes campeões do automobilismo - Fittipaldi, Piquet e Senna - impactaram-no não só como jornalista, mas também como fã apaixonado do esporte.


Entusiasticamente recomendado por alguns dos maiores nomes do automobilismo brasileiro, o livro já vendeu mais de 10 mil cópias. 


Confira a seguir uma pequena amostra grátis do livro!



A história que conto aqui é sobre o meu encontro com o bicampeão mundial Emerson Fittipaldi (1972 e 1974), e se passou em 1984. 


O Fittipaldi que encontrei vinha buscando “renascer”, depois da queda que representou a saída da McLaren, ao final de 1975, para correr na equipe fundada por seu irmão Wilson - e até a falência do time brasileiro, quando já não mais pilotava, antes da abertura da temporada 1983. 


De malas prontas para reiniciar a carreira nos Estados Unidos, a palavra que resumia aquele momento para ele era...


ESPERANÇA.




O ano era 1984 e, embora eu estivesse apenas no segundo ano de faculdade, já estava metido no Jornalismo de automobilismo desde 1981.


Apesar de minha imaturidade e por estar buscando adquirir experiência na área da maneira que me era possível, estar cursando Jornalismo e escrevendo em jornais sobre corridas de automóveis representavam para mim estar a caminho de realizar um sonho que vinha sendo acalentado desde 1972, quando descobri a Fórmula 1 por intermédio do meu tio, hoje médico, Gilvan Timóteo.


Foi com ele que aprendi a ver corridas pela televisão, identificando carros, pilotos e circuitos. Mas se para ele era um passatempo e nada relacionado com o que viria a fazer no futuro, para mim, não é exagero dizer, era o início de uma carreira.


Naquela época, em razão do sucesso de Emerson Fittipaldi correndo pela lendária equipe Lotus e do início das transmissões para o Brasil das corridas de Fórmula 1 pela televisão, o automobilismo passou a fazer parte da vida de muita gente.


Só que, como toda novidade, para muitos, assim como veio, foi-se. Comigo foi diferente. Chegou e ficou.


Claro que na cabeça de um moleque de 10 anos de idade o volume de preocupação era pequeno ou quase nulo – pelo menos no meu caso era assim.


Então, tinha uma enorme capacidade para assimilar, sem desviar o foco, tudo o que fosse relacionado ao automobilismo.


Sendo bem honesto, naquela época – e devo confessar que durante um bom tempo também – automobilismo para mim se resumia ao “universo” da Fórmula 1.


Nada, em escala alguma, era capaz de superar em emoção o que a categoria oferecia para o coração e mente de um pré-adolescente residente em Santo André.
Era uma época na qual os pilotos não trocavam as cores de seus capacetes.


Não tinha essa novidade dos dias atuais, com um casco novo praticamente a cada corrida na cabeça do mesmo piloto.


Então, o verde e amarelo de Wilson Fittipaldi Junior foi o mesmo a carreira toda, o mesmo acontecendo com o preto e amarelo de José Carlos Pace, o vermelho e branco de Clay Regazzoni, o verde musgo de Jacques Laffite, o vermelho de Niki Lauda, o preto de James Hunt, o vermelho e branco de Nelson Piquet e por aí vai.


Havia, de fato, uma identidade visual, nada comparada com a confusão de cores, formas e figuras estranhas.


Bandeiras nacionais e geografia também se tornaram muito familiares para mim por causa do automobilismo. “No domingo que vem, Grande Prêmio da Bélgica!”, anunciavam o rádio e a TV. E lá ia eu descobrir onde ficava a Bélgica, sua bandeira, localização da pista etc.


Era um acúmulo de informação que não estava ao alcance dos dedos, como ocorre na chamada “era digital”. O “verbo ‘googar’” ainda não existia.


Pelo contrário – e bota “pelo contrário” nisso -, dependia de muitas pesquisas em bibliotecas e manuseio de jornais e revistas.


Talvez tenha nascido aí essa minha quase neurose em pesquisar e apurar informações, independentemente das dificuldades.


Mas voltando a 1984, eu até trabalhava num banco, que hoje nem mais existe, mandando títulos vencidos para o cartório.


Eram incômodos duplos, uma vez que estava perdendo meu tempo numa área totalmente estranha para o meu projeto profissional e, não bastasse isso, complicando mais ainda a vida de quem já estava ferrado, pois de outro modo a maioria não estaria com os pagamentos em atraso.


Mas eu precisava daquele dinheiro para pagar a faculdade, manter-me e também tentar ajudar um pouco em casa.


Afinal, já estava bem grandinho para continuar dependendo do seu Américo e da D. Marinalva, meus queridos pais, que tinham também meus irmãos Vlademir, Ronaldo e Rosinha, nessa ordem, todos mais novos do que eu.


Mesmo com as limitações impostas pela vida, meus pais deram aos quatro filhos o máximo possível de oportunidades.


Era uma época de rotina complicada e mesmo a energia que todo moleque nesse idade tem, para mim acabou faltando numa determinada fase. Foi nessa época que cometi um outro "pecado“.


Hoje eu avalio que a minha ansiedade em produzir era tanta – e corria com tanta determinação atrás disso – que me penitencio por não ter aproveitado o tempo para me preparar melhor para a profissão.


Produzia demais, mas penso que movido por um tamanho grau de ansiedade que, em certa medida, não me fez bem. Mas vá dizer isso para um jovem, né?


Mas sempre tive em mente uma frase que Frei Betto me disse numa entrevista que fiz com ele, em 1983, para um jornal mural chamado O MURO, que o grupo do qual eu fazia parte mantinha na entrada do prédio de Comunicação da Metodista: "Toda opção implica em renúncia!".


Acordava às cinco da manhã, pegava um ônibus às seis e às sete já começava o trabalho. Saía uma da tarde, almoçava de graça na lanchonete do meu tio Nelson querido, já falecido, que ficava ali perto e uma sensação de liberdade se apossava de mim.


Eu tinha a tarde toda livre para atividades extra-curriculares, antes de ir para a faculdade no período noturno. Vivia em tudo quanto era congresso, palestra, evento, seminário, curso livre e tudo o que mais pudesse contribuir para a minha formação como jornalista. Era um tempo de total descoberta.


Eu queria escrever em jornal e saí à caça de oportunidades. O meu sonho profissional era trabalhar na Folha de S. Paulo, o que acabou acontecendo entre 1986 e 1987.


É até meio esquisito para a nova geração ler que alguém tinha como objetivo de vida escrever em jornais, mas é verdade. Longe ainda da grande revolução proporcionada pelo acesso das massas à internet, essa fantástica ferramenta de inclusão e democratização da informação, era da quantidade de papel com matérias publicadas que cada um media o tamanho de seu avanço.


Pasta, tesoura e cola faziam parte do ferramental necessário com o qual se operava a engorda dos currículos. Cada um tratava de juntar o que era seu para mostrar aos outros, fosse por necessidade profissional, fosse por orgulho mesmo.


E não escrevo “orgulho” com desdém, não. A minha geração bem sabe o quanto era necessário batalhar para ver algo seu publicado.



E foi com esse objetivo na cabeça que descobri um “universo” fantástico representado pelos jornais de bairros da cidade de São Paulo e também dos municípios que formam a Grande São Paulo.


Se em abril de 2015 uma pesquisa rápida indicava algo em torno de 60 títulos publicados, imaginem no século passado, quando estava muito longe ainda de a onda digital representar um obstáculo quase que intransponível para que algumas publicações continuassem a ser impressas.


Sem dúvida, era um “universo” a ser muito bem explorado e foi fácil descobrir que havia um congresso desse setor. Obviamente, fui participar.


Isso foi em 1984 e o ponto importante dessa passagem é que lá conheci o pessoal de um jornal chamado Gazeta da Vila Prudente, que acabou se constituindo no primeiro jornal no qual publiquei uma coluna regular.


O dono era um cara 101% dedicado ao jornal e, talvez por isso mesmo, de personalidade forte e centralizador. De certa maneira ele me deixava um pouco tenso, tímido até, mas uma dessas figuras que acaba fazendo parte do seu aprendizado e lá na frente você constata que foi valiosa para sua formação.


Seu nome, Irão Tessari, o jornalista que me disse uma coisa que eu, tanto tempo depois, lembro cada palavra e é como estivesse ouvindo agora mesmo aquela voz rouca.


Eu, mesmo muito jovem, logo percebi o quão ilusória era a ideia de que iria chegar em um jornal, ocupar a posição de repórter e sair cobrindo e publicando o que eu bem entendesse.


Percebi logo de cara que nem sempre podia fazer o que eu queria porque o Irão tinha um modo diferente de pensar sobre o que seria a minha coluna. Tempos depois, entendi perfeitamente o que ele queria dizer.


Eu estava querendo fazer a coluna que me agradasse, sem ter uma visão do que o Leitor (sim, só me refiro ao Leitor com “L” Maiúsculo, afinal, que diabos eu estaria fazendo aqui se não fosse por você, Leitor?) gostaria de ler.


Numa dessas ocasiões de confronto, ouvi dele: "Senhor Americo, eu posso não ser o Deus Todo Poderoso do Jornalismo, mas sou o Deus Todo Poderoso da Gazeta da Vila Prudente. Portanto, não me questione e faça o que eu mando".


Para encurtar a história, escrevi lá por algum tempo e, depois, embora não me lembre exatamente por quais caminhos, fui parar no jornal Gazeta de São Bernardo, cujo dono era um cara muito educado e gentil, chamado Ivan Marques. Sempre fui muito grato ao Ivan.


Foi ele quem deu a oportunidade para que eu pudesse fazer o que me desse na telha, em termos de automobilismo, no jornal dele. Além disso, a redação era um "parque de diversões" para mim.


Num dos cômodos daquele sobrado, caixas e caixas de papelão estavam repletas de fotos antigas. Eu passava horas vasculhando as de corrida. Muitas publiquei no próprio jornal.


Naquele semanário, eu escrevia uma página em formato standard sobre carros e corridas.


Na prática era "corridas, corridas, corridas e corridas; ah, carros também". Infelizmente, por diversas circunstâncias, em pouco tempo eu perdi o costume de guardar o que escrevia e nem sei dizer se escrevia algo que prestasse.


Tenho minhas dúvidas. Se passadas três décadas eu ainda quero escrever melhor, calculem como seria o texto final, no século passado, de um garoto apaixonado por automobilismo e Jornalismo, mas sem ter ainda muita noção de como fazê-lo.


Mas independentemente do que tenha representado para o Leitor, para mim aquela jornada na Gazeta de São Bernardo permitiu que eu realizasse alguns sonhos.


Certamente, o mais significativo deles foi entrevistar Emerson Fittipaldi, fato que me levou a conhecer o meu primeiro carro de Fórmula 1. Foi o Copersucar-Fittipaldi F5 Ford Cosworth V8 3.0L. Aqui, preciso explicar algumas coisas.


Quando eu digo "conhecer o meu primeiro carro de Fórmula 1", estou me referindo àquele que vocês chega perto, sente o cheio, examina cada detalhe, passa a mão com carinho e reverência.


A carreira me permitiu "namorar" alguns carros dessa forma intensa, mas em termos de Fórmula 1 o primeiro foi aquele fracasso motorizado projetado pelo inglês David Baldwin, mas de uma beleza impressionante.


Outra coisa é que o meu despertar para o automobilismo aconteceu em linha direta com a minha idolatria por Emerson Fittipaldi. Eu só me referia ao piloto brasileiro como "O Maior do Mundo" e era de fato o meu ídolo. Foi o primeiro e único, visto que muito cedo procurei adotar uma postura profissional e tentei estabelecer a distância necessária.


Claro que são inúmeros os pilotos que admiro e essa convivência resultou em algumas amizades muito duradouras, mas nenhum deles foi alvo daquela veneração quase religiosa que eu tinha por Emerson Fittipaldi na adolescência e, felizmente, não muito tempo depois passei a encará-lo unicamente como um profissional merecedor de todo o respeito, mas nada mais do que isso.


Tudo isso para contar que eu tinha um objetivo primeiro, absoluto, fundamental, maior até do que cobrir o meu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1: entrevistar Emerson Fittipaldi.


Eu nunca desejei ser outra coisa na vida que não repórter de Fórmula 1, cobrir corridas e entrevistar seus principais personagens. Essa história de me tornar editor, chefe, assessor e etc foi tudo circunstancial.


Eu nunca procurei ser chefe de nada, apenas repórter. E os meus primeiros passos no Jornalismo, mesmo ainda com aquele pensamento idiota na cabeça de que todo piloto era um ser especial, foram nesse sentido. E hoje, se você me perguntar o que sou, responderei na lata: “Repórter!”


Pois então, bastaram apenas algumas semanas de publicação das minhas colunas na Gazeta de São Bernardo para que eu me sentisse em condições de solicitar uma entrevista exclusiva com Emerson Fittipaldi e telefonasse para um cara chamado Willy Hermann.


Falar do Willy requer um capítulo especial de inúmeras páginas - até mesmo um livro - em razão de suas realizações como empresário no automobilismo.


Mas naquele 1984, o hoje membro da IndyCar e, ao lado de outro “fera” - Carlo Gancia, representante da Fórmula Indy no Brasil era empresário de Emerson Fittipaldi e era ele a pessoa a ser procurada para agendar a entrevista.


Willy deixou em mim uma marca muito positiva e ali começou uma amizade que ultrapassou as barreiras do tempo, virando o século e durando até hoje.


Eu não passava de um moleque deslumbrado. Não sei se bobão ou arrogante, mas totalmente iludido com essa coisa do "mundo encantado da Fórmula 1".​


Só que apesar disso o Willy me tratou como um profissional de imprensa, sem qualquer discriminação por ser um jornal pequeno e um repórter em formação.


Vale dizer que, na condição de assessor de imprensa de Helio Castroneves, vi-me nessa mesma situação muitas vezes ao ser procurado por jovens jornalistas interessados em falar com o três vezes vencedor da Indy 500.


Sempre que me foi possível, eu procurei oferecer a eles a mesma oportunidade que tive nessa caso específico.


E a entrevista foi marcada.