Numa análise puramente técnica, Interlagos está aquém das exigências desde há algum tempo. Então, por que a pista continua no calendário?

Por Americo Teixeira Jr.

(Coluna publicada originalmente na edição 44 da Revista Warm Up)

Por mais transtornos que a F1 cause aos usuários do circuito localizado no bairro paulistano de Interlagos, a verdade é uma só: o Autódromo Municipal José Carlos Pace, palco de tantos momentos históricos do automobilismo brasileiro e mundial, só continua de pé em razão de o GP do Brasil estar no calendário oficial da categoria desde 1973 e de forma quase ininterrupta em Interlagos.

Nessas 33 corridas da categoria em São Paulo – incluindo a primeira, em 1972, em caráter extra-oficial e a do dia 24 de novembro deste ano –, foram poucas as oportunidades em que a pista se apresentou em condições plenas de receber a F1. Na maioria delas, sob a ótica da FIA, sempre faltou algo.

Em certos momentos foi pura hipocrisia do pessoal da FIA. Muito fácil reclamar de tanta coisa por aqui enquanto, na Europa, alguns autódromos se encontravam em situação similar ou pior. Em outros, porém, os dirigentes estiveram cobertos de razão. A evolução da F1 sempre foi muito mais rápida do que a capacidade de adequação dos autódromos, e Interlagos fez parte dessa montanha russa por diversas vezes.

Se a análise for puramente técnica, Interlagos já está aquém das exigências desde há algum tempo. Então, por que a pista continua no calendário? A resposta passa por várias frentes, menos aquela simplista de que “o Bernie Ecclestone gosta do Brasil”.

Muito bem, ele até pode gostar do Brasil. Mas o inglês é um homem de negócios pragmático e objetivo. Sem espaço na sua agenda para sentimentalismo. O GP do Brasil continua no calendário porque é uma prova lucrativa e a prefeitura de São Paulo faz o possível para atender pelo menos em parte o que é solicitado, além de fato de o público comparecer.

Nesse quesito, como a capacidade de público é pequena – algo em torno de 70 mil lugares entre arquibancadas e áreas de hospitalidade –, não é tarefa das mais difíceis lotar as dependências do circuito no final de semana de automobilismo top, como é o caso da F1. Além disso, o perfil do torcedor que vai a Interlagos ver a F1 é daquele apaixonado por automobilismo, pelo esporte em si. Já aquele que gosta das corridas somente quando há um brasileiro vencendo faz-se presente em menor número.

Depois que a categoria vai embora, o que sobra é um autódromo impecável para as necessidades do automobilismo brasileiro. Interlagos é a única praça automobilística brasileira que recebe os eventos completos de eventos como a F-Truck e Stock Car, sobrando ainda espaço.

São as duas grandes ocasiões passíveis de algum paralelo com a F1 em termos de agitação e público. Nenhum outro evento do automobilismo brasileiro lota Interlagos e, por certo, administração municipal alguma teria interesse em investir anualmente no circuito para manter intacta a praça para o minguado automobilismo brasileiro.

Como toda essa engrenagem funciona em razão da F1, se um dia Interlagos deixar de sediar em definitivo a etapa brasileira, estarão encerrados os motivos para continuar investindo nas reformas. O resultado no médio ou talvez longo prazos será o sucateamento do circuito, o colapso de suas estruturas e o sinal verdade para que aquele milhão de metros quadrados se transforme em condomínio popular. Alguém está disposto a pagar para ver?

Largada do Grande Prêmio do Brasil de 2013 (Foto Beto Issa/GP do Brasil
Largada do Grande Prêmio do Brasil de 2013 (Foto Beto Issa/GP do Brasil

3 COMENTÁRIOS

  1. Marcão,

    Muito bom comentário, avaliação excelente.
    Apenas não concordo no que se refere ao traçado: a pista de Interlagos, com as reformas do Bernie, ficou ruim. Precisava ser estuda uma nova alteração do traçado, mesmo que não fosse utilizada pela F1. A inclusão de um novo trecho fazendo um S de alta entre o final da reta oposta e o trecho existe do final do antigo retão, a criação de novas curvas em linha mais interna e paralelas as antigas 3 e 4 (para sobrar area de escape) e um novo S de alta, em subida, re-ligando a reta da antiga Ferradura com a a atual reta para o Laranjinha, daria a pista “folego” e atrativos ao traçado para atrair provas de categorias GT e LMP, FAze uma prova exta calendario com carros do DTM, bem com de categorais americanas (Indy ?) sem usar o traçado da F1, pra não incomodar o “tio” Bernie.
    O dinheiro para esse investimento teria de vir de uma especie de privatização do autocromo, com a criação de um shopping, Kart indoor, etc, como você propôs.
    Falta visão e vontade.

    Antonio

  2. Concordo com seu raciocinio enguanto fala de autodromo, prefeitura e F-1..
    Porém se este complexo estivesse nas mãos de particulares com certeza a situação seria bem diferente do que a realidade do local nos mostra, mesmo em época de F-1…
    As instalações na torre, garagens e salas diversas usadas para a F-1, já devem estar sem os tão importantes climatizadores…Só ficam os buracos deles lá..Os geradores de energia claro ficam escondidos dentro da florestinha, e nos depósitos onde o publico não entra..Pois os cabos de energia que teriam que conduzi-la nas dependencias já não estão lá a mais de um ano…Os commpressores usados também já não estão mais lá…Tudo isso some como que por encanto.. A pista recebeu depois de vários anos alguns remendos.. A drenagem mais uma vez não funcionou..Do jeito que foi feita nunca funcionou…Então se chega a conclusão de que o nosso querido templo só ganha um banho e roupa de gala alugada, depois da festa tem que devolver..Só que a grana é equivalente a compra de grife e moda de cinema americano…Esse é o presente que a prefeitura entre ano e sai ano, ou melhor entra politico e sai politico deixq para a posteridade..Agora com um emprendimento particular ou arrendado de carater sério, daqueles que visa o lucroe a fidelidade do cliente, a cada ano uma novs reforma decente junto com um atrativopara o público certamente as coisa seriam diferentes…Traçado a gente tem, o problema de pista é que com todas essas maquiagens, o templo foi perdendo a visão para quem está nas arquibancadas… Das fixas e das provisórias…Um projeto sério já teria demolido todos os puxadinhosfeitos, aplainado boa parte dos aterrosque inventaram por lá. devolveriam a antiga arena que tinhamos quando dos mais de 7 mil metros de quase 90% de visual…Um kart indor mais atrativo..Alguns edificios garagens lá atrás do lago.E onde é o padock da globo um shopping envidraçado com ótima visão da pista.. A torre poderia ser neste prédio.. Os boxes e tudo o que se precisa entre boxes deveria ser mesmo onde querem fazer só que do lado de fora da pista, não do lado de dentro, prevalecendo a visão do publico…Arquibancadas como as da petrobrás construidas desde a cincane indo até final da reta oposta, sempre pelo lado de fora…Áreas de escape, zebras e lavadeiras, mais drenagem como as dos circuitos novos.. Baixas e amplas.. Para receber até motos…Onde temos esses guard rails baixos e o tal muro moedor de carne colocar essas proteções novas extremamente absorventes de impactos…Liberar de vez a perimetral para o público independente de eventos de porte. Criar na florestinha e na parte posterior ao estacionamento do sol. parques para receber público como áreas de lazer.. ETC… Tem muita coisa pra fazer. coisas que geram dinheiro todo dia..E com o tempo as reformas pedidas pela FIA iriam diminuir no exato tamanho da evolução tecnologica das máquinas….MAs é um sonho quase que impossível de ser realizado pelo menos a curto prazo…

  3. Não há dúvidas quanto a essa coclusão, vide o autódromo de Jacarépagua. Meu palpite é que o empreendimento mais provável seja um shopping center. Há “poucos” deles em São Paulo.

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