
(Por Américo Teixeira Jr.) Recentemente, não me lembro por qual motivo, tentei me lembrar quando eu havia estado pela primeira vez em Interlagos. Confesso que não encontrei a resposta definitiva. Mas estou quase certo que foi em 1979 e numa prova da então iniciante Stock Car. A referência mais nítida que me vem à memória foi ter conseguido um autógrafo de Affonso Giaffone, que admirava como piloto e, mais a seguir, quando o conheci mais de perto, passei a admirar mais ainda o cidadão, sentimento que perdura até hoje.
Mas se esse primeiro dia foi na condição de torcedor, logo em seguida passei a freqüentá-lo como jornalista. Sim, pois comecei no jornalismo de automobilismo em 1981, escrevendo para jornais pequenos na região do ABC, em São Paulo. Nunca quis ser piloto. Acho que não sou capaz de conduzir carros em alta velocidade, tanto que Helio Castroneves, meu queridíssimo amigo e novamente assessorado, define a minha tocada como “estilo Mister Maggo, devagar, mas chega!”.

Mesmo sem ter as pretensões de ser um piloto profissional, sempre tive a curiosidade de conhecer os traçados e, de preferência, dirigindo – eu disse dirigindo, não pilotando – um veículo de competição. Já tive algumas oportunidades, mas o assunto aqui é outro. Quero, na verdade, contar que foi em Interlagos onde, primeira vez, adentrei num circuito de corrida.
Creio que foi em 1986. Não vou incomodar o grande pesquisador e jornalista Paulo Lava, que certamente tem essas informações, mas foi por essa época. Iniciava minhas colaborações com a revista Auto Esporte, editada na época por Roberto Ferreira e Marcus Zamponi, e lá fui eu a Interlagos mostrar como se desenrolavam as atividades de uma escola de pilotagem.
O saudoso e querido Expedito Marazzi, jornalista dos melhores e dono da escola de pilotagem Marazzi, estava lá ministrando sua aula teórica e prática e eu, atento, anotava tudo e tentava me inteirar dos detalhes. Final de tarde, aula encerrada, Marazzi me convidou para conhecer a pista. Com ele ao volante de um Chevrolet Opala de duas portas, fui apresentado ao circuito de 7.960 metros de Interlagos.

Com o carro avançando, Marazzi me falava sobre a forma de percorrer o trecho, técnicas de frenagem, tangência de curva, engate de marchas e outros informes importantes que eram dados durante a aula. E lá fui eu no mesmo chão desbravado por Chico Landi, Bird Clemente, Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace e tantos outros.
Depois das intermináveis curvas 1 e 2 (que hoje são usadas como áreas de escape e de serviço, à direita do Esse do Senna), o Retão parecia não ter fim em direção a curva 3. Vale destacar que todo esse trecho recebe hoje as arquibancadas tubulares da Fórmula 1 no setor G.
Lá na frente, depois de uma pequena reta, o raio impressionantemente aberto da Ferradura. Na Subida do Lago, que hoje é descida, antecedia a Reta Oposta – a mesma que hoje é feita na contramão – e duas curvas que os antigos costumavam dizer que diferenciavam os homens dos meninos.

Saindo da Reta Oposta, com seu raio irregular à direita, surgia a Curva do Sol e, na seqüência, a do Sargento. Tudo isso hoje é estacionamento, atrás da área administrativa. Quando você entre em Interlagos pelo portão que dá acesso ao túnel e se dirige ao setor de estacionamento de equipes, pilotos e serviços, contornando todo o setor de estacionamento do portão dos boxes, aquela pista de rodagem que você usa é justamente esse trecho.
Vai-se à esquerda do portão interno, estacionará na Curva de Sargento. Ao contrário, usado pela maioria por conta da proximidade das escadarias metálicas azuis, que dão acesso ao paddock, lá está a Curva do Sul. Depois disso, o “passado” esquecido se encontra com o “presente” circuito e o restante todos conhecem.
Tudo isso, naquela tarde de 1986, acho, foi-me apresentado por Expedito Marazzi. Antes de seu falecimento, vi-o várias vezes e relembrava essa passagem. Depois, a mesma forma gentil e conhecedora do universo do automóvel se manifestava por seu filho, o jornalista Gabriel Marazzi, com quem tive a alegria de conviver na editora Motorpress, na minha época de editor de Racing e, ele, da Motociclismo.
Portanto, nesse dia em que Interlagos comemora 70 anos, marco histórico do nosso esporte e verdadeiro Templo do automobilismo, deixo aqui esse simples testemunho de amor pelo Autódromo Municipal José Carlos Pace e para desejar VIDA LONGA A INTERLAGOS.
Se pudessemos sentar um dia e contarmos todas as histórias vividas em Interlagos, acho que certamente um dia inteiro não seria suficiente.
Iniciei a minha convivência com o autódromo como colaborador em 1978 como sinalizador na curva da ferradura, um pouco antes do GP Brasil de F1 que naquele ano foi realizado no Rio.
Estive hoje pela manhã na oficina do meu amigo Juan Samos, “Gato” para os íntimos e lembramos de diversas histórias da época dos Opala Classe C, que ele e Camilo Cristófaro preparavam para as provas regionais da época.
De poder ver Nelson Piquet no seu inicio na fórmula 1, Emerson Fittipaldi em plena forma, Rubens Barrichello desde pequenino.
Dentro dos meus 51 anos de idade, não consigo ficar sem encher os olhos de lágrimas, quando me recordo disso tudo.
Abraços.