Num cenário de “pós-guerra” e economia em frangalhos, o grande desafio da categoria no Day After será voltar ao mundo real

Por Américo Teixeira Junior

É justamente o seu gigantismo que retarda a volta da Fórmula 1 – Foto LAT Images/ Mercedes F1 (Montreal, Canadá – 09.06.2019)

Não é o caso de ser otimista ou pessimista, mas realista. Não existem condições de sequer pensar em Fórmula 1 em 2020. E não é apenas uma opinião, tampouco impressão, mas certeza diante de um quadro jamais imaginado. Obviamente que seria fantástico se o campeonato pudesse ser realizado – esse e todos os outros – da forma como foi planejado, mas o mundo real tem dessas coisas.

A geração atual está testemunhando o encerramento de um ciclo da humanidade e início de outro. Rupturas históricas, como a Segunda Guerra Mundial, alteram totalmente os padrões até então conhecidos e mergulham a sociedade em outra fase totalmente desconhecida. Se boa ou má, isso é outra conversa. Por isso mesmo, sombria.

A diferença neste Século XXI é que o “pós-guerra” não será convencional, longe da tarefa de reerguer regiões inteiras destruídas por bombas de inimigos conhecidos. Nesse caso, nem o inimigo enxergamos ou conhecemos direito. No mais, será igualmente um tempo para “juntar os cacos” em todas as estruturas, sejam elas mentais, sentimentais, físicas, institucionais, econômicas, humanitárias e civilizatórias.

Cadê a bolha? A bolha estourou!

É injusto ignorar a importância e o interesse que o automobilismo desperta no mundo. É um esporte emocionante e, a depender da realidade de cada país, gera empregos, desenvolve tecnologia, movimenta a indústria e participa da balança comercial com exportação de produtos e serviços. Entretanto, não haverá espaço na agenda mundial para a Fórmula 1, justamente por ter alcançado proporções inimagináveis enquanto esporte e negócios.

Quando a pessoa tem de pagar a fatura do cartão no valor de R$ 500, os esforços são diferentes dos exigidos se a conta for de R$ 5 mil. Levando esse mesmo raciocínio para a diretoria de marketing de uma multinacional, num momento de crise mundial e queda acelerada dos negócios, eliminar um investimento de US$ 5 milhões terá muito mais efetivo na tarefa de cortar gastos do que outro de US$ 500 mil. Essa obviedade só reforça a percepção da inviabilidade da Fórmula 1 nesse momento.

Segundo dados da revista Forbes, destrinchados pelo site ingles RaceFans.Net*, foi de US$ 2,35 bilhões [R$ 12,36 bilhões] o orçamento de 2019, na somatória das 10 equipes participantes. De outro lado, no âmbito da Liberty Media, há outra movimentação astronômica que envolve taxas cobradas dos países incluídos nos calendário, direito de transmissão e áreas de hospitalidade em todos as provas. Tudo isso somado, segundo o jornalista Lito Cavalcanti em sua coluna no UOL, com dados de o The Telegraph, resulta em algo como US$ 1,37 bilhões [R$ 7,21 bilhões].

Esse total de aproximadamente R$ 20 bilhões é o equivalente aos orçamentos somados do Ministério de Ciência e Tecnologia [R$ 11,08 bilhões] e do Ministério de Infraestrutura [R$ 7,77 bilhões] em 2020.

A “bolha” na qual a Fórmula 1 viveu as últimas décadas, simplesmente “estourou” com a pandemia do coronavírus. Não existe mais aquela Fórmula 1 que vimos fechar o Mundial de 2019 em Abu Dhabi ou na pré-temporada em Montmeló, na Catalunya. Se 2021 reunir condições para a volta das corridas, conheceremos a nova Fórmula 1, resultado de sua “expulsão” do “mundo paralelo” e imersão no mundo real.

Capa/Destaque: LAT Images/Mercedes F1 (Abu Dhabi,Emirados Árabes Unidos-01.12.2019)

* https://www.racefans.net/2019/12/27/the-cost-of-f1-2019-team-budgets-analysed-part-one/ + https://www.racefans.net/2020/01/02/the-cost-of-f1-2019-part-two-what-the-top-teams-spent/

2 COMENTÁRIOS

  1. “Um estado grande demais acaba, por fim, decadente”. Simon Bolívar (1783 – 1830).
    É fácil adaptar a frase para essa Fórmula 1 que há muito tempo teimava em viver à margem da realidade.
    Então, sim, você está certo. Penso da mesma forma. A F1 que vimos até Abu Dhabi não existe mais.
    Vou mais longe. O estrago que esse vírus causou e, infelizmente, ainda vai causar na economia de todos os países do mundo, talvez inviabilize até corridas do campeonato de 2021.
    Até que tudo volte à normalidade, as prioridades serão outras. E é justo que seja assim.

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