O ex-piloto e construtor Luiz Valente, de 99 anos, faleceu na quinta-feira, 4, em São Paulo. Entrevistado pelo pesquisador Paulo Roberto Peralta, foi alvo de homenagens na edição nº 2 da Revista da FASP, em novembro do ano passado. Paulistano nascido em 16 de outubro de 1910, foi um dos remanescentes do tempo das Carreteras e dos carros Mecânica Nacional. Sua trajetória começou em 1948, com os chamados “adaptados de corrida”, e perdurou até 1961, quando deixou as pistas aos 51 anos.

Mas essa ausência foi momentânea, pois retornou em 1963, quando comprou dois carros. Um deles foi uma Alfa Corvette, de Justino de Maio, e o outro uma carretera Ford 34, adquirido de um mecânico que a estava preparando e desistiu. Neste chassi, instalou um motor Ford F-600. Com esses veículos poder correr por mais um tempo, sozinho ou em dupla com seu filho. A parada definitiva ocorreu em 1966, aos 56 anos. No depoimento, Valente contou algumas passagens de sua carreira:

Paixão de criança

Puxa! Adoro corrida de automóvel! Eu acho que já nasci encima de um automóvel. Com 16 anos já dirigia. Tenho carta de motorista há mais de 80 anos! A primeira corrida que assisti foi aquela na Avenida Brasil (GP Cidade de São Paulo, 1936), aí meu gosto por corridas ficou muito forte, eu não perdia uma. Quando ainda não era corredor, vivia no ambiente de corridas, me enturmando”.

A estréia

Minha estréia para valer foi em 1948, com um carro que eu mesmo fabriquei. Na verdade, eu e os meus colegas lá de onde eu trabalhava, a Duchen. Era um adaptado de corrida, mas com uma carroceria própria que eu fiz. A primeira corrida foi em Campinas (SP). Eu era federado, tinha a ‘caderneta’ de condutor, naquela época o automobilismo não era muito comentado. Nos anos 50, as corridas eram bastante disputadas, mas o automobilismo não era muito bem organizado. Em 1957 quando o Ângelo Juliano assumiu, as coisas melhoraram muito. Ele era o ‘Mosquito Elétrico’, organizava e acompanhava tudo. Tudo tinha que sair certo”.

Os carros

De carretera eu só corria a Mil Milhas. Participei de sete delas. As de 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1961 e 1965. Usava o meu carro de passeio, um Ford Coupé 1938, motor V8 (8BA), eu transformava só para a Mil Milhas. Era todo envenenado. Bom, ele era ruim de freio, mas eu gostava do carro. Naquela época eu era moço, não tinha temor de nada. O 38 tinha freio mecânico, que eu modifiquei para hidráulico, ficou mais ou menos. Gostava mais de correr com Mecânica Nacional, os “charutinhos”, os verdadeiros carros de corrida, eu gostava muito da velocidade (Em 1950, construiu seu Mecânica Nacional definitivo, não mais um ‘adaptado de corrida’, mas continuou fiel à mecânica Ford com o ‘Duchen Especial 22’ com o qual correu até a prova 500Km de 1960. Depois, vendeu-o para Antonio Carlos Aguiar)”.

Os custos

A firma onde eu trabalhava me ajudava, eles gostavam de automobilismo. Eu fazia tudo lá, construía, preparava e reparava. Eles me patrocinavam também, eu fazia propaganda dos ‘Biscoitos Duchen’ e eles me pagavam. Cada corrida eu ganhava um pouco, independentemente do que eu recebesse nas corridas. Os prêmios eram meus”.

Emoção e despedida

Chegar em 2º lugar na primeira prova 500 Km foi uma grande emoção. Não era fácil, era muito esforço, já pensou? Eu parei de correr definitivamente em 1966, com 56 anos. Depois disso, fui pouco a Interlagos”.

(Saiba mais sobre a carreira de Luiz Valente no site Bandeira Quadriculada, de Paulo Roberto Peralta)

3 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde
    Fomos vizinhos durante mais de 60 anos do nosso querido e excelente piloto que foi o Luiz Valente, na rua Apinages no bairro das Perdizes.
    Fomos muitas vezes em Interlagos assistir às saudosas mil milhas.
    Luiz Valente e sua querida esposa Amélia gratidão sempre.
    Voce está e sempre ficará nos nossos corações.
    Luiz Cláudio Mesquita Lima e Agostina Rosa Pavesi.

  2. Sou aficcionado por automobilismo. Desde jovem, juntamente com o meu amigo Waldomiro Pieski (Pietrinski), da concessionária Pieski e Cia. Ltda., freqüentava o Autódromo de Interlagos. Ele corria com uma Fissore de fibra de vidro com o apelido de ‘taxi’ por causa da luz vermelha em cima do teto, nas 24 horas de Interlagos.
    Posteriormente, prestei vestibular e cursei a única faculdade da América Latina em mecânica automobilística: FEI, onde fui diretor do Centro Acadêmico de Mecânica Automobilística, e tinha a equipe de bandeirinhas e fiscal de box, trabalhando para a Federação Paulista de Automobilísmo, por mais de 8,5 anos.
    Acompanhei de perto toda a carreira do piloto Emerson Fittipaldi (e seu irmão Wilsinho). Naquela época já conhecia os jornalista Luiz Carlos Secco e Reginaldo Leme (na época, seu assistente no Estadão). Todo o início de carreira na Inglaterra, sua passagem por todas as mais famosas escuderias, até a criação da Copersucar Fittipaldi, onde tive o prazer de conduzir a infra-estrutura nos testes, com o seu chefe de equipe, Sr. Jo Ramirez, o Ricardo Divila, e o mecânico japonês Ito.
    Acompanhei praticamente de todas as provas de carretera do Camilo, divisão 3, Formula Ford, Stock Cars (início), os ‘fuscas’ envenenados, o projeto do Fitti Vê, a primeira corrida de motocross na curva do Sol, os dragsters, os Maverick’s, e muito mais…
    Fundei a Estaleiros Tecnomarine para o piloto Luiz Alberto Pereira (Stock Cars) e Marcinho Lattorre Christiansen (ex-Estal. MacLaren, depois Spirit, Ferretti, etc.), onde construí a primeira off shore de 53 pés para os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi.
    Trabalhei na Federação Paulista de Automobilismo por mais de 8,5 anos, inclusive a equipe do Kartódromo de Interlagos, onde ví as intermináveis disputas entre o Ayrton Senna e Valtinho Travaglini, sempre se revesando entre 1o. e 2o. lugares: somente o Ayrton prosseguiu a carreira internacional, na Fórmula 1.
    Todas as corridas de F1, do final da década de 70 até a ex-prefeita Erundina, eu trabalhei para a FOCA, do Bernie Eclestone, na ACP da Av. Brasil com a 9 de Julho.
    Tive o privilégio de ter um box (de apoio) entre os boxes da Mac Laren e a Tyrrel, ficando ao lado do piloto Clay Regazzoni e o único F1 de 6 rodas…
    Cheguei a participar de rallyes, fui parar na África, como director do S-Team da Toyota Tsusho. Regressei recentemente, mas fica na memória o Grande Waldomiro. No final do ano passado (Dezembro/2012), uma das filhas dele me contactou, e me disse que ele havia falecido em 13/12/2003 de linfoma não hodkins. Confesso, fiquei muito surpreso e triste.

  3. Eu corri as 1000 Milhas de 1965 junto com o Paulo Oliveira Costa ( Pardal ) Foi minha 1a Mil Milhas ) me recordo muito bem do Luiz Valente,..abaixo o rsultado oficial.. Meu Renault Teimoso quebrou faltando 4 horas para terminar a prova, mas mesmo assim nos classificamos em 19o lugar…Eu tinha 23 anos e o Luiz Valente 55a
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    SÉTIMA EDIÇÃO 1965 (27 e 28 de novembro)

    Grid: 38 carros – Duração: 14h59min26s4

    1º Carretera Chevrolet Corvette nº 50 Justino de Maio e Vitório Azalin Filho SP – 201 voltas
    2º Carretera Chevrolet Corvette nº 34 Caetano Damiani e Bica Votnamis SP – 199 voltas
    3º FNM 2000 nº 5 Leonardo Campana e Jaime Pistili SP – 185 voltas
    4º Simca Carretera nº 35 Breno Fornari, Nestor Mário Koch e Afonso Hoch RS – 184 voltas
    5º Alfa Giulia 1600 nº 25 Emílio Zambello e Marivaldo Fernandes SP – 182 voltas
    6º Renault 1093 – 1000CC nº 75 Fernando Pereira e Hélio Mazza RJ – 180 voltas
    7º VW 1300 nº 45 Armando Lagoeiro e Abelardo Aguiar RJ – 178 voltas
    8º DKW 1000 nº 19 Charles Marzanasco e Ozório Araújo SP – 177 voltas
    9º Renault 1000 nº 99 Luiz Felinto Silva, Adão Brito Daher e Eduardo Celidônio SP – 177 voltas
    10º Carretera Ford F600 nº 22 Luiz Valente e Luiz Carlos Valente SP – 174 voltas
    11º Renault 1000 nº 27 Coruja (Maurício Chulam) e Luiz Felipe Gama Cruz RJ – 173 voltas
    12º Simca 2500 nº 87 Edward Nahum, Claude Bernardi e Zoroastro Avon SP – 172 voltas
    13º Renault 1000 nº 85 Clóvis E. Pereira Bueno e João Batista Caldeira SP – 172 voltas
    14º DKW 1000 nº 32 Waldomiro Pieski e Expedito Marazzi SP – 170 voltas
    15º Carretera Ford nº 61 Arlindo Vigineviski e José Vera Filho PR – 167 voltas
    16º Alfa Giulia 1600 nº 23 Piero Gancia e Ruggero Peruzzo SP – 159 voltas
    17º VW nº 9 Silvano Pozzi e Marcelo Audrá SP – 157 voltas
    18º Carretera Chevrolet Corvette nº 6 Francisco Zeni e Haroldo Vaz Lobo PR – 155 voltas
    19º Renault 850 nº 40 Luiz Evandro Águia e Paulo Pardal SP – 149 voltas
    20º FNM 2000 nº 39 Ugo Galina e Luciano Borghese SP – 149 voltas
    21º Fiat Stanguelini nº 30 Luciano Bonini e Chuvisco SP – 145 voltas
    22º DKW 1000 nº 37 Arquimedes e Santo SP – 143 voltas
    23º Renault 1000 nº 8 Antonio Duarte e Mago SP – 142 voltas
    24º Carretera DKW nº 20 Nilo Barros Vinhais e Bruno Barracano SP – 139 voltas
    25º Carretera DKW nº 13 Volante 13 e Roberto Mendonça SP – 123 voltas
    26º Carretera Ford Thunderbird nº 7 Ayres Bueno Vidal e Zé Peixinho SP – 123 voltas
    27º Chevrolet Corvette nº 2 Catharino Andreatta e Victorio Andreatta RS – 120 voltas
    28º Alfa Giulietta 1600 nº 28 Luiz Carlos Sansone e Ariberto Iasi SP – 112 voltas
    29º Carretera Ford F600 nº 36 Ocimar Miranda Coutinho e Mário Cocchieri PR – 106 voltas
    30º Carretera Simca nº 82 Roberto Gomes e Rui Santiago SP – 106 voltas
    31º Simca 2500 nº 51 Inácio Terrana e T. Nuvuolari – 96 voltas
    32º Renault Gordini 1000 nº 88 Zoroastro Avon e Jeff Gagá SP – 75 voltas
    33º Carretera Chevrolet Corvette nº 18 Camilo Christófaro e Antonio Carlos Aguiar SP – 73 voltas
    34º Renault 1000 nº 3 Elvio Ringel SP – 59 voltas
    35º Renault 1000 nº 84 Antonio Carlos Porto Filho e Renato Lenci SP – 48 voltas
    36º Renault 1000 nº 16 Emerson Fittipaldi e Antônio Versa – 39 voltas
    37º VW Porsche 1600 nº 81 Buby Loureiro e Roberto O. Costa SP – 34 voltas
    38º Carretera Chevrolet Corvette nº 58 Antonio Carlos Avalone e Nicolau Papaleo SP – 32 voltas

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