
Por Americo Teixeira Jr. – Quando eu vejo a Pirelli na Fórmula 1, gosto de pensar que existe uma ínfima, pouquíssimo provável e a quase verdadeiramewnte inexistente possibilidade de ter um dedinho meu ali. Obviamente que há um exagero descomunal nisso, uma inverdade até, mas eu também tive uma história com a Pirelli. Uma historiazinha, mas tive.
Desde moleque eu já sabia que queria ser jornalista. E quando digo “moleque” estou falando em algo em torno dos 10 ou 11 anos de idade. Agora, eu me pergunto: o que um garoto de 10 anos tem na cabeça? Sei lá, fato é que na minha essa ideia era forte o bastante para se tornar realidade anos depois – carreira que perdura até hoje, aos 53.
Minha mãe, querida e saudosa D. Marinalva, queria que eu fosse engenheiro. Vivia falando isso e já me peguei pensando se ela tinha razão ou não. Desconfio que ela tinha razão, aliás, mãe sempre tem razão. D. Marinalva era amorosa e sábia. Pena que foi embora cedo. Talvez sua sabedoria me fizesse ter evitado algumas besteiras que fiz. Talvez não, pois provavelmente eu não teria dado ouvidos a essas outras questões, da mesma forma que não os dei no papo da engenharia.
Só sei que quando eu terminei a 8ª série, lá no Sesi da Vila Palmares, em São Caetano do Sul, eu tinha na cabeça que precisava fazer um colegial técnico para ter como me sustentar na faculdade de jornalismo. Sim, era preciso. Apesar de Seu Americo e D. Marinalva terem dado tudo e muito além do que podiam para os filhos, não tinham como sustentar a mim e meus irmãos Vladimir, Ronaldo e Rosinha na faculdade.
Aí fiz um vestibular e passei numa escola técnica chamada Jorge Street, localizada em São Caetano do Sul também. Se eu já havia escolhido jornalismo por causa do automobilismo, fiz o mesmo na escola ao escolher o curso de Mecânica.

Foi um caos. Matérias terríveis, Exatas pura, não entendia nada e me descabelava com aquilo tudo. Era verdadeiramente um porre. Mas eis que ao final de quatro anos – repeti um – chegou a hora de fazer estágio. Calma, a história da Pirelli está chegando.
Pirelli tem a ver com corridas, pensei. Então, fui lá, cadidatei-me e passei para um estágio na fábrica de Santo André. Não sei exatamente por quais caminhos, mas fui parar numa área de testes de pneus e, pasmem, justamente num momento em que o pneu Corsa P Zero, de corrida, começava a ser feito no Brasil.
Eram dois os estagiários para aquele setor, eu e um rapaz que tinha cara, comportamento e habilidades de engenheiro. Eu, cara, comportamento e habilidades de moleque. Seu nome era Valmir. Lembro que ele tinha um Corcel II e de vez em quando me dava carona. Havia em senhor chamado Darcy. Ele era também ator de teatro e tínhamos altos papos. Havia também os técnicos que acompanhavam os desgastes dos pneus das grandes frotas usuárias da marca. Mas como fui parar nas mãos de duas figuras notáveis e inesquecíveis, tive naquele departamento da Pirelli de Santo André algumas oportunidades que me são caras até hoje.
O gerente da área era um engenheiro chamado Marco Antonio Ramos Nunes de Souza e o meu chefe direto era o engenheiro Roberto Galafassi. Marco Antonio era um executivo muito dinâmico. Roberto era um jovem que entendia tudo e um pouco mais de automobilismo. Piloto, chegou a ter uma equipe de Fórmula 3 na época que o Antonio de Souza Filho era o promotor da categoria. Ambos, Marco Antonio e Roberto, formavam uma dupla de competência e carisma exemplares. E eram muito, muito pacientes com o estagiário que caiu nas mãos deles.
Não estou bem certo, mas isso aconteceu em 1980 ou 1981. Uma das coisas que eu tinha de fazer era gráficos de desgaste de pneus. Mas para um cara ligado nos 220 como eu, que só pensava 24 horas por dia em corridas de automóveis, aquilo era um saco. Só que Marco Antonio e Roberto tinham a sensibilidade de entender que aquele estagiário queria fazer mais e, bondosos, em lugar de deixar o moleque enfurnado no escritório fazendo gráficos, permitiram que ele participasse de coisas que talvez nem estivessem na descrição de cargo.
A sala do Marco Antonio era outra, mas a minha mesa era colada à do Roberto e o cara tinha de ter uma paciência tamanho de um bonde porque eu falava o tempo todo de corrida e perguntava, perguntava e perguntava. O coitado – fazer o que, né? – respondia, respondia e respondia.

Uma das coisas que o engenheiro Roberto Galafassi fazia era testar pneus de carro de rua. Quando a fábrica estava para lançar um pneu novo, o departamento do qual fazia parte recebia alguns lotes para testes e evolução. E lá ia o Roberto judiar do pneu de tudo quanto era jeito, colhia dados e o bonitão aqui fazia uns relatórios coloridos – era tudo a mão; não tinha computador disponível – que iam para a área de desenvolvimento, acho.
Imaginem se o estagiário não queria ir junto testar pneus? Claro, óbvio. Como também era claro, óbvio, que não podia. Só que eu não sei se enchi o saco até as raias do insuportável ou se eles liam nos meus olhos a vontade de participar. Independentemente do motivo, eles permitiram que eu fosse algumas vezes.
Hoje a Pirelli tem uma fantástica pista de testes em Sumaré, perto de Campinas. Até já estive lá fazendo uma matéria uma vez. Só que naquele limiar dos anos 80, a pista de testes era a rua mesmo. Responsável, Roberto se dirigia até uma estradinha que leva a um lugar histórico chamado Paranapiacaba. Se havia algum movimento nos fins de semana por causa do apelo turístico da região, durante a semana era um deserto. Ou quase.
Então, era mais ou menos assim. Eu ficava no banco do passageiro com uma prancheta na mão anotando os dados que o Roberto me passava enquanto cumpria sua programação de testes. Por “programação de testes” entenda-se cavalo de pau, rodadas, freadas bruscas, fortes acelerações, travamento de rodas, manobras em pista molhada, saltos sobre elevações e outras mais.
Se bem me lembro, eu até que fazia uns gráficos bonitinhos dessas atividades, com exceção da primeira vez que eu, de tão deslumbrado com a experiência, esqueci de anotar – ou anotei tudo errado, não lembro – e dados que era bom – pelo menos parte deles – não teve.
Quem frequenta autódromo já viu a equipe da Pirelli trabalhando nas pistas montando pneus. Pois é, fiz amizade com aquela turma e aproveitava para ir em algumas corridas. A principal delas: Mil Milhas.
Esse clima de corrida foi ficando forte porque a fábrica no Brasil começou a fazer o Pirelli P Zero de corridas e, claro, os testes eram feitos pelo meu departamento e, óbvio, alguém tinha de fazer o gráficos. Como nos testes de pneus de rua, eu também não me contentava em ficar sentadinho esperando os dados chegarem. Eu queria ir a campo. E lá ia eu, com a turma toda nos FIAT 147 de frota, para Interlagos. Foi a primeira vez na vida que eu vi um carro de Fórmula 2 (que depois deu origem à Fórmula 3 Sul-americana) de perto e conheci o piloto Alfredo Guaraná Menezes.
Guaraná é um desses nomes com lugar cativo na história do automobilismo brasileiro e no meu coração. Tanto que uma das minhas metas profissionais é terminar o livro sobre ele que já comecei a escrever há tempos.

Eu só tenho lembranças boas daquele estágio. É certo que o chefão do lugar era um italiano chamado Carlo Bernardini. Ele vivia aos berros. Na minha ótica da época, era um super – mas bota super nisso – mal educado, grosso. Lembro que uma vez o engenheiro Marco Antonio, esse sim um lorde, disse-me que era o jeito dele. Não lembro se falei ou se só pensei, mas de qualquer forma a minha reação foi: “Manda ele pegar esse jeito e enfiar no …”.
Tempos depois, já como jornalista, ouvi muita coisa boa do Bernardini. Passei, então, a considerar firmemente que talvez aquela visão dos meus tempos de moleque fosse errada.
O estágio acabou e eu não fui efetivado. O Brasil vivia ainda sob o governo militar e sob a presidência do General João Batista de Oliveira Figueiredo. A economia não ia bem e o Brasil lutava pela redemocratização. Aliás, bom tema para essa gente que anda pedindo a volta dos governos militares. Ou essa gente se locupleta ou não faz a menor, mas tênue ideia da bobagem que está pregando.
Bom, como disse, o estágio acabou e as lembranças que ficaram foram as melhores. Acho que a vida da gente é medida pela quantidade de lembranças felizes que se guarda no coração. O coração é aquela gaveta que vez ou outra devemos abrir, principalmente quando os desafios e os sufocos são imensos, para perceber que, se há muitas boas lembranças, está valendo a pena.
E quando abro essa gaveta lá estão os engenheiros Marco Antonio Ramos Nunes de Souza e Roberto Galafassi. Ambos fizeram parte de uma fase importante na minha vida. Não pelo estágio em si, mas pela maneira bondosa de receber um jovem imaturo, cheio de sonhos e ilusões. Por permitir que eu vivenciasse experiências que ajudaram muito na minha formação para eu me tornar o jornalista que sou hoje. Marco Antonio faleceu num acidente no Rio de Janeiro em 1994. Roberto Galafassi, revi-o no facebook recentemente. Aos dois, muito obrigado!
PS: Tenho ou não tenho um dedinho nessa história toda?

Américo, sou de Santo André e moro atualmente em Blumenau-SC, mas nos mesmos anos que você citou, 80 e 81, eu trabalhei na indústria vizinha da Pirelli, a Firestone onde eu fazia testes de pneus com veículos Opala e Corcel II na Rodovia Castelo Branco rodando 600 Km. por dia, sendo uma semana durante o dia e outra durante a noite. Ìamos, eramos seis pilotos em dois turnos, de Santo André até o trevo de Avaré, pois era até alí que a rodovia era pavimentada, todos os dias, sendo que os automóveis rodavam 1.200 km. diários! Realmente aqueles tempos eram tempos de “ouro” no trabalho e no automobilismo nacional! Fiz também testes para a Ford e para a Fiat no autódromo de Interlagos, quando ainda existia o retão, a ferradura, etc. Gostei de ver sua história, parabéns pela narrativa, sucesso!
Boa estoria, mas…
Essa de voce ter um dedinho no desenvolvimento nos pneus eh coisa de falta de modestia de sua parte! Pelo Amor….
A Pirelli na Europa, como eh sabido, tem um campo de desenvolvimento que esta anos luz a frente da fabrica tupiniquim.
Os engenheiros que sao de primeira linha e vivem a desenvolver projetos para as pistas no resto do mundo, diga-se Europa e America do Norte, portanto POUCO ou NADA usam de dados que o Brasil possa fornecer, para as pistas e talvez, eu disse talvez, usar nas ruas.
Outra coisa…
O seu segmento de jornalismo eh o automobilismo, portanto qualquer comentario aqui sobre militares ou possivies regimes politicos que voce apoie ou nao, PROFISSIONALMENTE, nao devem ser tratados em quaisquer topicos dentro do automobilismo.
Sobre isso o que devo dizer eh que, VOCE NAO DEVE postar qualquer opiniao do que eh melhor ou pior para o pais e o povo. O POVO DEVE DECIDIR, NUNCA UM JORNALISTA A DECIDIR POR ELE. EU DIRIA AINDA QUE ISSO EH FALTA DE PROFISSIONALISMO!
A FUNCAO DE UM JORNALISTA PROFISSIONAL EH EXPOR OS FATOS RELATANDO-OS E NUNCA FAZER COM QUE O POVO ASSUMA AS SUAS IDEIAS COMO VERDADES ABSOLUTAS OU CAMINHOS QUE O POVO DEVA SEGUIR! AGIR ASSIM SERIA COMO “TRAIR” O JURAMENTO QUE VOCE FEZ QUANDO RECEBEU O SEU DIPLOMA!
TOTALMENTE REPROVAVEL SEU COMENTARIO SOBRE REGIME POLITICO OU MODELO A SER SEGUIDO DE ACORDO COM A SUA OPINIAO!
REFLITA SOBRE ISSO…SE VOCE TIVER HUMILDADE PARA FAZE-LO!
Eu, morador de Santo André que sou, e tendo estudado exatamente nas mesmas escolas, ne identifiquei com a história. Além de ter uma tia que igualmente estagiou na Pirelli. Boas lembranças..