Por Americo Teixeira Jr. – O título acima é da minha coluna publicada na edição 30 da revista eletrônica Warm Up. Escrita antes do anúncio da segunda aposentadoria do heptacampeão Michael Schumacher, o texto mostra que o piloto alemão foi, de fato, um dos melhores de sua época, mas que seus dados estatísticos atingiram as máximas registradas de forma circunstancial, não totalmente baseados nos seus méritos, que claramente não inegáveis. Leia abaixo a coluna na íntegra:
Michael Schumacher não é tudo isso
O que Michael Schumacher está pensando da vida, desenhando uma fracassada segunda fase na Fórmula 1 ao volante dos carros da Mercedes, isso é problemas dele. Nem sempre a “matemática” da vida é igual à dos números e, portanto, se o piloto alemão de 43 anos está feliz, curtindo, sem pressão, enfim, sentindo-se bem, ponto para ele e viva a felicidade. Cada um sabe dos seus objetivos, compromissos ou mesmo de suas necessidades mais íntimas. De todo modo, essa nova fase tem o lado bom de, em primeiro lugar, permitir que a nova geração possa ver, na pista, um dos grandes pilotos da história da Fórmula 1. Mais velho e sem as ferramentas de então, mesmo assim é o mesmo Schumacher veloz, competitivo, inteligente e, por que não dizer, “pouco cavalheiro” em alguns momentos. Tem igualmente o importantíssimo papel de desmistificar um pouco aquela aura “invencível”, “semideus”, o “destruidor de quase todos os recordes”. Numa frase, Schumacher é como eu e você, Leitor, um cara que peida, arrota e enfia o dedo no nariz. Mais do que isso, teve parte do seu “império” construído ao sabor das circunstâncias e com algumas atitudes nada dignas de um herói.
Tem gente que considera o piloto como um “ser de outro planeta”, acima do bem e do mal, intocável, perfeito. Nada disso. Talvez não seja elegante dizer isso, mas se deve partir do pressuposto que todo piloto é babaca. É preferível você considerar todo mundo normal e ficar muitíssimo bem impressionado com figuras notáveis do esporte do que fazer o contrário e achar que todo mundo é “deus”. Aí, sim, a chance de ficar decepcionado com muitos é muito grande. Essa idéia de elevar ao Olimpo todo cidadão que coloca um capacete na cabeça e acelera um carro de corrida é super equivocada, não permitindo que se vejam as qualidades reais de uma criatura falha e reticente, que também no âmbito glamoroso do automobilismo – e da Fórmula 1, em particular – apronta das suas.
Se não agora, certamente em sua fase primeira, foi um privilégio para toda uma geração poder ver Schumacher nas pistas em seu mais alto grau de competitividade. Rico, famoso onde a Fórmula 1 tem influência e com milhões de fãs no mundo todo, poderia ter ficado onde estava, aposentado e “imaculado”. Preferiu voltar – direito dele – e em paralelo reforçar algumas teses. Os índices estatísticos de Michael Schumacher são fabulosos. Mesmo agora, caindo prova a prova pelos fracos resultados na Mercedes, continuam vistosos, mas em evidente queda, o que traz Schumacher ao mundo dos “mortais”. Não que não fosse, mas era de tal maneira portentosa a estrutura que o apoiava, principalmente na Ferrari, que suas atuações de certo modo mascaravam a realidade dos fatos. E quando isso deixou a esfera do privado para se tornar público, muito do encanto se desfez.
Schumacher não é tudo isso que as estatísticas apontam. Sim, são sete títulos mundiais, marca sem precedentes e que, na atual Fórmula 1 mais equilibrada, parece impossível de ser batida. Nem Fernando Alonso, nem Sebastian Vettel, nem qualquer outro terá chances, nos dias atuais, de se igualar a Schumacher. Não há dúvidas de que o piloto alemão é um exemplo notável de eficiência e qualidade técnico/desportiva, um dos melhores de seu tempo e um dos expoentes do todo o automobilismo. Esse mérito ele conquistou e míngüem tira dele, mas não é possível encarar seus recordes de forma simplista. Os números absolutos de Schumacher são circunstanciados, não plenos. Seriam plenos se o fossem conquistados da maneira nobre do esporte, mas nem sempre foi assim.
Lado deplorável
Discutível até o último fio de cabelo, o título de 1994 teve seu ápice quando Michael Schumacher, deliberadamente, bateu no Williams de Damon Hill, depois de chocar-se contra o guard-rail das ruas de Adelaide, na Austrália, na última etapa do campeonato. Com seu abandono e Hill na pista, o título era praticamente certo para o inglês. Só que Schumacher, pensamento rápido, alijou o concorrente direto da prova com uma manobra prá lá de desleal. Desse modo, ambos deixaram a Austrália como chegaram, com Schumacher liderando com 92, contra 91 de Hill. Mas a confusão já vinha desde há tempos, com o Benetton Ford do alemão, então chefiado por Flavio Briatore, apresentando um histórico de irregularidades e punições. De outro modo, ele não teria conquistado seu primeiro título. Contudo, se todos os questionamentos puderam ser feitos à exaustão após a conquista de 1994, no ano seguinte foi maiúsculo, com enorme vantagem e superioridade sobre os pilotos da Williams, pela ordem, Damon Hill e David Coulthard.
Com a transferência para a Ferrari a partir de 1996, levando consigo mais adiante o projetista Rory Byrne e o diretor técnico Ross Brawn, Schumacher juntou-se ao francês Jean Todt, diretor esportivo e, juntos, formaram talvez o quarteto mais vitorioso da história do automobilismo. Com a equipe italiana redesenhada ao seu formato, só na quinta temporada é que o primeiro título da nova formação – e terceiro de Schumacher – pode ser comemorado.
Quando foi contratado pela Ferrari em 1993, Jean Todt encontrou o inglês John Barnard como o grande nome técnico da equipe. Ora como projetista, ora como diretor técnico, Barnard passara a assumir postos de comando a partir de 1987, deixando para trás duas eras históricas no time de Maranello, primeiro a de Mauro Forghieri e depois a de Harvey Postlethwaite. Sob seu comando foram construídos modelos desenhados por Gustav Brunner, Gordon Kimball, Jean-Claude Migeot e George Ryton. Pois foi num modelo concebido pela “caneta” de Brunner, o F310, que Schumacher estreou na Ferrari. Brawn e Byrne passaram a assinar o modelo de 1998, o F300, e também os imbatíveis F1-2000 (2000), F2001 (2001), F2002 (2002) F2003-GA (2003) e F2004 (2004).
Antes disso, em paralelo ao enorme trabalho de desenvolvimento que se fazia na Ferrari, coube a Schumacher conquistar 16 vitórias nesse período pré-título e dois fatores marcantes colocaram, a ele e a Ferrari, distantes do tão almejado laurel, ainda nos anos de 1990. A primeira chance surgiu já em 1997, quando em disputa direta pelo título contra o canadense Jacques Villeneuve, da Williams. Na etapa final, em Jerez, o alemão tentou repetir a manobra que já havia usado contra Damon Hill, de forma vitoriosa, em 1994. Só que dessa vez o ato animalesco teve seu preço. Além de não conseguir evitar a vitória de Villeneuve no Mundial, viu-se obrigado a engolir uma punição que resultou na perda de todos os 78 pontos que havia conquistado e, por conseqüência, aquilo que poderia ser um honroso vice-campeonato.
O vice-título, de fato, veio em 1998, no primeiro dos dois títulos de Mika Hakkinen, da McLaren. As coisas até que poderiam ter sido diferentes em 1999, mas em razão de um acidente e da opção preferencial por Schumacher, foi tudo por água abaixo. O campeonato se desenvolvia de forma promissora até que Schumacher quebrou uma perna no acidente da largada do Grande Prêmio da Inglaterra, em Silverstone. Passou-se, então, a contar com Eddie Irvine para buscar o título. Ou seja, em função do infortúnio do absoluto número 1, o então coadjuvante relegado passou a ser o protagonista. Já era tarde. Mesmo com Schumacher retornando antes do término da temporada e fazendo um inédito papel de escudeiro, a Ferrari viu o título do Mundial de Pilotos permanecendo na mão de Ron Dennis, com o bicampeonato de Hakkinen.
Os anos de ouro
Os anos de 2000 até 2004, sem sombra de dúvida, foram de ouro para Schumacher/Todt/Brawn/Byrne, com nada menos do que cinco títulos consecutivos para ele e Ferrari. Para a equipe foi de uma significação extraordinária, pois a última vez que a Ferrari tinha conquistado os dois títulos, o de Pilotos e Construtores, já estava no distante 1979, quando o campeão foi o sul-africano Jody Scheckter. Depois disso, embora registrasse a vitória entre os Construtores em 1982, 1983 e 1999, faltava a retomada da conquista definitiva. E ela veio em 2000 ao acumular 10 vitórias em 17 corridas, sendo nove de Schumacher e uma de Rubens Barrichello, então novo contratado.
Foi nesse período que a Ferrari começou a “brincar” com a Fórmula 1, desrespeitou a categoria, manipulou resultados sem o menos escrúpulo, ridicularizou o torcedor e colocou à mostra o lado vergonhoso do esporte. Era simples. Numa fase em que a Ferrari tinha um carro flagrantemente superior aos demais, além de um piloto acima da média como Michael Schumacher, a única possível briga direta que poderia ocorrer era com o próprio teammate Rubens Barrichello. Nesse quadro, ao mesmo tempo em que a Schumacher tinha as melhores ferramentas, Barrichello era proibido de vencer. Tanto que sua primeira vitória, que aconteceu em Hockenheim, no ano de 2000, embora soberba e inesquecível sob o ponto de vista esportivo, teve o facilitador de ter Schumacher abandonado a prova. Quando tentou vencer com o alemão na pista, como no Grande Prêmio da Áustria de 2002, atingiu-se o ponto alto no desrespeito ao esporte.
Foi um episódio tão dantesco que, potencializado pela sínica reação de Schumacher e subserviência de Barrichello, ganhou “asas” eternas na memória do torcedor. De pronto, Schumacher ergueu os braços após a bandeirada em A1-Ring, como se tivesse acontecido a coisa mais normal do mundo. O “teatro” começou após a condenação do público austríaco, que numa “única voz” vaiou de forma surpreendente o vencedor do Grande Prêmio da Áustria e, por extensão, toda a equipe. No pódio foi aquela palhaçada, com Schumacher se fazendo de penalizado e cedendo o lugar mais alto do pódio para Barrichello, que meio desconcertado acabou por ocupar. Certamente ambos levaram um bom esporro de Jean Todt, afinal, sabiam o que estava acontecendo. Ninguém mais do que Barrichello sabe o que ele teve de enfrentar na Ferrari e os motivos pelos quais teve de se submeter a tudo aquilo. A verdade, porém, é cruel. Depois daquele 12 de maio de 2002, o brasileiro nunca foi compreendido e perdoado por uma parcela dos torcedores.
Repetindo: Schumacher é um ídolo extraordinário, com “cadeira cativa” no coração dos torcedores e no topo das estatísticas. Entretanto, infelizmente para ele e para o esporte como um todo, não é tudo isso que os números tentam traduzir.
Há um exagero quando se fala em Schumacher. Estava fazendo as contas, entre rodadas, colisões e acidentes, fptam 31 corridas.