Revista Warm Up revela: CBA fatura quase R$ 6 milhões por ano, mas tem prejuízo com a F1

Coluna publicada na revista Warm Up de julho/2012 nº 28 – Páginas 24 e 25

Por Americo Teixeira Jr. – Em tempos de transparência, quando salários e gastos de órgãos administrativos e de representação estão (ou deveriam estar) disponíveis para a sociedade em geral, a coluna pôde analisar o balanço mais recente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). Muito se questiona no meio automobilístico a respeito do faturamento e despesas da entidade máxima do automobilismo brasileiro. “A CBA não faz nada!”, “A CBA só cobra taxas!”, “A CBA é uma fábrica de carteirinhas!”, dizem alguns críticos. A política de contas abertas e um balanço detalhado poderiam representar uma defesa cabal às críticas, mas não é isso o que acontece. Suas contas, sim, são abertas, mas pouco esclarecedoras em alguns aspectos importantes.

De forma objetiva, o Demonstrativo de Resultados aponta uma receita bruta de R$ 5.993.535. Em contrapartida, o mesmo documento informa ter havido um Lucro Operacional de R$ 481.086, diante de um gasto total, sob o título “Despesas Operacionais”, de R$ 5.512.499 (quadro_01). Os levantamentos concluídos em 31 de dezembro de 2011 e assinados pelo presidente da entidade, o dirigente pernambucano Cleyton Tadeu Corrêa Pinteiro, elucidam parcialmente questões como arrecadação, despesa, patrimônio, aplicações no mercado financeiro, pagamentos e recebimentos futuros. A elaboração do balanço teve a assessoria da Jecine Assessoria Contábil Limitada e as contas foram aprovadas pelo Conselho Fiscal da CBA, que tem como titulares os senhores Aylton Quintiliano Jr., Edson Rodrigues Campos e Eduardo de Faria Neves.

Esses números absolutos, assim expostos, não explicam muita coisa, mas é na análise do balanço que algumas interrogações são eliminadas, dando lugar a outras. A conclusão é que a CBA tem despesas quase na mesma escala de suas receitas, mas são poucos os itens que podem ser claramente identificados como benefícios aos pilotos, não estando o documento oficial fazendo jus a esses eventuais esforços. Pelo contrário, produz alguns espantos. É possível imaginar o GP do Brasil de F1 dando prejuízo para a CBA? Pois é isso que diz o citado instrumento legal, aprovado pela assembléia formada pelos presidentes de federações, após de recomendação expressa de APROVAR, feita pelo Conselho Fiscal (quadro_02).

CBA perde dinheiro com a Fórmula 1, é o que diz seu balanço

A prova brasileira custou aos cofres da entidade um total de R$ 220.738 em 2011, estando estadias, passagens aéreas e gratificações no topo da lista. Embora o Demonstrativo de Resultados não indique qualquer valor relativo à receita no período, a coluna verificou na própria documentação que não há pendências, tendo a CBA recebido R$ 253,1 mil em 2010 e previsão de R$ 213 mil para 2012. Vale dizer que o GP de 2011 foi totalmente bancado pelo promotor do evento em sua parte operacional. Procurada a respeito dos números de2011, aassessoria do GP manifestou impossibilidade de divulgar esse tipo de informação.

Apesar disso e de acordo com as respectivas variações do dólar, é possível estimar uma taxa de aproximadamente R$ 230 mil paga à CBA. Mesmo assim, o prejuízo com a F1 fica evidenciado de forma mais cristalina na previsão orçamentária para 2012 (quadro_03). Enquanto a receita lançada é de R$ 213.000, as despesas ultrapassam essa quantia em R$ 144.300, o que significa dizer que um gasto total de R$ 357.300. Já a Indy, sempre segundo os dados oficiais, gerou lucro de R$ 60.949. Curioso, visto a Indy pagar taxa menor do que a F1 e a CBA, como faz por ocasião da prova da FIA, também reunir representantes de federações e acompanhantes, com despesas pagas.

O balanço indica também receitas no mercado financeiro de R$ 246.187 (a CBA manteve, em 2011, aplicações no mercado aberto no Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, num total de R$ 2.203.460,61) e as chamadas Receitas Diversas, que geraram recursos da ordem de R$ 5.617.220. O piloto é normalmente mais sensível à carteirinha de filiação anual, alvo de reclamos por vezes acalorados. Mas se engana o competidor que achar ser esta a principal fonte de renda. Embora não desprezível (R$ 1.379.974), perde para Inclusão no Calendário e Taxa Técnica Nacional, cada uma superior a um milhão e meio. A primeira é o que a entidade cobra do promotor para incluir a competição (campeonatos, torneios e copas) no calendário nacional. Por Taxa Técnica entenda-se o que também é cobrado para a execução das operações técnicas e desportivas em todas as etapas.

 

Despesas e Diversos

A CBA tem uma equipe de funcionários, em número de oito pessoas, que diuturnamente dá expediente na Rua da Glória, 290, 8° andar, no Rio de Janeiro. Despesas com pessoal e encargos sociais somam aproximadamente R$ 800 mil. Só que o dobro disso foi gasto com Serviços de Terceiros. Mais de R$ 1,6 milhão estão alocados nesse item, total que se transforma em exatos R$ 3.340.949,49 se alinhados a outros, tais como Competições Diversas e Despesas Administrativas.

Passagens e hospedagens – nacionais e internacionais – representaram uma boa soma. Itens constantes em diversos subtítulos perfizeram um total superior a R$ 520 mil. Esse volume, porém, foi inferior ao pago como Assessoria Técnica e Desportiva (R$ 579.037,03) e Serviços de Terceiros, tanto para pessoa jurídica como física, em torno de R$ 590 mil. As chamadas Taxas para a FIA, que em muitos casos são elencadas como responsáveis por significativa parcela de despesas da CBA, constam do balanço de maneira comparativamente modesta, visto que as faturas pagas à entidade internacional atingiram exatos R$ 68.675,30.

Há ainda um “diversos” de R$ 122.346,88 em Despesas com Representações, cujos gastos com passagens e hospedagem representam 25% do total já apresentado aqui. No tópico Competições Diversas, o destaque é o comissariado técnico desportivo, cuja operação custou R$ 145.000,00 no ano passado, apesar de essas despesas serem comumente bancadas pelos promotores. Já eventos de rali, kart e velocidade na terra, somados, atingiram igual valor.

Em tempo de pleitear um segundo mandado, cujo direito lhe é pleno, legítimo e outorgado pelos estatutos da CBA e aprovação de suas contas pelos órgãos de direito, que são o Conselho Fiscal e a Assembléia, o presidente Cleyton Pinteiro poderia incluir, dentre suas metas, uma prestação de contas mais clara e transparente, o que facilitaria o entendimento do funcionamento de sua administração. Na papelada que dá suporte ao Balanço, está especificado que R$ 850 foram desembolsados como adiantamento de salário para um dos funcionários. O mesmo zelo poderia ser adotado em outros tópicos, notadamente os de valores percentuais mais significativos do que o adiantamento citado, equivalente a 0,017% do todo.

 

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