Depois dos altos e baixos com a Williams, a Petrobras inicia com a McLaren uma parceria técnica que promete ser longa

Por Américo Teixeira Junior

O McLaren MCL33 é o primeiro carro da equipe inglesa a contar com a parceria técnica da Petrobras (Foto McLaren Media)

Sem revelar valores ou duração de contrato, sob a alegação de que tais informações estão circunscritas aos compromissos contratuais de confidencialidade, a Petrobras anunciou no dia 20 a sua mais nova parceria na Fórmula 1, agora com a equipe McLaren. Três dias depois, no lançamento do McLaren MCL33, as marcas Petrobras e Lubrax já estavam estampadas na carenagem laranja.

Tal como aconteceu com a Williams, a petrolífera brasileira informa se tratar de parceria tecnológica para desenvolvimento de combustível e lubrificantes. O objetivo é desenvolver tais produtos para que eles possam ser utilizados no carro e no motor Renault, a nova fornecedora de motores do time inglês.

Na prática, é a retomada de uma estrada já percorrida pela Petrobras, acumulando sucesso e fracassos. Entre 1998 e 2008, foi a fornecedora oficial da Williams, período no qual a equipe teve quatro fornecedores diferentes de motores: Renault (nomeado e preparado pela Supertec), BMW, Cosworth e Toyota.

Em termos do fornecimento de combustível, propriamente dito, equipe de Frank Williams ainda utilizava os da Castrol, enquanto a Petrobras desenvolvia o seu. Mas o Grande Prêmio da Inglaterra de 1998, o combustível já contava com matéria prima Petrobras.

Em 1999, enquanto produzia um combustível para a Williams Renault, havia um segundo produto que era utilizado nos testes secretos da BMW, que seria a fornecedora de motores da Williams entre 2000 e 2005. No cômputo geral da parceria, foram 188 os Grandes Prêmios disputados e 10 vitórias conquistadas, com o produto brasileiro, além do vice-título de Construtores, em 2002 e 2003.

Sob o comando do engenheiro brasileiro Rogério Gonçalves, a primeira parceria entre Petrobras e Williams colheu resultados positivos, tanto técnicos quanto desportivos, que não mais se repetiram (Foto Miguel Costa Junior)

Mas se a primeira passagem, comandada pelo engenheiro brasileiro Rogério Gonçalves, foi um grande sucesso técnico, desportivo e de imagem, o retorno da Petrobras à Williams, entre 2014 e 2016, foi um fracasso. Isso porque, por mais que tentasse, a empresa não foi capaz de desenvolver os produtos que atendessem às exigências técnicas e de performance da Mercedes, fornecedora de motores desde 2014.

Para esse novo momento técnico, a empresa vislumbra cumprir três etapas distintas. A primeira delas é conseguir fornecer óleo de câmbio ainda neste ano. Para 2019, a meta é que o MCL34 Renault dispute a temporada com combustível e lubrificantes, todos eles, da Petrobras. Já a terceira é classificada internamente como uma “grande oportunidade”, que é a possibilidade de estar presente, com seus produtos, em todo o processo de concepção, construção e desenvolvimento do motor Renault que estará nas pistas em 2021, quando a Fórmula 1 adotará nova regulamentação para os propulsores.

Lacunas e omissões

Embora obrigada a disponibilizar seus dados pela Lei de Acesso à Informação (Lei 12527, de 18 de novembro de 2001), a Petrobras tem a assinatura de cláusulas de sigilo amparada pelo Decreto Federal que regulamentou a Lei, o de número 7724, de 16 de maio de 2012, no que tange ao conteúdo empresarial. Com forte presença num mercado global, a Petrobras tem de lutar nessa “arena” comercial e política com as armas disponíveis e amplamente utilizadas por concorrentes. Há, portanto, uma explicação, com embasamento legal, para a sonegação de dados como o duração de contrato e investimentos.

Sobre esse último ponto, o Diário Motorsport pode, pelo menos, estimar. Considerando que o patrocínio seja na casa de 10 milhões de euros, há de se somar a logística da operação, custo dos profissionais envolvidos, o produto em si e o acompanhamento dar provas. Nesse caso, é possível supor que o investimento da Petrobras nessa parceria com a McLaren e Renault gire em torno do 20 milhões de euros por ano. Obviamente, a questão de confidencialidade protege o dado e, como é razoável, nenhuma das partes envolvidas fala oficialmente sobre isso.

Mas o que não é razoável e aceitável, entretanto, é a total ausência de benefícios para o automobilismo brasileiro advindos da operação. O discurso oficial fala em “parceria técnica para desenvolvimento”, “valor para a empresa, acionistas e clientes”, “fixação da marca”, “reforço à imagem” e “alinhamento com o plano de negócios”. São, de fato, pontos pertinentes.

Poder-se-ia até discutir se ao país interessa estar na Fórmula 1 mas, em estando, nossa empresa mais identificada com a modalidade não pode fugir da responsabilidade de ser uma “ponte” a proporcionar benefícios para o esporte, afinal e salvo engano, a Petrobras não é uma empresa privada, mas economia mista controlada pela União.

Essa “ponte” não significa que a empresa tenha de comprar uma vaga em alguma equipe de Fórmula 1 e escolher entre A, B ou C para ocupar o lugar. Por “ponte” entenda-se a criação de um programa de desenvolvimento de novos talentos, com a aproximação com a Fórmula 1 sendo um elemento motivador. Hoje a Petrobras está presente no kartismo, no rali e nas duas principais categorias do automobilismo brasileiro, que são a Stock Car e a Copa Truck. Pode ir muito mais além, como já o foi no passado.

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1 COMENTÁRIO

  1. É realmente um absurdo a Petrobrás sequer cogitar levar um piloto brasileiro pra F1. Se tem algo q a Petrobrás sabe fazer é desrespeitar o povo brasileiro, seja pelos valores absurdos q nos impõe nos combustíveis, seja pelos escândalos de corrupção.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.