O carioca Gustavo Coelho não precisou ir além do 3º lugar para conquistar o Cinturão desta temporada inaugural

Por Américo Teixeira Junior, de Piracicaba (SP) – Fotos Rodrigo Ruiz/RR Media

Sempre cabe mais um no pódio da Fórmula Inter e em Piracicaba não foi diferente

Se fosse combinado e planejado, aos moldes de um bem elaborado roteiro de cinema, provavelmente não teria dado tão certo. Mas quiseram as circunstâncias que a primeira corrida da Fórmula Inter no oval de Piracicaba se transformasse em um paradigma, dentro e fora da pista. Para começar, o promotor Marcos Galassi fez desta 10ª etapa um evento repleto de atrações espalhadas pelas vastas áreas – e também no céu – do Esporte Clube Piracicabano de Automobilismo (ECPA). Nenhuma outra prova tinha conseguido registrar um grid com 13 carros, o maior do campeonato até aqui. O carro de dois lugares andou pela primeira vez, sob o comando de Artur Bragantini. Ainda no campo do ineditismo, o pole Alex Seid e o vencedor Pedro Aguiar nunca haviam registrado tais feitos e, de quebra, coube ao primeiro piloto nela inscrita, Gustavo Coelho, tornar-se o primeiro campeão da Fórmula Inter. Até a chuva, ameaçadora em vários momentos, deu uma trégua.

Os mais poéticos podem até entender que os “deuses do automobilismo” conspiraram contra os obstáculos para que tudo desse certo. “Sorte”, diriam os mais crentes. Mas a verdade é que, desde o nascedouro da categoria como um todo – e da ideia de uma etapa em Piracicaba, em particular -, estava a Fórmula Inter vocacionada a, pelo menos, ser diferente. E o “ser diferente” é uma marca bem definida e assimilada por todos, uma vez que, “se fosse para fazer igual, ser mais um, a gente não precisaria estar aqui”, resumiu Galassi, que fez festa por ver os filhos largando no meio do pelotão. “Se andassem na frente, iam dizer que o dono estava roubando”, comentou, entre gargalhadas, no incomum e divertido briefing pós Qualifying.

Aliás, o que conversa essa gente da Fórmula Inter não é brincadeira. Todos os aspectos da competição de Piracicaba, especificamente, e da categoria de maneira geral, foram e são discutidos em conjunto. Não se perdem de vista, porém, dois aspectos primordiais que fazem parte do DNA da série de monopostos. O primeiro deles é o de ser uma espécie de laboratório técnico e desportivo, um campo de inovação com o objetivo de fugir daquilo que todo mundo faz. O outro é que a categoria tem dono. É por isso que Galassi transita tranquilamente entre dois extremos. O Galassi “Ulysses Guimarães” media os debates advindos de quaisquer opiniões, mas até certo ponto. Na hora de decidir, diante de um cenário pouco convergente, entre em cena o Galassi “Bernie Ecclestone”, resolvendo a questão imediatamente e já passando para o próximo ponto. “Afinal, eu sou o dono, né?”.

Gustavo Coelho e seu Cinturão na festa do título em Piracicaba

Clima de decisão

Como decisão é decisão, por maior que seja a harmonia, seria normal supor um clima de tensão e rivalidade à flor da pele em razão de o título estar em jogo e o palco ser justamente inédito para todos, mesmo tendo sido realizado alguns treinos.

Certo? Errado!

Ao invés do isolamento na base da “faca nos dentes e do sangue nos olhos”, todo mundo está junto o tempo todo, as esposas são amigas, todos fazem as refeições ao mesmo tempo e até sobrou tempo para curtir as atrações. Todos juntos.

Obviamente que esse clima de “uma rosa e um sorvete na mão” tem seus limites. Claro que todo piloto quer ganhar, não facilita a vida do outro na pista e faz quase tudo para se sobressair. Mas atentem para esse detalhe. O “quase” aqui se faz necessário porque há limite claríssimos sobre o que se pode e o que não se pode fazer. Está tão introspectada na mente dos membros da Fórmula Inter a limitação imposta pelo compromisso ético que não há a menor possibilidade de, por exemplo, um piloto malandramente jogar o outro para fora da pista. Também ninguém esconde o jogo. O grupo da FEI é formado por um engenheiro para cada carro e as soluções são discutidas, mas tudo é compartilhado.

Marcelo Henriques deixou a vida de mochileiro para construir seu caminho na Fórmula Inter

Esse conceito de harmonia, particularmente em Piracicaba, foi decisivo para um significativo episódio, mas que ficou no bastidor, sem alarde, sem ser percebido por muitos. Não é segredo para ninguém que a criação da Liga Paulista de Automobilismo, por Felipe Giaffone e Dito Gianetti (dono do ECPA), foi resultado da busca de uma alternativa que não passasse pela Federação de Automobilismo de São Paulo (FASP). Mas como a Fórmula Inter tem caráter regional e está sob a alçada da entidade paulista, as duas entidades trabalharam sem problemas na ECPA 100.

Mas a relação cavalheiresca entre categoria e órgão supervisor não significa aceitação completa de certas normas. É também aí que o “jeito Ecclestone de ser” volta a imperar. Os carros da categoria não são pesados, vistoriados ou punidos tecnicamente. Todo esse trabalho fica por conta de seu grupo diretivo em razão de um detalhe muito simples. “Quem resolve nossos problemas somos nós mesmos”, explica o engenheiro Cláudio Ceregatti, diretor de projeto. Ele define o carro da Fórmula Inter como um “milagre técnico” por ter nascido da inimaginável reunião de esforços entre três escolas totalmente diferentes. Uniram-se, não sem trancos e barrancos iniciais, a experiência do construtor José Minelli, a tecnologia dos estudantes da FEI e a consultoria do piloto de Fórmula 1 Roberto Pupo Moreno.

A harmonia entre todos os membros da categoria é alimentada por diversas formas

Chegou chegando

Vivenciando tudo isso pela primeira vez estava o piloto Alex Seid, que fez carreira no mercado publicitário e hoje atua no Google justamente na sensível área de vendas digitais. Aos 33 anos, nunca deixou morrer o sonho de ser piloto, objetivo desde a infância que teimou em não se materializar por falta de recursos. Parte dessa fome de velocidade começou a ser alimentada com os karts de aluguel do Kartódromo Granja Viana, estimulado que foi por um amigo de trabalho que já experimentava há tempos as retas e curvas do empreendimento da família Giaffone.

OK, foi legal, mas quem disse que a tal da fome foi saciada?

Há coisas que a gente não deve nem experimentar, pois passa a ser um caminho sem volta. Isso vale para o bem ou para o mal. No caso de Alex, serviu apenas para que ele ficasse com mais vontade. Só que não era uma vontade qualquer, era algo que mexia tão intensamente com suas emoções que, ao se ver pela primeira vez dentro de um carro da Fórmula Inter, sua reação foi chorar. Não, não estava acelerando ou dividindo curvas. O carro estava nos boxes, mas o simples fato de se ver num carro robusto, identificado com o que ele sempre desejou para si, foi o bastante para a emoção.

Sabe-se lá o que se passa na cabeça de um jovem bem-sucedido profissionalmente, mas que se permite extravasar as mais íntimas emoções ao simplesmente estar num carro de corrida. E dá-lhe choradeira, pois ao voltar para os pits, depois de acelerar em Interlagos naquele evento para iniciantes promovido por Marcos Galassi com o nome de Fórmula Inter Day, o suor no rosto não impediu que as lágrimas fossem percebidas. E adivinhem o que aconteceu quando ele foi gravar o depoimento relativo àquela experiência?

Se você disse “chorou de novo”, acertou.

Só que daquele dia de maio para a primeira corrida, o que se viu foi a transformação do jovem emocionado em um piloto concentrado e ávido por cumprir o papel que sempre imaginou para si. E cumpriu de tal maneira com perfeição que, para espanto dele próprio, assinalou a pole position no Qualifying de estreia, exatamente num treino para formação do gris que subverteu tudo aquilo que costuma ser feito normalmente – lembram daquela história de ser diferente? Pois é…

Foi estabelecida a entrada de cada piloto em separado na pista, aos moldes do que acontece nos ovais norte-americanos. A diferença esteve no fato de cada piloto percorrer a pista por um período de cinco minutos, a partir do qual seria dado o sinal para a última volta, a única de fato valendo. De nada adiantaria o competidor destroçar o cronômetro na fase de aquecimento. Toda a velocidade e capacidade de condução teria de estar concentrada na última volta.

Alex Seid: Pole position da ECPA 100 já em seu primeiro Qualifying na Fórmula Inter

E lá foi carro vermelho #7 conduzido por Alex Seid. “Olha o tempo do novato!”, gritou alguém. O espanto por estar na frente estava estampado na fisionomia do próprio piloto, que parecia consciente – e até conformado – de que seria superado logo em seguida. Acontece que um a um, os demais pilotos foram fechando suas participações e nada do #7 sair do P1. Assim, a incredulidade inicial deu lugar para uma explosão de alegria, logo em seguida acompanhada de uma resposta que ele repetiu à exaustão, para todos que lhe perguntavam como conseguiu a pole justamente em seus primeiro Qualifying: “Não sei, nem eu sei como”, respondia.

Todo mundo no bar

Cumprida a fase de formação do grid, cada piloto se trancou em separado para pensar estrategicamente a corrida. Certo? Errado de novo!

Foi todo mundo para o bar.

Antes que se pense mal dos garotos, é bom que se explique que o evento foi composto por diversas atrações para o público, desde a praça de alimentação bem variada para todos os gostos, até o palco com shows musicais, passando pelo parque de diversão para as crianças, exposição de veículos novos e antigos, barbearia e serviços para as mulheres. E, e claro, o bar.

Chamado de Bar nas Alturas, a diferença desse bar é que um guindaste eleva a plataforma às alturas e somente lá, cerca de 30 metros de altura e com uma visão exponencialmente privilegiada, é que a cerveja artesanal Cevada Pura é servida. Entre assustados e extasiados, ninguém passa pela experiência incólume na tarde de sábado. Só que nem todo mundo se aventurou. Esse foi o caso do carioca Gustavo Coelho, de 27 anos, que aproveitou o sobe-desce dos teammates e demais membros da Fórmula Inter para relembrar os caminhos que o levaram a estar naquele momento, curtindo a ansiedade de véspera para disputar a corrida que poderia lhe dar o título, a partir do 3º posto no grid.

Meio alto, né?

Jornalista e dono de cinco vitórias, fez o curso já sabendo que queria trabalhar com automobilismo. É um desses casos onde não fica muito claro se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha. Tem quem se tornou jornalista de automobilismo porque não conseguiu ser piloto e há também o jornalista que acabou gostando da maluquice e foi pilotar. No caso de Gustavo, a ascensão profissional o levou para o canal por assinatura Esporte Interativo, onde atua em programação, ou seja, aquilo que vai ao ar.

E de tanto estar em contato com o esporte que descobriu uma tal de Fórmula Inter. De sua base no Rio de Janeiro, ligou para o número que tinha e foi atendido por um tal de Marcos Galassi. Não se conheciam, ele nunca tinha visto o carro e nem sabia ao certo como ia ser o campeonato. Só sabe que o papo foi suficiente para que se tornasse o primeiro piloto a se inscrever oficialmente na Fórmula Inter.

O outro candidato ao título também chegou a Piracicaba com uma bagagem respeitável. Nascido em São Paulo, mas radicado na histórica e mineira Juiz de Fora desde as fraudas, Marcelo Henriques se encontrou com o kartismo aos 20 anos como etapa de uma trajetória que ele próprio define como “fora da caixinha”. Esse “jeito Marcelo Henriques de ser” define um cara vivaz que é sujeito de sua própria história. Foi assim que ele foi morar na Argentina, depois nos Estados Unidos, meteu uma mochila nas costas para conhecer o mundo e tratou de fazer uma saborosa limonada quando limões surgiram pelo caminho. Numa dessas andanças, soube da Fórmula Inter e se interessou de tal forma que ligou do Nepal, onde estava, para ter mais detalhes e fechou a negociação de lá mesmo.

Aos 35 anos, formado em tecnologia, poliglota e trabalhando na Netflix, Marcelo se transformou no “rei das poles”, pois tem oito em 10 corridas, mas foi por ter acumulado quatro vitórias que chegou em Piracicaba como candidato ao título. Largou em 7º, chegou em 6º e viu Gustavo Coelho subir no pódio com o enorme cinturão. A reação de Marcelo foi fazer festa do mesmo modo, já pensar na próxima corrida e não dedicar um segundo sequer para pensar em decepção. Não seria a cara dele se fosse diferença.

Pedro Aguiar faturou a ECPA 100 em 54min25s234, com média de 89,564 km/h

O “Dalí” da Fórmula Inter

A primeira coisa que chama a atenção para quem conhece Pedro Aguiar é o bigode com as pontas proeminentes, fazendo lembrar Salvador Dalí. Mas se o genial artista espanhol (ou será catalão?) flertava com a loucura, pelo menos para a sociedade conservadora do início do Século 20, o “Dali” de Americana (SP), de louco, não tem nada. Pelo contrário, trabalhou forte na estratégia e entrou para o rol dos vencedores justamente na corrida mais especial do ano. O resultado garantiu também outro feito. É agora o vice-líder.

Programada inicialmente para 100 voltas, com reabastecimento, Marcos Galassi preferiu mudar as coisas por segurança. O número de voltas caiu para 80 e a parada, embora mantida, não teve reabastecimento. Alex foi ao pódio com o 2º lugar, depois de liderar por bom tempo. Após Gustavo cruzar em 3º e comemorar o título, Rafael Seibel chegou em 4º, fechando o grupo que completou 80 voltas. Seguiram-se Alexandre Galassi (79 voltas), Marcelo Henriques, Luiz Junior, Luciano Zangirolami e Gabriel Salomão (78).

Raphael Frossard, com 74 voltas, teve problemas de freio. Erick Galassi abandonou, faltando 20 voltas para a bandeira de chegada, em razão de uma roda solta. Já Marcelo Zebra, que tem alguns Dakar (na África!) e Rali dos Sertões no currículo, ficou pelo caminho, após 28 voltas, com superaquecimento. Na corrida, a ausência sentida foi de Fernando Rosset. Ele participou normalmente das atividades de sexta, mas precisou voltar para casa em razão de o filho precisar de cuidados médicos.

No final, como é característico na categoria, foi todo mundo para o pódio, afinal, outra etapa foi vencida no desafio, abraçado por quem está dentro e fora das pistas, de fazer automobilismo de um jeito diferente.

Mesmo com 12 carros no grid pela ausência de Fernando Rosset, a categoria bateu recorde de presença em Piracicaba
Compartilhar

3 COMENTÁRIOS

  1. Américo, para sua informação, todos os veículos da Formula Inter, quando participam do Campeonato Paulista de Automobilismo de 2017 são vistoriados sim nos itens validade e carga dos extintores de incêndio, validade dos cintos de segurança e a luz de chuva, todos os carros aprovados em cada etapa, tem um selo da FASP afixado no interior do Cokpit, na maioria das vezes próximo a mão direita dos piloto, quando o mesmo está segurando o volante de direção. A Federação de Automobilismo também disponibiliza uma balança para que seja conferido o peso de todos os formulas em todas as provas do campeonato, ficando porem a critério da categoria usa-la ou não. Meu nome é Lourival Caetano Dias Jr, Equipe Eagle de Vistorias Técnicas.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.