Na quinta e última parte da entrevista com o empresário Marcos Galassi, ele explica o motivo de não ter abandonado o projeto e como vê o futuro da Fórmula Inter

Por Américo Teixeira Junior

Galassi trabalha para perpetuar a Fórmula Inter, mas se considera feliz pelo atual estágio (Foto Rodrigo Ruiz/RR Media)

Marcos Galassi é um empresário às avessas. Faz um distinção muito clara entre “precisar de dinheiro” e “gostar de dinheiro”, este último com o objetivo de poder e controle. Ganhou e perdeu dinheiro ao longo da vida, mas nunca deixou de ter uma ideia na cabeça e motivação para executá-la. A Fórmula Inter se enquadra nesse contexto, mas com o elemento “ideologia” muito presente na sua realização.

Todo investimento feito, longe de tentar recuperá-lo ao longo da operação, para ele é “fundo perdido”. De outro modo, o conceito de categoria barata estaria comprometido e o custo por corrida seria algo em torno de quatro vezes mais do que é hoje. “Paciência. O que passou, passou”. Esse é o lema de Marcos Galassi, que continua colocando dinheiro do bolso e não revela nem sob tortura quanto gastou. “Fundo perdido”, é a resposta. Essa categoria é muito mais do que dinheiro. Tem a ver com gente”, resume.

O FUTURO DA FÓRMULA INTER E SUA REGRAS IMUTÁVEIS

Gustavo Coelho lidera o primeiro campeonato da Fórmula Inter (Foto Rodrigo Ruiz/RR Media)

Diário Motorsport – Você criou uma incubadora. O que é exatamente?

Marcos Galassi – A incubadora é simples. Peguei um carro e dividi por 10. Como custa R$ 13.990 por evento, cada um paga 10 prestações de R$ 1.300 e poucos reais e eu dou uma corrida para cada um. E no final ainda sobra uma corrida, porque são 11 etapas, e os melhores vão disputar para ver quem vai andar nessa prova. E no processo eles vão aprendendo um negócio que eu chamo de academia. O que é a academia?

Eu peguei o Pupo Moreno e coloquei como reitor da academia. O que eu conhecia dele eu tinha visto na televisão, mas aí eu passei a conhecer o Pupo particularmente e posso dizer que é uma pessoa de bom caráter. E o cara sabe tudo! Ele sabe até demais, até. Tem hora que precisa dizer: “Menos, Pupo, menos”.

Peguei o Artur Bragantini, Luciano Zangirolami, um rapaz que correu no exterior, tentou de tudo quanto foi jeito seguir a carreira. Eles falam de pilotagem, técnicas, essas coisas. Peguei uma nutricionista para falar como eles devem comer. E tem também a preparação física, o marketing e por aí vai.

DM – Você da muito da Indy com admiração. Por que?

Marcos Galassi – Começou com um negócio chamado “Juntos na Estrada da Indy“, que era uma série de TV, em 2012. Foi a coisa mais doida que eu já fiz, mas a mais legal da minha vida até agora, tirando a Fórmula Inter. Fiquei quanse um ano nos Estados Unidos com os meus filhos Erick e Alexandre e foi demais. Aliás, posso abrir um parêntese aqui?

DM – Sem dúvida.

Marcos Galassi – Depois do primeiro ataque cardíaco, eu voltei para o hospital porque tive mais um. E voltei de novo porque eu tive um AVC. Só para você entender. Nunca desista é nunca desista mesmo! O AVC me paralisou o lado esquerdo inteiro. Um mês depois a minha paralisia sumiu. Ainda tem alguma coisa, mas nada que seja uma sequela evidente. Fato é que, quando eu estava na UTI, pensei seriamente em desistir de tudo. A gente se abate mesmo. Só que o incentivo dos meus filhos, o apoio deles, foi o que me segurou, me fez levantar e manter viva em mim essa chama. Realmente, nós não teríamos chegado até aqui sem eles. A Fórmula Inter deve muito a eles e eu, nem se fala. O Erick tem 37 anos, o Alexandre, 21, e a Andrea, de 32, acabou de me dar três netinhos.

Retomando. Algumas coisas do lado humano eu trouxe da Indy. Eu conheci o Josef Newgarden quando saiu da Indy Light e entrou pela primeira vez no carro daquela mulher que esqueci o nome dela [Sarah Fisher]. Eu estava com a minha família e ele me recebeu nos boxes antes da corrida [etapa de abertura da temporada 2012, em St. Petersburg]. Um moleque treinadinho, simpático, fala direitinho, todo arrumadinho, entendeu? Fiquei muito bem impressionado com o comprometimento dele e pensei: “Por que não pode ser assim no Hemisfério Sul?”. A academia tem esse papel.

DM – Essa experiência ajudou a formar o conceito básico da Fórmula Inter?

Marcos Galassi – Sim e vou te falar três coisas que nunca saíram da minha cabeça e estão dentro da Fórmula Indy.

Cena 1: Estou em Indianapolis e sentei ali atrás do Paddock para fumar – naquela época eu fumava muito. Era dia da Brickyard 400, prova da Nascar, aquilo lotado, a cerimônia pré-corrida acontecendo, o padre falando e eu lá fumando … “e agora o hino dos Estados Unidos!”, falou o locutor. Nunca tinha visto aquilo porque nunca tinha estado numa situação daquelas naquele lugar. Eu me lembro perfeitamente que vinha um cara magrinho, mal conseguia carregar duas geladeirinhas, que deviam estar de cerveja até o talo. Ele vinha e, de repente, começou o hino nacional e ele pummm, parou onde estava. Ele e milhares de pessoas que estavam lá. Aquilo me assustou. E as geladeirinhas, por inércia, não paravam de se movimentar, de tão pesadas que estavam. Mas ele ficou parado ali, de pé, sem colocar as geladeiras no chão, em posição de sentido. Na hora que acabou, todo mundo continuou andando. Aquilo é um modelo de mobilização, engajamento como nunca eu havia visto na minha vida. E é impossível não se emocionar com aquilo, pois é real, verdadeiro.

Cena 2: Sabe aquele ovalzinho que tem perto de Indianapolis, o O’Reilly? [O’Reilly Raceway Park, cujo oval tem 1 km de extensão e hoje se chama Lucas Oil Raceway, tem também circuito misto e pista para dragster]. Um belo dia um amigo meu me disse: “Marcos, eu vou te mostrar um negócio”, E me levou lá. Era uma quarta-feira, final do dia, dia normal de trabalho. Eu chego lá em pleno meio de semana, entro numa espécie de fazendinha e vejo 5 mil carros parados ali. Lotado! No que eu subo na arquibancada, eu me lembrei do Palestra Itália antigo, lotado, com 30 mil pessoas. “O que é isso?”. Aí eu olho lá embaixo e vejo os Late Model e os Sprint do lado esperando para entrar. Aquele cheiro de churrasco, o cheiro de pneu, barulho, o cara falando, Bon Jovi no alto-falante. E eu comecei a olhar o vi famílias, velhinhas, velhinhos, cara que saiu do escritório de gravata. “Será que esse planeta existe em outro lugar?”. Porque aquilo era um “jogo de futebol”, com pessoas civilizadas assistindo corrida de carro. E pagando US$ 8 cada um. Aquilo me chocou, também, da mesma forma que o episódio do hino havia me chocado.

Cena 3: Fizemos, montamos, lançamos sete carros e eu disse: “Eu quero fazer um evento com a Força Aérea”. Eu acho que a gente tem de prestigiar as instituições que tem algum prestígio nessa merda e acho que os militares são os únicos a ter algum prestígio nesse estado de coisa e a Força Aérea tem a ver – avião tem tudo a ver com o nosso carro. Os americanos fazem, por que a gente não faz? Eu estava no hospital, catei o telefone, procurei o telefone da Força Aérea, sabia que era a Semana da Asa, liguei para o Campo de Marte, falei com a oficina da Força Aérea. Eles falaram: “Nós vamos fazer com portões abertos”. E eu: “Posso participar?”. Botei o meu pessoal para falar com a tenente não sei o que e colocamos os carros ali, juntos na Semana da Asa.

Fomos lá, 100 mil pessoas, famílias … A hora que eu olhei aquilo eu falei: “O cara que estava no O’Reilly está aqui, as famílias estão aqui!”. E aí eu coloquei os nossos sete carros parados e na frente de cada um deles, um piloto e um encubado. Formava fila de 40 minutos para colocar criança dentro do carro. A gente colocou 3.500 crianças dentro do carro. Os meninos não aguentavam mais na hora que acabou o dia.

E aquilo me fez acreditar que existe um mercado para um negócio chamado de automobilismo de verdade. É entretenimento, os caras se esqueceram que automobilismo é entretenimento. Não dá para dizer que é só esporte. É esporte, claro que é! Mas é também entretenimento, é emoção, é gente, temos de resgatar gente.

DM – Mas dá para fazer isso na atualidade?

Marcos Galassi – Aí ei falei: “Bom, vamos fazer televisão, vamos fazer um reality show contando a história de todos esses malucos. Pode não ser uma história muito boa, pode ser pigas, pode ser meio brega o formado, pode não ser lá muito bom, mas é melhor isso do que nada. E vamos fazer a melhor corrida que a gente puder, em VT, porque a gente não tem dinheiro para fazer ao vivo. Cada vez que eu gravo, duas semanas depois vai ao ar, porque é o tempo que eu preciso para processar a coisa toda.

Então, é difícil em tão pouco tempo – estou tirando um sarro de você – explicar o que é tudo isso. Eu acho o Brasil uma bosta, do ponto de vista dos governantes e dos exemplos que a gente vê, mas eu acho o Brasil ‘O País’ das oportunidades. Estamos nos Estados Unidos na década de 20. Essa é a minha visão desse país, tudo está por ser feito, inclusive do ponto de vista moral e ético.

DM – Vamos falar de dinheiro. Sob o ponto de vista empresarial, você espera recuperar o investimento em quantos anos?

Marcos Galassi – Não espero. Você dá fundo perdido em tudo o que você investiu.

DM – Mas não tem um plano para recuperar?

Marcos Galassi – Plano zero de recuperar, fundo perdido. Veja, há pessoas que precisam de dinheiro e há pessoas que querem dinheiro. São coisas diferentes. Eu sou um cara que nunca fui eivado pelo dinheiro. Eu sou um cara que sempre ganhei o meu dinheiro com ideias birutas. Eu fui o pioneiro no vídeo na internet na América Latina. Comprei um software lá nos Estados Unidos, lá em Stanford, de uns judeus saídos da Ucrânia, e fiz uma empresa com isso. Essa empresa, ninguém acreditava nela e aconteceu. A primeira se chama Digital Media, que faliu um ano depois porque eu fui roubado por um sócio que eu tinha. Aí eu montei outra chamada LabOne. Na LabeOne eu fui disputado pelo Daniel Dantas, pelo Grupo Abril e outros. Eu acabei ficando com o Grupo Abril como sócio e nós ficamos com a empresa por cinco anos. Fizemos todos os primeiros stream do Grupo Abril. Na verdade, a Abril tinha a visão, mas não conseguia executar. A ideia era transformar o conteúdo que ela produzia em multi plataforma. A gente já sabia que isso ia acontecer. Isso em 1999. Então, vamos correr, vamos fazer. Mas os ranços culturais e corporativos das companhias – e isso acontece no automobilismo também – não permitiram que isso acontecesse. Embora todo mundo soubesse que tinha lá um farol vindo e que aquela merda era potencialmente um trem que ia massacrar todo mundo. “Ah, tá longe, não é para agora”. Deu no que deu.

DM – Deu certo?

Marcos Galassi – Tanto deu que vendemos a empresa para um grupo americano e montei uma outra empresa, a NextVision.

Essa foi a primeira empresa brasileira a fazer os receptores de TVs digitais, sem ter pego um puto sequer do governo. Porque muita gente que pegou o dinheiro do governo meteu o dinheiro no bolso. Isso inclui a academia, fora algumas empresas ligadas a essa onda que passou. Isso eu acho uma filhadaputice.

Fui o primeiro a fazer isso e o primeiro a criar um setup box IP, que era uma espécie de Apple TV. Só que isso eu fiz em 2003, cara. E produzi no Brasil e tomei um ferro muito mais do que eu poderia tomar com o automobilismo. Tudo porque eu insisti em produzir eletro-eletrônico no Brasil. E aí o chinês desembarcava com 10 contêineres, sendo um legal e nove ilegais. E aí, obviamente, que indústria nacional alguma sobreviveu a essa situação. Como não sobrevive hoje. Nós não temos mais uma indústria eletro-eletrônica. Gradiente, Evadin, CCE, enfim, todo mundo que produzia alguma coisa, acabou a produção.

DM – Em termos de investimento, a Fórmula Inter se enquadra em qual nível?

Marcos Galassi – Então, essa iniciativa da Fórmula Inter, comparada às coisas que eu já fiz, não é grande. É até pequena, só que ela é cheia a ideologia e boas práticas. Eu tenho hoje um bom produto, um produto barato. Aí falam do motor: “Ah, a categoria X tem 280 CV”. A nossa tem 191 CV e para você ter uma ideia, eu ainda não liberei passar dos 160 CV. Isso só vai acontecer quando os pilotos se sentirem preparados. “Ah, por que você não faz corridas em lugares exóticos, não pode?”. Pode, posso tudo, não devo nada para ninguém? Aliás, nem sou do automobilismo! Qualquer um pode falar mal de mim. “Ok, eu não entendi, eu não sou do automobilismo”. Eu tenho essa vantagem, sou um peixe fora d’água. Por outro lado, eu tenho um bom preço, eu tenho um discurso familiar, ético, nós temos um código de conduta. Para você ter uma ideia, tem um código de conduta e a Fórmula Inter é, sim, uma ditadura, que policia a aplicação do código de conduta, mas ela não aplica. Quem aplica são os próprios membros, os próprios pilotos. Vou explicar. Um piloto meu não tem medo de fazer uma tomada de curva, tendo um outro carro a seu lado, porque ele sabe que, se estiver na preferencial, se estiver na frente, esse outro cara não vai dar na porta dele. Porque isso está declarado no código de conduta e em todas as aulas que a gente dá em todas as provas.

DM – Já teve de banir alguém?

Marcos Galassi – Não, ninguém. É assim, os coaches têm uma proximidade com os pilotos muito grande, os pilotos têm um desejo de se profissionalizar. Eu tenho um piloto que, para você ter uma ideia, ele estava viajando o mundo e resolveu deixar esse sonho para realizar o sonho dele para correr de carro. Ele estava no Nepal na hora que fechou comigo. É um menino que faz tradução de filme, inteligente, culto, educado. Ele não quer ficar trocando farpas com o sujeito lá embaixo. Tem um outro que é gerente de programação de uma emissora. Também culto, inteligente, educado. Ou seja, eu tenho uma cultura familiar. Se você é um piloto que não condiz com isso, você não é aceito pela categoria.

DM – Deixa ver se entendi. Não teve banimento porque se o cara não tiver o perfil, nem é aceito. É isso?

Marcos Galassi – Por exemplo, eu sou um problema para a categoria, porque eu sou filtro de quem eu quero na categoria. Seu eu achar que o sujeito não tem qualidade para estar com a gente, ele não vai ser aceito. Estou falando em qualidade moral, ética. Não tem nada a ver com pilotagem. Pilotar, o cara aprende. Ética e sensibilidade humana valoriza o que estou fazendo. Por isso que eu estou conquistamos novos pilotos que são do mesmo jeito. Os iguais se atraem, entendeu? Eu não tive de vetar ninguém. O problema é que eu sou boca mole, falo bastante. Então, o sujeito que já sabe como é, nem vem falar. Aquele cara que chega espertão (“E aí, quanto vira?”), cheio de dinheiro, aquele esteriótipo do “eu posso tudo”, nem boa tarde falo com ele. Digo isso porque não é o argumento que a gente está preocupado em discutir. Mesmo assim, nosso carro é o mais veloz do campeonato paulista, com um motor de 160 CV. A gente fez em Interlagos um tempo de 1min47s. É muito rápido, só que há seis provas atrás o cara estava pilotando em Kart Indoor. Imagine a evolução técnica e o processo educativo e disciplinar que ele teve para fazer esse tempo. E com cuidado, preparação, acompanhamento. Não é um “ah, chega lá e anda”.

DM – Quem são os patrocinadores da Fórmula Inter?

Marcos Galassi – Nenhum! Eu digo que esse meu trabalho é meu recorde mundial. É o primeiro trabalho que faço há três anos sem ter um único cliente. Eu não tenho patrocinador. Tenho apoiadores. Tem a Pirelli, que me faz uma oferta de pneus, com subsídio financeiro, mas mesmo assim eu pago pelos pneus. Nós temos a Lapizta, que é uma marca de relógio nos Estados Unidos, que eu represento aqui no Brasil. Mas só a marca porque é impraticável trazer os relógios. O relógio Lapizta, aqui, iria custar R$ 8 mil, impossível. Tentei, não deu, mas estou trabalhando a marca. Tem uma coisa, que a gente resolveu adotar como bandeira com a Única, que é uma entidade representativa do setor sucroalcoleiro porque o automobilismo regional brasileiro anda de etanol desde 1990, mas ninguém chamou a atenção para esse detalhe. Nós já somos eco friendly faz tempo e nós assumimos essa coisa de sustentabilidade de uma maneira mais agressiva, nós promovemos o uso do etanol, independentemente de recebemos por, simplesmente por uma questão de posicionamento ante as novas gerações. É marketing, mas também é uma verdade incomensurável.

DM – A categoria paga televisão?

Marcos Galassi – Não. O Esporte Interativo, uma companhia da Turner, que olhou para a gente como uma categoria, na verdade, muito parecida com o que foi o Esporte Interativo anos atrás, que foi criada por alguns garotos que gostavam de esportes. Eles eram do mercado financeiro, fizeram o canal por gosto, amavam o que estavam fazendo e conseguiram crescer, depois de muita batalha. As chances de eles terem morrido no berço eram bastante grandes e eles viram na gente uma certa identidade de filosofia. Também somos jovens, batalhadores, idealistas, não temos medo de fazer diferente. Viram isso e resolveram comprar a gente em termos de investimento em nos ceder o espaço. Como você sabe, o Esporte Interativo foi comprado pela Turner, que é um mostro na mídia e vai fazer um bom barulho daqui dois, três anos. É uma casa televisiva importante porque o Brasil ainda é um país televisivo. Trata-se, na verdade, de os canais Esporte interativo porque são vários mesmo. Há o sinal aberto, por satélite, para 25 milhões de domicílios; aberto na Grande São Paulo para 5 milhões de domicílios e ainda todo o EMax2 para o pagante de cabo, com 2 milhões de domicílios. Isso dá para a gente uma distribuição muito maior do que daria um SporTV, por exemplo. Se somar todos os cais brasileiros de esportes, eles não chegam na metade do alcance do EI na mídia digital.

DM – Você comprou a fábrica do José Minelli?

Marcos Galassi – Não, não comprei a fábrica, mas ela é ocupada integralmente pela Fórmula Inter. Nós temos alguns compromissos, mas tem também o lado de acreditar no negócio. Nós mantemos a fábrica, ela é custeada pela Fórmula Inter, produza carros ou não. Para esse nível de preço, não podemos fazer um campeonato nacional. Será sempre regional, mas o objetivo é abrir franquias pelo país. Começar a criar um situação na qual a gente tenha diversas franquias regionais para manter os preços nos lugares certos, que se beneficiam de um guarda-chuva de mídia e uma plataforma industrial e manter os custos baixos. Se um menino bate hoje e quebra uma asa, ela custa uns R$ 700 porque é feita na nossa fábrica. Nós temos poucos funcionários, uma capacidade limitada. Se a gente botar força na fábrica, eu tenho a capacidade de produzir um chassi por dia e montar cinco carros por mês, que é bastante para o nosso tamanho. Além disso, a fábrica faz reparos que geram evoluções no carro.

Do carro Zero até agora, já introduzimos 34 modificação sem que se perceba olhando para o carro. Tudo é feito por nós na fábrica. Fantástico, né? É uma espécie de jogo dos 34 erros, ou seja, precisa olhar com muita atenção para perceber.

DM – Onde termina o investimento próprio para começar o resultado financeiro da categoria?

Marcos Galassi – Tudo o que a gente fez até aqui, incluindo a construção dos 22 carros e a montagem dos dez primeiros carros, foi com capital próprio. Daqui para a frente vamos montando na medida em que contratos forem fechados e já temos três carros sendo montados, mais um two-seater, dentro desse conceito. Você tem de limitar o investimento porque, do contrário, ele é infinito. Hoje nós somos a categoria com o maior número de datas disponíveis, 14, o que gera um fluxo de caixa. Passamos recentemente os motores no dinamômetro de rolo e a diferença do mais rápido para o mais lento foi de dois quilômetros. Eu fiquei surpreso, pois achei que seria de uns 8 km. Isso graças a eletrônica do pessoal da Pro Tuning, do Rio Grande do Sul. Eles são muito competentes Esse fechamento do carro é que fica caro. Um carro hoje para ser fechado custa em torno de 120 mil, sem contar o que já está pronto.

Se fosse uma categoria unicamente pensando no dinheiro, eu teria importado os carros. Esquece o passado. Se fosse levar em conta o passado, era para custa 40 ‘paus’ por corrida e não os R$ 13.990. Porque, queria ou não, a gente paga impostos, para juros – os bancos são perniciosos no Brasil. Os bancos são bandidos no Brasil. Eles corrompem o que a sociedade tem de melhor com a usurpação de um dinheiro que provavelmente nem existe. Eu estou cobrando juros de alguma coisa que talvez eu nem tenha no meu cofre. Isso e vergonhoso.

Mas como a gente não liga muto para querer amortizar e retornar, a gente pode amortizar a partir de um ponto aceitável para todo mundo. Então, a gente resolveu descartar tudo o que havia sido feito antes e tudo começa a partir de um carro que custa 120 mil.

DM – Qual é o futuro da Fórmula Inter?

Marcos Galassi – Sobre o futuro não posso dizer. O que posso dizer é o que a gente está fazendo para perpetuar a coisa. A gente está se isolando de toda crítica e sacanagem, dessa tentativa de comparar a gente com a Fórmula 3. Cada um pensa o que quiser, mas ninguém paga a minhas contas. Então, foda-se.

O que incomoda é que a gente chegou cagando as nossas próprias regras, Era um tal de não pode isso, não pode aquilo e eu mandei todo mundo se foder. Aí os caras começaram a ficar putos. Alguns pensaram que a gente iria concorrer com eles.

Criou-se uma cultura do automobilismo que acabou gerando uma genética diferente no piloto de automóvel. Então, o menino vai para o kart, é obcecado pelo sucesso, muito bem financiado, em geral respaldado por um pai que não tem limite na obsessão de fazê-lo campeão e amparado por uma arquitetura de pista, preparadores, que obviamente aprenderam a ser sanguessuga da situação. São perniciosos. Essa é a minha visão. Eu não levaria o meu filho lá porque eu não quero o meu filho vivendo com aquele povo. É horrível, mas é assim que funciona no Brasil, tem sujeito que aceita pagar. Esse cliente eu não quero. Porque o nosso carro não foi feito para servir de escada para o ego de ninguém. Nesse momento eu sou muito feliz. Não preciso de mais nada. Eu só quero que isso tudo dê certo.

DM – O que entende por dar certo?

Marcos Galassi – Tudo que perpetua é algo que é bom. O que não é bom não perpetua. Hoje a Fórmula Inter está muito baseada na minha figura e tendo eu como catalizador de intersecção entre os diversos personagens que fazem a Fórmula Inter. Eu não sou a Fórmula Inter, mas sou uma espécie de eixo onde todos rodam. Esse eixo por enquanto é necessário, mas o que eu digo para todos é: “Você têm de começar a ser autorregular”. Eu não quero que isso morra. O modelo está aí, eu posso ter uma sucessão familiar, mas eu também posso ter uma sucessão profissional. Esse foi um sonho familiar e a “familia” acabou aumentando. Veja o caso dos Minelli. Tudo começou com eles, incluindo essa nova geração, o Junior e o Willian, filho do José Minelli, que são os herdeiros da fábrica e, junto com meus filhos, da Fórmula Inter. Se você tiver um automobilismo bem feito, as pessoas podem realizar seus sonhos.

DM – Sonho de ser piloto?

Marcos Galassi – Sim, mas não exclusivamente. Sonho de fazer a diferença para as pessoas. Vou te dar um exemplo. Uma das crianças que encontramos no Campo de Marte era deficiente, um garoto de 15 anos. Tiramos da cadeira de rodas, colocamos no carro, tiramos fotografia, pareceu que ficou feliz e passou. Num belo dia, alguém me marcou no Facebook e fui ver. Era a mãe do menino, que com ele e mais duas filhas se deslocou da casa dela, longe para caramba, até Interlagos para ver a corrida da Fórmula Inter. E ela subiu com a cadeira de rodas do moleque e ficaram na arquibancada.  Ela não conhecia ninguém e o moleque se lembrava da situação. Pediu para ela levar, ela foi e gravou um vídeo da arquibancada:

“O som que invade o coração e transborda pelos olhos. Fórmula Inter”, escreveu. Por que? Porque o menino se emocionava. Depois ele foi outras vezes. Aí, dei agora um passe para entrar direto com o moleque. Ele está na AACD e todo mês tinha convulsões terríveis, de não conseguir respirar. Depois que ela começou a levá-lo para as corridas, as convulsões pararam. Entendeu? O que vai ser, cara, eu não sei. Mas algumas coisas valem a pena. Se vai durar 10 anos, 20 anos ou 10 minutos, Foda-se. O importante é o que é. Você quer saber o que é a Fórmula Inter? A Fórmula Inter é isso.

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14 COMENTÁRIOS

  1. Amigo Américo! convivo com a F-Inter desde o início e com oMG desde muito antes dela. PEssoa apaixonada,é exatamente como ele se decreveu.. Fala o que pensa doa a quem doer. Aprendi a confiar na conduta dele e de toda a equipe porque a paixao com que as coisas acontecem é enorme … Vc precisa sim sair de Vinhedo, passar aqui em Itupeva e vamos juntos assistir a uma prova …se quiser te pego ai…Grande abraco e obrigado por este lindo trabalho

  2. Acabei a série com lágrimas escorrendo. Desejo fortemente que a F-Inter e tudo o que ela representa perpetue por muito tempo. E que o Marcos ainda realize muitas “loucuras” na vida.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.