Na terceira parte da entrevista com o criador da Fórmula Inter ao Diário Motorsport, abrindo a série “Entrevistas Especiais”, o empresário fala do desafio que foi unir duas gerações de inteligências tão diferentes em prol da construção do carro, mas que das “faíscas” iniciais sobram hoje amor e respeito

Por Américo Teixeira Junior

As provas da Fórmula Inter estão integradas ao Campeonato Paulista de Automobilismo (Foto Rodrigo Ruiz/RRMedia)

Ontem, ao final da segunda parte da entrevista, o Diário Motorsport deixou a seguinte pergunta: “Mas antes de você falar do desenho do carro, queria saber uma coisa: foi fácil misturar a teoria dos estudantes com a experiência dos mais antigos? Foi de propósito, pois a resposta revela uma particularidade que quase emperrou o projeto, mas que se revelou do maior valor para que o carro e a categoria pudessem se tornar realidade.

Por outro lado, Marcos Galassi apresenta uma visão extremamente crítica às montadoras instaladas no país, a quem acusa de usurpadoras e vivendo numa espécie de mundo da fantasia, uma vez que “o negócio delas vai para o saco” em futuro não muito distante, de acordo com a sua avaliação.

 O GRANDE TESOURO RESULTANTE DA UNIÃO DA ACADEMIA COM A EXPERIÊNCIA

Entre outras, foi do engenheiro Cláudio Ceregatti (cabelos brancos) a ideia dos side pods laterais para aumentar a segurança (Foto Repordução Facebook)

Marcos Galassi – Um time de mais de 50 pessoas está envolvido nessa história. Por exemplo, eu contratei um engenheiro chamado Cláudio Ceregatti, que é um doido, apaixonado por automobilismo. Completamente maluco do ponto de vista da paixão que ele tem por isso, que me levou para a FEI [Faculdade de Engenharia Industrial]. Da FEI, eu trouxe os meninos, meia dúzia de meninos que são responsáveis pelos fórmulas SAE, são campeões mundiais. Ou seja, competem em alto nível. Quando eles chegaram, começaram a agregar soluções às minhas ideias.

DM – Explica melhor essa coisa dos meninos, por favor.

Marcos Galassi – Eu contratei o Ceregatti e dei uma posição para ele de gerente de projeto. Ele me levou a FEI, me apresentou tudo lá e também os estudantes. Aí eu contratei os estudantes. Em paralelo, eu já estava com o José Minelli, que está no mercado desde … – o primeiro carro que o Minelli fez foi em 1970. “Minelli, esse é o projeto, como vamos fazer”. Ele me disse que chamaria os melhores caras que ele conhece e assim fez. Ele trouxe o melhor torneiro mecânico nessa história de construir carro de corrida, o Brito. E trouxe um sujeito para ser soldador, conhecido como Danielzinho. E o Daniel, que tem um sobrenome impronunciável – acho que é nórdico -, era o soldador dos Polar na época do Ricardo Achcar. E ele soldou todos, eu disse todos, os 150 carros Super Vê da Polar! E hoje ele solda todos os Fórmula Inter. E produzi lá os primeiros lotes. O primeiro lote de 22 carros já está pronto. A fábrica já produziu tudo: suspensão, chassi, está tudo pronto. Na medida em que eu vou vendendo, vou montando.

Chico Lameirão também emprestou sua competência para a construção do carro (Foto Reprodução Facebook)

DM – Mas como esses dois grupos tão diferentes trabalharam junto?

Marcos Galassi – [O entrevistado começa a rir e coloca as duas mãos na cabeça] Agora, você imagine que eu pego aquele senhor que conhece tudo, não teoricamente, mas tudo na prática de como o chassi torce ou não torce, como um tubo dobra ou não dobra numa pancada, que tubo de aço usar etc, e mistura com a teoria dos meninos da FEI. Meu, foi um ano de caos. A velha geração não respeitava a nova, a nova tinha medo de falar com a velha. Com isso, as coisas foram se tornando caóticas. Para falar a verdade, eu acho que gastei muito dinheiro na integração dessas pessoas.

Hoje, eles funcionam como um relógio porque eles se amam, aprenderam a se respeitar. Na hora que viram o produto que eles tinham feito, de uma lado: ”Caralho, os moleques são bons”; do outro, “Caralho, o velhinho é do cacete”. Entendeu? Porque é!

Esse processo fez com que eu impregnasse o “nunca desista” no nome da categoria, que era o que? O bem que estava sendo feito a esses senhores, valorizados agora pelo que fizeram a vida toda, para produzir o carro que será o carro de fórmula brasileiro. E esse é o meu objetivo. Nos Estados Unidos tem a Indy, na Europa tem 30 categorias e no Brasil tem a Fórmula Inter. Eu faço uma analogia entre Indianapolis e Indy, Interlagos e Inter. O gaúchos pensam que é o Inter, mas não tem nada a ver com futebol.

Fato é, quando você vê o brilho nos olhos deles e dos moleques, cara, isso não tem preço! Porque ali, quando junta o time todo e olha para o produto que fez, e vê aquele produto passando pela pista e as pessoas curtindo, só vivendo isso tudo para entender. Eu tenho vivido experiências extremamente gratificantes na minha vida e elas estão ligadas à emoção que está conectada nesse monte de tubo e aço.

DM – Você ia falar do carro e eu cortei. Voltemos ao tema, por favor.

Marcos Galassi – Você já vai entender. Eu faço um negócio chamado F-Inter Day. Eu recebi um jovem de 30 anos, ele entrou no carro e começou a chorar. Para fazer o F-Inter Day, limitamos o carro de tudo quanto é jeito. É assim, o sujeito não bate, a não ser que ele aponte no muro de forma intencional. Pois bem, ele saiu para a pista, voltou e não parava de chorar. Ele nos disse que chorava porque, naquele momento, ele realizou o sonho da vida dele de andar num carro de Fórmula 1 ou o que ele relacionou com um carro de Fórmula 1. Essa é só uma passagem para entender qual era a proposta para o carro. O briefing era assim: “Tem de ser um carro de grandes dimensões, tem de ser um carro que a televisão goste dele. Como assim? Qual é largura de um carro de Fórmula 1? É 1,80 metro? Então nosso carro tem de ter 1,8 metro de largura porque ele tem de encher a pista como enche um Fórmula 1”. E a gente fez um carro com 1,8 metro de largura. Não dava para ser maior porque nem precisava, a gente estava no limite do chassi. Só para você entender os problemas que a gente venceu.

O primeiro lote dos Fórmula Inter é composto por 22 carros (Foto Rodrigo Ruiz/RRMedia)

DM – Vocês falam tanto em “não desistir” que eu fico com a impressão que você esteve a ponto de desistir. Foi isso mesmo?

Marcos Galassi – Uma vez não, umas 80 vezes! Vou dar um único exemplo para você. Esse projeto começou, na minha cabeça e na dos meus filhos, em 2012. Nós encontramos esses personagens todos e começamos a produzir o carro no começo de 2014. Eu acertei com o Minelli no final de 2013, no meio de 2014 eu assinei o contrato com ele e por dois anos nós trabalhamos no carro. O carro foi lançado oficialmente, aqui nesse estúdio meu, em agosto de 2015, o carro número Zero. Ele levou 18 meses para ficar pronto. Nós produzimos todos os chassis, todas as barras de suspensão, tudo o que era possível produzir na fábrica nós produzimos. Só faltava montar. Então, a gente resolveu o seguinte: nós vamos fazer o primeiro lote com 22 carros. Nós temos os 22 chassis e todos os conjuntos. Mas o primeiro carro a gente tinha de acertar, como base para todos os outros. E o primeiro carro tinha muitos problemas.

DM – Que tipo de problema?

Marcos Galassi – Eu fui o primeiro cara a andar no carro. Ele estreou em algum momento na pista da Pirelli e eu andei apenas por uma questão cerimonial. E o carro quebrou. O câmbio. O câmbio, a gente pensava que ia colocar um de quatro marchas para deixar barato, comprado no mercado, uma derivação de Volkswagen, que qualquer um desses mecânicos espertos fazem. E ia custar X. Quando a gente lançou o carro aqui, o preço do magnésio aumentou, o preço do cambio aumentou, tudo aumentou. “Peraí, não vão fazer isso comigo, não vão mesmo”. O que fiz? Cheguei para o cara do câmbio e falei “Meu, seu câmbio é uma merda, fui andar, já sai roncando”. Ele: Ah, mas é assim e custa 9 paus [R$ 9.000,00]”.

DM – Na base do dá ou desce…

Marcos Galassi – Exatamente. Aí eu falei para o Minelli: ”O que a gente faz, mando ele tomar no cu e vamos importar câmbio da Argentina? – Tem um câmbio na Argentina que sairia para a gente por US$ 3,500. Aí o Minelli veio com uma solução. Ele conhece um cara que tem uma fábrica de engrenagem para trator e fomos lá. Aí pegamos um câmbio Hewland MK9 e copiamos, ipsis litteris, milímetro a milímetro e produzimos todos os câmbios. Hoje eu tenho 25 câmbios produzidos no Brasil.

DM – Mas isso é legal?

Marcos Galassi – É assim, como a Hewland não tem os direitos do câmbio, pois na verdade é uma derivação de Volkswagen, então, nós podemos reproduzir aqui. Existem várias versões do MK9 pelo mundo. A mais famosa é a da Hewland. A gente pegou isso e reproduziu no Brasil. E o câmbio funciona. É um câmbio de competição, cinco marchas em H. Qualquer coisa mais moderna iria encarecer demais o projeto para o consumidor final, então, optamos por essa versão. Só que fazer um câmbio é científico, investimos muito nas ferramentas.

DM – E o motor?

Marcos Galassi – Eu fui em todas as montadoras, nenhuma deu sequer bola para mim. Eu quero que as montadoras se fodam, para falar a verdade. Eu não preciso delas para nada. Aí eu escolhi uma marca, comprei um bloco e um cabeçote. Eu falei: “O bloco e cabeçote têm de ser originais, não pode ter taxa, não pode ter nada. Do jeito que sair da caixa a gente coloca os nossos componentes”.

Nós fizemos os coletores de ar, o sistema de aceleração, o coletor de admissão, o cárter seco, o sistema de lubrificação foi renovado, as polias do motor, a correias que a gente usa. Ou seja, tem o bloco e o cabeçote do fabricante, o resto nós produzimos. É “fodido” o que a gente está fazendo.

Que montadora me ajudou? Nunca, nenhuma. Tiveram interesse? Nunca, nenhuma. E esse é o mercado brasileiro. Elas usurpam o país e não dão nada em troca para quem os auxilia a vender carros, inclusive. E elas têm de ficar muito atentas a tudo isso, porque daqui a pouco o mercado deles vai para o saco.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Cada vez mais interessante. É engraçado ter participado disso tudo e lendo, dá a nítida impressão de ouvir o Galassi falando. Ele é isso mesmo gente!

  2. Eu também dei uns pitacos na asa dianteira, qdo a coisa ainda era só virtual. Galassi é um sujeito fora da curva. Do Ceregatti não digo nada, pois é meu amigo desde sempre. e da turma envolvida, dizer o que?

  3. Esse cara “Marcos Galassi” é FODA! E obrigado ao Americo Teixeira Jr. por nos dar essa oportunidade de ler e saber tudo sobre a Formula Inter. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.