Empresário dos setores de comunicação e novas tecnologias, entusiasta do automobilismo e criador da categoria de monopostos Fórmula Inter, o paulista Marcos Galassi é o primeiro convidado da série Entrevistas Especiais do Diário Motorsport

Por Américo Teixeira Junior

Marcos Galassi entre os filhos Alexandre (esq.) e Erick, também membros da Fórmula Inter (Reprodução Facebook)

Faltariam horas para que essa entrevista pudesse ser realizada, não fosse a disposição do entrevistado, naquela tarde de julho em São Paulo, em empurrar alguns compromissos para que pudesse atender a reportagem do Diário Motorsport e sua extensa pauta. Simples na formulação e complexa no conteúdo, a questão central era a seguinte: “Quem é, o que pensa e o que faz Marcos Galassi, o empresário paulista de 58 que meteu a mão no bolso e criou do zero uma categoria de monopostos, a Fórmula Inter?“.

Com visão muito objetiva sobre o que é o mercado, pouco convencional na maneira de executar seus projetos, dotado de um desapego pouco visto no meio empresarial e com uma experiência pessoal nada comum – literalmente morreu por alguns minutos tempos atrás – Marcos Galassi atrai opiniões díspares. Há quem seja apaixonado por ele; outro o definem como maluco. Fato é que tem muito a dizer e o Diário Motorsport oferece a oportunidade para que o Leitor, de hoje até a sexta, 11, construa sua própria opinião.

AUTOMOBILISMO ENQUANTO NEGÓCIO

A Fórmula Inter tem chassis construídos pela empresa Minelli Racing (Fotos Rodrigo Ruiz/RRMedia)

Diário Motorsport – Na sua opinião, como é o negócio Automobilismo no Brasil?

Marcos Galassi – Não tem negócio de automobilismo no Brasil. O que há é o retrato do Brasil. Nós não temos um Brasil institucionalizado, correto, perfeito, com bons exemplos. Nós não temos segurança, saúde, educação… E no automobilismo é isso. Nós não temos arenas, temos muito poucos praticantes proporcionalmente à população do país, nós não temos uma legislação que promova de forma bacana, que não tire de um para dar para o outro. Quer dizer, não dá para ver o automobilismo brasileiro como negócio. Eu vejo muitas situações artificiais funcionando. “Ah, tem aquela categoria que está indo bem porque está se valendo muito de leis de incentivo para manter as equipes funcionando etc.”. Mas essas leis de incentivo, na verdade, estão tirando dinheiro que iriam para a escola, hospital, município. No meu ponto de vista, isso está errado porque eu acredito num negócio chamado livre iniciativa, que é uma questão de oferta e procura por um produto, produto versus preço e aí uma demanda para esse produto. Ou não. Pois se não há uma demanda por um produto, não há razão para o produto existir.

DM – Há demanda no automobilismo?

Marcos Galassi – Eu vi a Fórmula Truck como a maior categoria nacional porque, de fato, eles tinham um show nas mãos que levava as pessoas para a arena. Ou seja, eles tinham um “circo” que andava pelo Brasil e que atraía pessoas, patrocinadores, ou seja, a base, do chão para cima, não da mídia para baixo. Isso para mim era muito legítimo. Tiveram os problemas que tiveram, que eu acho que não é bom para nenhuma das partes. Mas, fora isso, eu vejo um mercado de praticantes, que são os que estão nos campeonatos regionais, cada vez mais envelhecido. Não há uma renovação. Você vai no Campeonato Paulista, os praticantes são pilotos com faixa etária acima dos 35 anos. São minoria os pilotos com 18, 19 e 20 anos, que estão iniciando. Eles passam por ali, percebem que não tem um produto adequado ao padrão deles de consumo – eles hoje não aceitam mais qualquer coisa – e vão embora. E o mercado do automobilismo tem vivido dessa reciclagem – eu vou chamar de vítimas – por anos. E o que acontece? Tanto aqueles que estão lá praticando, como os que estão lá dando atendimento para esse mercado – preparadores, por exemplo – estão envelhecendo. É mais ou menos o que aconteceu e acontece com os leitores de revistas. A editoras de revistas estão indo de mal a pior por uma razão: seus leitores estão morrendo.

“No Brasil acontece a mesma coisa com o automobilismo: os praticantes estão morrendo! E não é nem por acidente. Eles morrem de velhice, mesmo, e não tem uma reposição”. 

DM – Mas, apesar disso tudo, você criou uma categoria que é, obviamente, um negócio…

Marcos Galassi – Sim, mas aí eu volto com a história da oferta e demanda. A gente passou por um período muito bacana de crescimento econômico. Por A, por B ou por C, nós crescemos. Ok? Não estou aqui colocando o mérito desse crescimento, nem como ele ocorreu, nem de que maneira isso aconteceu. Mas, sim, houve um crescimento. Constatou-se um crescimento, uma maior distribuição de renda, um maior afluxo de dinheiro no mercado. Com isso, a classe média ascendeu um pouco aos patamares que ela costumava ascender. Vamos pegar o perfil médio do consumidor do automobilismo. Em geral, um ser humano masculino, entre 15 e 55 anos de idade – veja a extensão desse range. Em geral ele está na classe média, que é aquela que tem algum poder para chegar em algum nível da oferta do automobilismo.

DM – Então o automobilismo poderia ter crescido crescer muito nessa época…

Marcos Galassi – Sim, mas não ocorreu porque o automobilismo foi vitima de um negócio chamado mercado. O sujeito, ao invés de ir para Interlagos ou para um outro autódromo qualquer pelo Brasil, resolveu comprar uma Harley Davidson e passear com os amigos no fim de semana. Ou ele foi até Boituva e se filiou ao clube de paraquedismo e vai para lá duas vezes por mês. Ou, então, comprou uma camionete, Mitsubishi ou Toyota, e resolveu viajar para o Atacama.

“Resumindo, ele passou a ter uma série de outras ofertas ligadas ao seu entretenimento e ao seu prazer pessoal, que não o automobilismo”.

Somado a isso, a gente tem uma geração cada vez menos atraída pelo automóvel. Isso é um fato. Essa geração não anseia por ter um automóvel como a minha geração – eu nasci em 59 – ansiava. O sonho de todo moleque de 18 anos em 1978 era ter um carro. Uma Puma, um Passat. Nem que fosse um fusca rebaixado já estava bom – já era um luxo ter um fusca rebaixado. Mas isso hoje mudou porque os parâmetros de consumo mudaram. Com o acesso global a informação, os desejos são, por exemplo, viajar para o Nepal, estudar em Harvard ou atravessar o Atlântico de veleiro. Ou seja, há outros sonhos e outras perspectivas de vida que antes não havia. Antes, o automobilismo preenchia essa frente, mas hoje tem uma concorrência brutal.

A categoria integra a grade do Campeonato Paulista de Automobilismo (Foto Rodrigo Ruiz/RRMedia)

Então, porque eu resolvi entrar nesse negócio?

Porque eu percebi que o automobilismo, se a gente fosse enxergar como um prédio, é um prédio que tem a cobertura, onde estão os chamados players profissionais, categorias profissionais como a Stock Car com o seu range de ofertas, com as suas subcategorias. Tinha a Fórmula Truck até agora e a partir de agora a Copa Truck, com uma delas ou ambas preenchendo esse nicho. Isso eu chamo dos profissionais. São sujeitos que recebem para correr, profissionais trabalhando, pessoas que vivem do automobilismo e dele extraem seu sustento. Sejam muitos, sejam poucos, eles estão ali.

“Dessa cobertura do prédio para baixo, até o térreo, não tem nada”.

No térreo temos os praticantes, É aquele aficionado pelo automobilismo, já numa idade mais avançada, depois dos 30 anos de idade, provavelmente a maior parte deles com seu próprio carro, o pequeno preparador, indo para as competições regionais. Tudo isso para o seu lazer. Não é uma profissão. É uma paixão e ele investe ali um pouquinho de dinheiro, uma vez por mês, uma vez a cada dois meses ou mesmo num intervalo maior, quando decide participar de uma etapa do Campeonato Paulista.

DM – Sob esse raciocínio, onde se encaixam as demais categorias?

Marcos Galassi – No meio desse caminho, a gente encontra alguns andares preenchidos. Um deles é o andar do gentleman driver. São muito bem organizadas, que oferecem um produto para uma classe social que tem um poder aquisitivo tal que exige um determinado nível de qualidade. Há um preço para um produto e um mercado que consome aquilo. Não é um mercado que a gente possa chamar de desenvolvedor do automobilismo nacional. Um pouco abaixo dele há algumas categorias que foram criadas também olhando para o gentleman driver.

“[Gentleman Drive] que é aquele cara que está entre 25 e 45 anos tipicamente, que tem dinheiro para gastar”.

Aí a gente viu, por exemplo, a Mitsubishi atuando pela Lancer Cup. Abaixo disso eu vi uma iniciativa muito bacana que foi do Tarso [e Thiago] Marques com a Sprint Race e a seguinte lógica: fazer um bom carro sob o ponto de vista do consumidor do automobilismo e oferecido por um preço que não é o do gentleman driver, mas num nicho que ainda há consumidores que possam pagar. Com isso, criou uma categoria de turismo, com carros honestos, boa qualidade, mas também com oferta restrita, 15, 20 carros – não sei exatamente quantos carros eles têm.

A categoria foi criada para atender não apenas a “ponta da pirâmide (Foto Rodrigo Ruiz/RRMedia)

Aí a gente olhou para isso aí e perguntou: E fórmula no Brasil?

Tem a Fórmula 3, no topo, naquele momento em que a gente pensou nisso estava associada à constelação da Stock Car. Uma categoria nacional e marca mundial. Já tem o status de ser um degrau lógico para a Fórmula 1 ou para automobilismo profissional de fórmula em qualquer parte do mundo, mas com um nível de demanda financeiro muito elevado, fazendo com que eles só possam explorar uma ponta de uma pirâmide de oferta. Embaixo, duas categorias mais.

“A Fórmula Vee, que eu achava extremamente divertida, uma coisa muito bem feita – eu cheguei a ver grids da Fórmula Vee com 30 carros”.

Depois, por razões A ou B, acabou se dividindo e se transformando na Fórmula 1600 e Fórmula Vee. E elas estão aí sobrevivendo cada uma com seu nicho de cliente. A Fórmula Vee está mais voltada para a parte de escola e a 1600 para o praticante.

No Sul, havia as fórmulas Junior e RS quando a gente começou a pensar na Fórmula Inter. Eram fórmulas organizadas, mas apenas no Rio Grande do Sul. Elas atraíam pilotos do Brasil inteiro, a gente pesquisou isso. Tinha piloto do Piauí que vinha correr no Rio Grande do Sul. Eu achei isso bacana. Na verdade, era o que tinha para você sair do fórmula baseado em pneu radial para um acessível com pneu slick.

E no meio do caminho não havia mais nada. Entre essa categoria RS e o topo do prédio, com a constelação da Stock Car, havia um vazio.


A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM O EMPRESÁRIO MARCOS GALASSI SERÁ PUBLICADA AMANHÃ, TERÇA-FEIRA, 8 DE JULHO.

Compartilhar

4 COMENTÁRIOS

  1. Américo , amigo, vc sabe que tento me manter afastado e evitar o ufanismo que por vezes nos trai e nos deixa demais envolvidos com paixão onde deveríamos estar envolvidos apenas com a razão. Faço parte dos voluntários deste projeto e acompanhei desde o início da concepção da coisa toda desde a ideia inicial. Posso ver diariamente a seriedade com que cada detalhe é tratado, a responsabilidade com que cada termo é tratado e o caminho ainda é longo e trabalhoso, claro. Somos apaixonados, um bando de voluntários e profissionais apaixonados pelo esporte e pelo” fazer-bem-feito” que faz o dia a dia da nossa categoria. Seria um prazer enorme ter vc pelo menos um dia em nossos boxes p conviver desta nossa paixão com a gente. Abraços amigo.

  2. Excelente matéria Américo. Você sabe que estou nessa estrada há muitos anos. Agora coloquei todas as minhas fichas na Fórmula Inter e estou mergulhado até a sola do pé (só que de ponta cabeça), nessa categoria que me dá muito prazer e satisfação. Acredito e torço para que Marcos Galassi e a FInter cresça muito e nós com ela.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.