A temporada 2016/2017 da Fórmula E repetiu as duas anteriores e só teve seu campeão conhecido na última rodada

Por Américo Teixeira Junior

Faltou um tiquinho no ano passado, mas agora Lucas Di Grassi é campeão da Fórmula E (Fotos FIA FE Media)

Lucas Di Grassi sempre sonhou com a Fórmula 1 e, de fato, lá chegou. Porém, para esse paulistano que no próximo dia 11 completará 33 anos, a experiência diferiu bastante daquilo que um dia ele deve ter imaginado. Mesmo com a aproximação muito sólida com a Renault durante algum tempo, sobrou-lhe um assento na Virgin Racing, de Richard Branson, e não tinha muito o que fazer com o VR-01 de 2010. Mas se aquele ano foi o bastante para jogar por terra tudo aquilo pelo qual trabalhara por tanto tempo, passados somente sete anos ele agora comemora o título da Fórmula E, ponto alto de sua carreira até aqui.

Essa trajetória, que o fez sair de uma espécie de “fim de feira” para o topo da inovadora categoria, teve como principal propulsor sua própria personalidade empreendedora e irrequieta. Tamanha é a veemência com que defende suas posições e luta por sua carreira que é considerado arrogante e prepotente por alguns, Na verdade, Lucas demonstra ter muita pressa, sempre buscando e criando, independentemente do patamar já alcançado.

É inteligente, culto, bem articulado e sempre criou ótimos relacionamentos pela característica de ir sempre buscar as coisas. Mais do que isso, é alguém que enxerga muito além da atividade de pilotar. Foi um dos primeiros a se envolver no projeto da categoria de carros elétricos e, atualmente, está numa outra frente, o o carro de corrida sem piloto. O nome disso é Roborace.

Às vezes, “mete o pé na jaca”

De campeão para campeão: o brasileiro e o multicampeão da IndyCar e de Indianapolis, Dario Franchitti (Foto FIA FE Media)

Lucas é também ansioso, essa condição própria da juventude que, às vezes, provoca tanta dor de cabeça. Não fosse isso, teria evitado a precipitada manobra que resultou na batida em Sebastien Buemi na final de Londres do ano passado, nem teria se exposto a risco às vésperas da 24 Horas de Le Mans deste ano (machucou-se num inocente futebol e não conseguiu participar da prova). Muito menos teria de se manifestado de forma tão infeliz nas redes sociais, dirigindo-se à equipe do canal Fox Sport Brasil, que se desdobrava para fazer a mais longa transmissão da prova francesa, ao vivo, na televisão brasileira.

Por outro lado, fosse letárgico e omisso, não teria conquistado um dos postos mais cobiçados do automobilismo internacional, o de piloto titular da Audi no circuito mundial de endurance. Paralelamente, não só ajudou em sua criação, mas também se transformou em um dos principais protagonistas da Fórmula E.

Correndo pela ABT Schaeffler Audi Sport, passou raspando nas duas primeiras temporadas. Na conquista de Nelson Angelo Piquet no campeonato estreia, 2014/2015, terminou em 3º. Foi vice na seguinte, a de 2015/216, vencida por Buemi. A agonia da espera terminou em julho, na rodada dupla final em Montreal. Vencedor no sábado e 7º no domingo, 29, pôde, enfim, comemorar.

Profissional de futuro

A Fórmula E corre em cenários onde os promotores das demais categorias apenas sonham (Foto FIA FE Media)

Dotado de uma capacidade de comunicação muita acima da média, em se tratando de pilotos, Lucas tem as características de um autêntico líder e, aparentemente, sua carreira como piloto continuará ainda por bom tempo no mais alto nível, principalmente agora, sem o peso nas costas após o título da Fórmula E.

Mas como sua inquietude sempre impõe novos desafios, talvez seu futuro seja mais promissor ainda como empreendedor, realizador e articulador técnico/desportivo/político. Qualidades não lhe faltam dentro e fora das pistas. Isso é fato. E se sufocar a ansiedade ruim com a ansiedade boa, aquela que faz avançar e não tropeçar, aí mesmo que ninguém segura Lucas Di Grassi.

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Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.