Le Mans não é apenas uma prova de resistência física ao longo de 24 horas, é muito mais do que isso

Por Américo Teixeira Junior - Foto Destaque José Mário Dias

Pole position para o Toyota TS050 #8 Sébastien Buemi, Kazuki Nakajima e Fernando Alonso (Foto Jean-Pierre Epitalier/ACO)

Nenhuma prova de 24 horas é fácil e a de Le Mans, cuja edição de 2018 acontece neste fim de semana, é um exemplo disso. Apesar de durar um dia inteiro, é uma corrida muito rápida e que cobra um preço alto em todos os níveis.

É óbvio que o equipamento tem de ser forte e resistente o bastante. Mas se numa prova sprint os problemas se acumulam, o que dizer de uma que tem mais do que uma temporada inteira da Fórmula 1 dos anos 60? Construção, preparação do equipamento, logística e estratégia formam uma operação tão desafiadora que terminar Le Mans, independentemente de resultado, é uma vitória que estufa o peito de orgulho e inunda os olhos de lágrimas.

Mas de nada adianta o equipamento ter a resistência necessária sem as pessoas dentro e fora da pista. Não basta apenas a resistência física, mas também de ter estrutura psicológica, equilíbrio emocional, o controle sobre as exigências do corpo, surpreendente poder de concentração, disciplina dos monges, capacidade superlativa de trabalhar em equipe e racionalidade para tomar e executar medidas de emergência.

Há uma espécie de overdose de energia em praticamente todos os que estão envolvidos com a competição, direta e indiretamente, mas que não dura o tempo todo. Além do pessoal das equipes, há fiscais de pistas, jornalistas, equipes técnicas, voluntários, público, operadores das atividades paralelas de promoção e entretenimento, serviços de socorro, convidados e muito mais.

O lado mais difícil de Le Mans é o amanhecer de domingo. Depois de toda a programação de pré-corrida, a excitação da largada e da noite em claro, a resistência desaba quando o dia começa a clarear e se sabe que, para a bandeirada, há ainda quase a metade da prova.

Se fosse para cumprir esse “relógio biológico”, a coisa toda terminaria às seis da matina do domingo. Mas como não é isso que acontece, tudo tem de ser mantido com alto grau de eficiência. Na teoria, para esse objetivo existem as escalas de trabalho e descanso. Mas quem disse que alguém consegue realmente descansar em Le Mans? Muitos tentam, poucos conseguem.

No fundo, no fundo mesmo, há um elemento oculto que é responsável por toda essa engrenagem funcionar. Sem ele, não importa toda a tecnologia e avançados estudos teóricos. Le Mans é uma intensa experiência de superação pessoal, de se doar, de se entregar de corpo e alma. E talvez a palavra que melhor traduza esse sentimento venha da língua inglesa: Commitment.

Isso é Le Mans e não dá para explicar, só indo lá para saber.

Muito trabalho em todas as esferas que envolvem a realização da prova (Foto Dominique Breugnot/ACO)

Compartilhar

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.