Imbuído do propósito de vender o Autódromo de Interlagos, o prefeito de São Paulo tenta queimar etapas para aprovar seu projeto na Câmara Municipal, mas encontra forte resistência da comunidade do automobilismo e membros do Legislativo Municipal

Por Américo Teixeira Junior

Há também a questão histórica de Interlagos como elemento de forte intensidade para a luta por sua preservação (Na foto, do Arquivo Dana, Wilson Fittipaldi Junior e o Copersucar-Fittipaldi FD02 no Grande Prêmio do Brasil de 1975)

Apesar de seu estilo “trator” e personalista, o prefeito João Doria não tem um projeto sólido e definitivo para a privatização do Autódromo Municipal José Carlos Pace, no bairro paulistano de Interlagos. Mais: açodado, optou pelo atropelo do processo legislativo ao invés de apresentar uma propositura sólida. Ao contrário, fez da PL 705/2017, que trata do assunto, um verdadeiro “queijo suíço”, tamanha a quantidade de brechas para questionamentos de forma e conteúdo. Independentemente de essa sequência ser resultado de sua vivência como empresário ou ditada pelos projetos políticos que possui, fato é que pavimentou o caminho para mais uma derrota em sua curta gestão.

Colocado no mesmo pacote de “estado mínimo” com áreas como o Palácio de Convenções de Anhembi, Estádio Paulo Machado de Carvalho e o Parque do Ibirapuera, o complexo automobilístico mais importante do país tem sido alvo do bombardeio desde a campanha do empresário que, a partir da posse, manteve o discurso. Discurso. Esse é o termo.

Tudo o que se apresentou até agora foi uma espécie de “carta de intenções” e um desenrolar em diversos capítulos, muitos deles geradores de situações ridículas para o gestor municipal. Algumas, em particular, entraram para o anedotário, como os desmentidos de Bernie Ecclestone e Pirelli às declarações de Dória quanto ao interesse do ex-chefão da Fórmula 1 e da multinacional pelo autódromo.

Bruno Covas é o atual vice-prefeito e assumirá o lugar de Doria a partir de abril (Foto Cesar Ogata/SECOM)

Fragilidade jurídica

Em termos jurídicos, somente em outubro passado que foi encaminhado à Câmara Municipal o Projeto de Lei 705/2017, que “Dispõe sobre a alienação do imóvel denominado ‘Complexo Interlagos’, no âmbito do Plano Municipal de Desestatização”.

Com o apoio de sua base aliada, Doria tentou pular etapas para o acelerar a aprovação. Após a aprovação em primeiro turno no dia 8 de dezembro de 2017, a tropa de choque do prefeito tentou votar, logo a seguida, em segundo e definitivo turno. Tal procedimento fere frontalmente o Regimento Interno da Câmara Municipal, que exige a discussão, após vencida a primeira etapa, em audiências públicas anunciadas com antecedência para a participação da população.

Essa manobra só não foi coroada de êxito porque sua execução foi impedida pela bancada de oposição e pela presença constante, em torno do tema, de órgãos de defesa do autódromo o kartódromo, como a Comissão Interlagos Hoje, liderada pelo diretor de provas Sérgio Berti e o empresário Orlando Sgarbi Filho.

Já a Federação de Automobilismo de São Paulo, baseando-se nas falhas técnicas e de conteúdo do Projeto de Lei, fez uma petição ao Ministério Público do Estado de São Paulo, para impedir a privatização. O documento foi protocolado por Berti e por David Chien, advogado que assiste a FASP nessa ação.

Praticamente todos os principais pilotos brasileiros que construiram carreiras vitoriosas no automobilismo internacional começaram no Kartódromo de Interlagos, hoje Ayrton Senna (Foto Miguel Costa Junior)

Pressa

Uma outra manobra da base aliada do prefeito foi feita em no dia 8 de março, quando houve audiência pública sem comunicação prévia, apenas para cumprir tabela. Ontem (21 de março), porém, houve a segunda audiência pública da Comissão de Política Pública, Metropolitana e Meio Ambiente, presidida pelo vereador Toninho Paiva, do PR. Essa sim com a participação da comunidade do automobilismo, com manifestações contundentes de Sérgio Berti e do jornalista Wagner Gonzalez.

São tantos os argumentos levantados contra a privatização, com enorme pertinência jurídica e econômica, que o próprio presidente da comissão informou sobre a intenção de realizar nova audiência pública. E já surgem posições alternativas, como a do vereador Rodrigo Goulart (PSD), que sugere a transformação da privatização (venda pura e simples) para concessão, algo não aventado pela prefeitura.

Mas se o prefeito tem pressa em aprovar a PL 705/2017, há outra questão correndo paralelamente que atinge em cheio a praça esportiva e as áreas de mananciais de seu terreno de quase 1 milhão de metros quadrados. Trata-se do Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Arco Jurubatuba, do qual o autódromo faz parte e considerado “prioritário” pelo Plano Municipal de Desenvolvimento (PMD), trabalho elaborado pela Secretaria Nacional de Desestatização e Parcerias (SMRG) “em consonância com a Meta 18 do Programa de Metas 2017-2020” de João Dória.

Na prática, essa “sopa de letrinhas” tenta mudar as normas de zoneamento para que a área do autódromo tenha seu valor multiplicado em várias vezes. Atualmente, há limites no que tange à edificação, visto de tratar de um Parque Público. Mas o PIU modifica isso, ampliando a permissão para edificações maiores, como prédios residenciais, hotéis, torres corporativas etc.

Isso ocorre porque não houve o estabelecimento de diretrizes concretas, por parte do PMD, sobre o modelo de negócio para o autódromo, de modo que o autódromo passou a ser designado como Zona de Ocupação Especial a ser regulamentada pela PIU. Esse é o instrumentos que oferece a Interlagos uma espécie de “banho de loja” para atrair compradores.

Foram no Kartódromo de Interlagos as primeiras aceleradas de Emerson Fittipaldi após deixar a Fórmula 1; Mario de Carvalho, à esquerda da foto tirada em 1983, fixou-se nas cercanias de Interlagos como o maior fabricante de kart do Brasil (Foto fornecida por INOVAPRESS)

“Faltou combinar com os russos”

Some-se a isso o fato de haver um contrato em vigor, assinado pelo então prefeito Fernando Haddad e a empresa promotora International Publicity, que demanda uma série de obrigações para a prefeitura, a utilização – e, consequentemente, a prestação de contas – de recursos do PAC e a realização do Grande Prêmio do Brasil até 2020, inclusive.

Mesmo se tive um planejamento sólido sobre a mesa – contemplando soluções para todos os entraves econômicos, jurídicos, esportivos, sociais, estruturais e logísticos que a empreitada demandaria -, já não seria tarefa fácil privatizar Interlagos. Mas, além de não o ter, o ainda mandatário municipal flertou com a presidência da república e com o governo do estado de São Paulo, numa manifesta intenção de não concluir o mandato. Alijado da primeira pretensão, o prefeito abreviará sua presença no Viaduto do Chá, pois deixará o cargo em abril para concorrer ao governo do estado.

Em meio aos inúmeros equívocos de sua gestão, Doria é o grande derrotado desse processo, Na verdade, transformou-se em pesadelo para toda uma comunidade o seu discursos de privatização e desenvolvimento. Mas o pesadelo transformou-se em forte frente de luta.

Há, obviamente, um longo caminho pela frente mas, para essas questões e outras, o fôlego do prefeito acabou, tanto que está partindo para outra.

Foto de Capa/Destaque: Cesar Ogata/SECOM

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6 COMENTÁRIOS

  1. Este João Dória está se mostrando um político estabanado. Como pode alguém com um mandatinho de 04 anos achar que pode destruir uma história do começo do século 20? Ele está cometendo suicídio político. Será que não enxerga o óbvio?

  2. Mesmo não sendo o assunto em questão mas há que se considerar a pergunta.
    Como que um sujeito que jamais administrou uma industria, comercio ou o que valha, ficou milionário ?
    Já demonstrou seu caráter (ou falta dele em várias oportunidades) sendo assim seria de boa valia para o estado que o MPF fizesse uma grande investigação a respeito, mesmo porque o sujeito é candidato a um cargo executivo em se utilizará de dinheiro público para suas pretensões.
    O que isso teria a ver com a venda do autódromo?
    Qual o intuito de um governante vender uma área de lazer pública senão for para seu próprio benefício ?

  3. É uma insanidade vender um patrimônio não só do Brasil, mas do mundo do esporte a motor. Interlagos é de São Paulo e do Mundo todo. Não está à venda e jamais estará. Dória saindo no início do mês já é uma grande vitória, pois o vice prefeito Bruno Covas já se mostrou contra a privatização. Interlagos é nosso!!!

  4. Conforme falei diversas vezes, inclusive na cara dos vereadores na Audiência Pública, o PL 705/2017 não passa de um samba do criolo doido feito em uma folha de papel A4. Questionei a mesa, como a Câmara pode aceitar semelhante porcaria, deixar passar pela Comissão de Constituição e Justiça e ainda aprovarem em votação. Silêncio.
    Foi feito pela turma do janota que não sabe fazer um O com fundo de garrafa. Basta ver que é mal escrito, confuso e muito inferior à qualquer projeto de colocação de nome de ruas na periferia. Não tem Exposição de Motivos, Justificativa da Solução, Dados, nada. E ainda por cima consegue se desdizer em seus artigos e parágrafos tal a confusão da peça.
    Americo Teixeira Junior deixa muito claro em seu artigo como jornalista especializado as besteiras do prefeito.
    Não é de se admirar que o “jestor” que nunca geriu fábrica, comércio, banco ou barraquinha de cachorro quente pudesse dar certo. Não deu.

  5. Parabéns pela sua postura na colocação efetiva do que ocorre atualmente com nosso Autódromo de Interlagos, Estive presente na “audiência” de ontem, sentindo a falta dos dirigentes responsáveis pela “supervisão $” nacional do esportes automobilismo, do pouco que restou, é claro (Mas como não havia distribuição de credenciais para a F1, a ausência esta justificada). Consegui fazer constar a importância do Autódromo de Interlagos a nivel internacional, uma vez que o Brasil é o único país que abriga há 46 anos consecutivos o maior evento automobilístico do mundo, a Fórmula 1, trazendo para São Paulo um retorno financeiro cinco vezes maior do que seu custo, além de projetar a cidade e o pais para o mundo inteiro a custo zero, ou melhor, com lucro.

    Não podemos deixar que Interlagos se torne um Jacarepaguá, que foi destruído pela inoperância do presidente da CBA (Cleyton Pinteiro), que não se acorrentou nos portões do autódromo como havia prometido e outras coisitas mais. Dentre os quais, é importante relembrar, a quebra de um acordo na Justiça, deixado por nós, que obrigava o poder público a concluir o novo autódromo do Rio, antes de tomar posse de Jacarepaguá. Por razões que somente o ex-presidente pode responder, as garantias conseguidas em nossa gestão foram desconsideradas, restando Jacarepaguá apenas na história e nos corações dos automobilistas.

    INTERLAGOS COMO PISTA E SÃO PAULO COMO CIDADE SÃO OS UNICOS MOTIVOS PARA ABRIGARMOS EVENTOS DE GRANDE PORTE.

    • Acompanhei o olhar dos vereadores quando o Paulo Scaglione falou e percebi que sua posição de ex-presidente da CBA fez com que redobrassem a atenção.
      Os vereadores são suscetíveis à opinião dos dirigentes do esporte.

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.