Nessa segunda parte de “Entrevistas Especiais” com Djalma Fogaça, o campeão do automobilismo abre o coração e se emociona ao falar dos erros que acredita ter cometido e das dificuldades enfrentadas diuturnamente para superar uma fase difícil, que já dura quatro anos

Por Américo Teixeira Junior

Djalma Fogaça sobre a esposa: “Fabiana é uma grande mulher” (Foto reprodução do Facebook de Djalma Fogaça)

O Djalma Fogaça sorridente e descontraído é muito conhecido dentro e fora do automobilismo. A imagem do “Monstro” é imediatamente relacionada ao jeito irreverente e suas conquistas garantem a ele um lugar especial na história do esporte nacional. Paralelamente à carreira de sucesso, montou uma linda família e seu apreço pelo esporte que abraçou está em cada canto do ambiente que o cerca.

Há, porém, um Djalma Fogaça triste, pensativo, solitário. Magoado, até. Essa face se revela quando ele fala da falta de patrocínio, das dificuldades que colocam a própria existência da sua equipe na corda bamba, além do fato de ser extremamente cruel consigo mesmo na hora de avaliar erros e acertos. O mesmo homem que resgata filhotes de gambá e acorda de madrugada para alimentar os cinco bichinhos, é muito duro com ele próprio: “Minha história de sucesso é uma mentira!”.

É nessa hora que ele verbaliza um verdadeiro desprezo por uma sociedade limitada, que de tão mesquinha mede as pessoas pela régua das aparências. Por mais que o Fogaça alegre seja autêntico e verdadeiro, é nesse mesmo peito onde bate um coração amargurado quando uma corrida termina, toda a estrutura é rapidamente desmontada e cada um vai para o seu canto, restando apenas a certeza de que, no dia seguinte, aquilo tudo não será vivido novamente.

A parceria da Djalma Fogaça Competições e a Ford durou 14 anos (Foto Orlei Silva/Fórmula Truck)

AUTOMOBILISMO EMOÇÃO

Diário Motorsport – Apesar de todas as dificuldades do esporte, você se tornou um empresário do automobilismo. Por que?

Djalma Fogaça – Eu não diria que eu sou em empresário do automobilismo. As minhas coisas sempre foram muito difíceis. Esse profissionalismo que eu cobro hoje me faltou lá atrás, mesmo na época de piloto. Eu sempre fui um piloto muito forte, principalmente nos fórmulas. Se eu tivesse me aplicado mais, eu teria ido muito mais longe.

DM – O que você quer dizer com “me aplicado mais”?

Djalma Fogaça – Vou te dar um exemplo, uma coisa simples, que é falar inglês. Eu acho que um cara hoje, em qualquer profissão, se ele não falar inglês, ele é um sujeito a ser ultrapassado por um que faz menos do que ele, mas fala inglês. Foi uma coisa que eu precisava, senti falta lá fora e com isso você perde oportunidades de negócios. Teve uma ocasião numa corrida de São Paulo, acho que foi 2012 – estavam o Danilo Dirani e o Pedro Gomes na minha equipe. E ali teve um exemplo claro disso que estou te falando. Veio o presidente mundial da Ford para a corrida, entendeu? Estavam ali os dois batendo altos papos e eu sem entender nada. Quer dizer, eu com o cartão do presidente mundial da Ford, mesmo com tradutor e tudo, você não entra na conversa. Aí você precisa de um negócio, está lá com o cartão do cara, mas não adianta nada porque você não pode ligar e conversar, por causa dessa limitação. Você entendeu? Você perde oportunidades na vida. Eu acho que isso é um exemplo, mas é na parte de dedicação mesmo. Eu sempre fui focado na parte do cronômetro, só me interessava isso, e é um erro! Você está focado, seja dono de equipe, seja piloto, e sempre preocupado com o cronômetro. Tem muita coisa antes do cronômetro mais importante para você fazer, como se portar, aprender sobre isso.

E hoje você vê o Lucas di Grassi. Eu acho um baita de um piloto, mas é também um piloto completo porque está pronto para ir lá e fazer o que a empresa precisar de um piloto como ele, que além de tudo, acelera. É um cara que, na minha ótica, é um exemplo dentro e fora da pista. É um cara que teve essa visão.

Em compensação, você vê outros pilotos aí que são tão bons quanto, mas hoje estão fora da Fórmula 1 e de outras categorias Top. Outro exemplo é o Nelsinho [Piquet]. Ele foi um cara totalmente focado naquilo. Estão, são caras que, além de guiar, conseguiram trabalhar o outro lado, o lado do produto, um produto Top. Não é só guiar, tem de ser um produto e eu não trabalhei para isso. Hoje, com as redes sociais, eu tenho um mundo de fãs, mas eu não sou um produto, se fosse eu teria patrocínio. E cada ano que passa vai aumentando a idade … mas tem os fãs. Veja o caso do Macarrão [Eduardo Landim Fráguas, um dos pioneiros da categoria criada por Aurélio Batista Felix], da Fórmula Truck. Até hoje ele tem uma legião de fãs. Você vê aí que qualquer cara que é fã de Truck, de corrida de caminhão, fala do Macarrão.

O piloto e chefe de equipe trabalha em diversas frentes promocionais, como é o caso do cartão pré-pago Monster Card (Fotos reproduzidas do Facebook de Djalma Fogaça)

DM – Entendi, mas mesmo assim você construiu uma carreira de sucesso, não foi?

Djalma Fogaça – Na verdade, eu tenho uma história que é bastante mentirosa no que se refere ao sucesso. As pessoas, principalmente no Brasil, julgam muito pelo visual. Às vezes você está aí afundado em dívidas, mas está num carro bacana e isso, na ótica das pessoas, é o que determina se você está bem ou está mal. Perceba que a qualidade intelectual do brasileiro é baixíssima, pois não se pode julgar uma pessoa porque ela está com uma camiseta sem marca ou com o jacaré da Lacoste. Você não pode julgar o cara por ele estar andando num Uno ou numa BMW. Essa forma de o brasileiro perceber as coisas propicia algumas mentiras como a minha história. Eu sempre fui um cara que gostei da parte de marketing, que é parte de vender o que você mostra e o lado contrário compra o que ele vê. Eu sempre fui por esse lado, sempre tive as coisas muito bem-feitas, muito bonitas, com um visual bacana. A minha equipe, quando tinha o apoio da Ford, nesse sentido era uma grande equipe. Tinha carreta para atender patrocinador, tinha ônibus, tinha todos esses negócios, mas eu podia ter. Mas aí nessa hora eu larguei a parte do piloto competitivo, de ficar olhando para o cronômetro. Só que era justamente a hora de ficar olhando para o cronômetro. O dinheiro que entrava eu gastava com essas coisas e sempre cuidei muito da fábrica. Então, para a fábrica foi muito bom – foram 14 anos de Ford. Quando a fábrica saiu, rapidamente eu despenquei. Por que? Porque eu estava há 14 anos fora do mercado de buscar patrocínio. E o começar de novo é muito difícil, cara. Eu já não era mais um piloto, era dono de equipe, mas voltei a ser piloto por necessidade. Um piloto de 50 anos? Não vende!

É o que eu falo para você, entre nas redes sociais e veja que eu tenho muitos fãs, mas muitos dos meus fãs de redes sociais não são fãs do Djalma Fogaça que teve conquistas no automobilismo. Eles são fãs do Djalma Fogaça que só fala merda na Internet, cara!

E aí entra num conflito tão grande essa situação dentro de uma empresa. Hoje eu não mando mais projetos para as empresas, pois cansei de mandar. O nome é bem recebido e sempre tem aquele que fala: “pô, esse cara é um nome legal”. Mas aí tem o outro que fala: “pode ser, mas vai lá ver o Facebook dele, só fala merda”. As empresas medem isso e essa popularidade acaba jogando contra.

Então, quando eu falo que a minha história tem uma mentira no meio é isso. Você chega numa situação em que não consegue se encontrar e se pergunta: “Onde eu errei? O que está faltando?’. Poxa, minha equipe oferece tudo, mas automobilismo é resultado e o resultado hoje eu não tenho.

Tenho uma legião de fãs, mas não patrocínio e sem patrocínio eu não tenho resultado. As coisas que eu conquistei no automobilismo eu vendi quase tudo porque estou tentando, de quadro anos para cá, me manter no esporte. É aquela coisa, quando você mostra muito, as pessoas confundem e acham que você tem muito. Para saber se a pessoa tem muito é fácil, basta ir no imposto de renda dela. Se você for na minha declaração vai ver que eu nunca tive nada. O que eu tive foi uma mentira, o visual numa equipe. Quanto vale uma equipe hoje? Um prédio, umas carretas que hoje são velhas, um motorhome que hoje também é velho, os caminhões … quanto vale isso? Não vale nada.

O filho Fábio Fogaça é o seu companheirão nas pistas (Foto Fábio Davini/Copa Truck)

DM – Essa situação que lhe deixa triste e amargurado foi acontecendo aos poucos ou houve um momento de ruptura na sua vida, na sua carreira, que lhe atingiu e você não conseguiu virar isso ainda?

Djalma Fogaça – Cara … [segue-se uma pausa e os olhos marejados denunciam o quão difícil é para ele essa situação] eu não consigo interpretar isso. Quando você não sabe quanto você fatura, é difícil interpretar tudo, você chegar e dizer “aconteceu isso”, “aconteceu aquilo”. É difícil. É difícil porque eu tenho uma mistura de tristeza, frustração e alegria. E eu nem olho para isso e acabo até me emocionando num momento desse porque é uma pergunta que nem eu mesmo me fiz.

DM – Vamos mudar de assunto. Quais foram suas maiores alegrias, as maiores satisfações como piloto e dono de equipe?

Djalma Fogaça – Eu nunca vi o automobilismo por vitórias tão somente. Para mim, vitórias sempre foram uma consequência, números, estatísticas. A maior felicidade minha, o que eu sempre curti e curto muito é o ambiente, o clima do automobilismo. Apesar de eu ser muito popular e comunicativo, eu sempre fui muito reservado na parte de companhia. Eu sou casado com uma grande mulher, a Fabiana, que me deu filhos maravilhosos e é pela minha família que eu acordo cedo e luto todos os dias. Mas o mais engraçado é que ela é totalmente diferente de mim, totalmente oposto. Nada das coisas que eu gosto, ela gosta. A minha convivência maior em razão das corridas é com o meu filho Fábio [Fábio Fogaça tem 26 anos, é piloto, dono de equipe, estudante de engenharia], que viaja comigo, e ele é igualzinho a mãe. As coisas que eu gosto, ele detesta. Então, eu sempre acabo fazendo algumas coisas sozinho. Eu sempre fui assim, mesmo antes de casar. Eu gosto de ficar sozinho, dirigir sozinho, ouvindo o meu som, o som que eu quero, ouvindo alto.

Quando acaba a corrida, todo mundo carregando, louco para voltar para casa, o avião foi embora e eu estou lá no autódromo. E aí vem uma tristeza de ver tudo aquilo acabando e saber que no outro dia eu não vou ter isso. Automobilismo para mim é mais do que corridas.

Tem gente que pergunta: “Fala para mim uma corrida fantástica sua”. Eu não sei, cara! Tive corridas memoráveis, mas acabou e já estava pensando na outra. Não é isso que me prende. O que eu gosto mesmo, onde me sinto feliz, é do ambiente.

Com #72 em Tarumã, na penúltima rodada da Copa Truck 2017 (Foto William Inácio/Copa Truck)

Foto Destaque: Rodrigo Ruiz/Copa Truck


A TERCEIRA PARTE DA ENTREVISTA COM O PILOTO E CHEFE DE EQUIPE DJALMA FOGAÇA SERÁ PUBLICADA AMANHÃ, QUARTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Só quem é fã dá valor a um cara como esse e uma entrevista dela, pena que como o esporte é tão caro é dificil se manter. Vemos tantas histórias como a dele, no kart, turismo, de apaixonados que acabam derretendo tudo no fundo por amar acelerar e apoiar o esporte. Todos nós perdemos por toda essa politica e ruptura nacional, infelizmente essas pessoas precisam mudar de rumo pra poder sustentar a familia…

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.