O popular piloto sorocabano é o segundo entrevistado da série “Entrevistas Especiais”, que o Diário Motorsport apresenta em cinco capítulo ao longo desta semana

Por Américo Teixeira Junior

Djalma Fogaça tem uma sala repleta de troféus, galeria digna do campeão que é, mas seus grandes tesouros são a esposa Fabiana (à esquerda) e os filhos Fábio e Giovanna (Foto reproduzida do Facebook de Djalma Fogaça)

Fosse um dicionário, o automobilismo brasileiro teria como sinônimo de ‘emoção’ e ‘paixão’ o verbete “Djalma Fogaça”, tudo por conta da forte personalidade e da dificuldade em colocar a razão adiante da emoção, características próprias deste sorocabano de 54 anos. Profissional do automobilismo com um diversificado leque de categorias disputadas, o “Monstro” tem uma longa e vitoriosa carreira como piloto e dono de equipe.

Muito dessa história está registrada em inúmeros troféus e homenagens que estão espalhados pela confortável residência onde vive com a família e belíssimos cachorros (e filhotes de gambá, que ele encontrou desamparados e está fazendo as vezes de “mamãe”; são imperdíveis os vídeos dessa mais recente aventura do “Caipira Voador”, no Facebook) e na Djalma Fogaça Competições, ambas em Sorocaba (SP), distante poucos quilômetros uma da outra.

Pois foi no prédio que abriga a equipe que a reportagem do Diário Motorsport foi encontrar esse colecionador de títulos que se tornou ídolo nacional da Fórmula Truck e agora, na Copa Truck, tenta retomar um caminho que já conhece bem, o da vitória. Ele é o primeiro a reconhecer que não está sendo fácil, visto algumas parcerias que se foram nos últimos tempos, mas nada o bastante para demovê-lo. Prova disso é que, naquela manhã de quarta-feira, a pequena rua estava intransitável. Eram as carretas sendo carregadas para mais uma prova de caminhões, um novo desafio encarado com o coração.

“Tudo vale a pena de a alma não é pequena”: verso de Fernando Pessoa se encaixa perfeitamente no modo como Djalma Fogaça enfrenta as dificuldades da atual temporada (Foto Américo Teixeira Junior)

AUTOMOBILISMO ENQUANTO NEGÓCIO

Diário Motorsport – Como você avalia o atual momento do automobilismo brasileiro enquanto negócio?

Djalma Fogaça – O momento é muito ruim, mas creio que pela condição atual de país. Eu creio que 80% das empresas vivem um mau momento em qualquer ramo de negócio. Na minha ótica eu vejo, nesses 20%, muita gente ganhando dinheiro na crise. O automobilismo, hoje, é feito em grande parte por amantes do esporte. São os caras que curtem, os caras do campeonatos regionais. Você vê que não tem profissional andando ali e também não tem apoio de patrocínio. Então, é o cara que é amante, mesmo, que põe do bolso, consegue um pedacinho de patrocínio com amigos, uma coisa desse tipo. Mas são poucas empresas investindo nesse segmento. Vejo outras categorias com grandes empresários tendo o automobilismo como hobby, e estão no direito deles, e uma parte de pilotos, poucos, como profissionais.

Mas em torno de todos esses três grupos que citei, há 100% de uma classe que vive exclusivamente do automobilismo formada por mecânicos e equipes. Esta classe está realmente num mau momento.

Vejo muita gente em redes sociais dizendo que o “automobilismo brasileiro acabou”. Cara, eu não vejo dessa maneira. Você vê autódromos, poucos, mas relativamente bem cuidados. Vou fazer algumas comparações. Vamos comparar Tarumã com 20 anos atrás. Muita gente fala: “Ah, o automobilismo de 20, 30 anos atrás era melhor… a Fórmula Vê, a fórmula não-sei-o-que, a Stock antigamente …”. Para, não dá para comparar a Stock Car de antes com a de hoje, né? Antigamente você ia lá, chegava no autódromo e tinha três metros de mato. Não dava para ver o outro lado da pista numa foto. As condições nos autódromos eram bem difíceis. Guard-rail podre, sem estrutura, uma série de coisas. Hoje a gente não vê isso como sendo um padrão, então, eu não vejo assim. Lógico que temos problemas, mas o automobilismo evoluiu e não está morrendo.

Djalma Fogaça acelerou seu kart pelas ruas de Sorocaba e região antes de se tornar ídolo na Fórmula Truck (Foto reproduzida do Facebook de Djalma Fogaça)

DM – Essa evolução fez o automobilismo se tornar profissional ou continua amador?

Djalma Fogaça – É muito amador. Na minha ótica, está baseado numa escola antiga que não se atualizou, não se profissionalizou. Não acho que seja culpa exclusivamente da situação econômica ou de um promotor. Acho que tudo começa pelas equipes. Não importa se é o cara que vive de automobilismo ou aquele que não vive disso, mas resolveu montar uma equipe. Isso é a chave de tudo. Vamos falar do Marcos Galassi, que deu uma entrevista fantástica [o criador da Fórmula Inter foi o primeiro entrevistado da série Entrevistas Especiais, do Diário Motorsport].

O que precisaria o automobilismo brasileiro ter? Mais Marcos Galassi.

Saindo um pouco, eu estive na inauguração do um kartódromo, a Arena Usual em Laranjal Paulista, feito por um amante do automobilismo. Ele tinha o sonho de ser piloto, nunca foi, mas a carreira dele como empresário foi num crescente, até que chegou um momento em que ele resolveu fazer um kartódromo. Aí você vai lá e vê que é um negócio feito nos mínimos detalhes. Então, o automobilismo brasileiro hoje tem necessidade de pessoas como o Marcos Galassi, o Djalma Pivetta, que é dono do kartódromo de Laranjal Paulista. Outro autódromo que é fantástico e é uma iniciativa totalmente particular é o do Eduardo Souza Ramos, o Velo Città, que é um outro Capuava, do Cidão [o falecido Alcides Diniz, tio do ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, contruiu uma pista privada em sua fazenda Capuava, próxima ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas-SP], que era um amante do automobilismo. E os autódromos que temos aí, como Guaporé, que é cuidado por uma associação. Quer dizer, tem muito pouco da esfera governamental, o automobilismo precisaria de mais caras como esses. E quanto têm esses caras, ninguém dá valor. Tem gente que pensa que é obrigação deles e não é, entendeu? O automobilismo é carente de autódromos e depende muito da iniciativa particular.

De troféu em troféu, história marcada pela dedicação, mas também de muitos altos e baixos (Foto Rodrigo Ruiz/Copa Truck)

DM – O Governo ajuda ou atrapalha o automobilismo?

Djalma Fogaça – O governo não tem de ajudar. Eu sou contra o governo ajudar. Tinha de ajudar com leis. Vou dar um exemplo. Como você vai exigir de Caruaru, que é uma praça que aparece no calendário porque a Fórmula Truck foi a única categoria nacional a fazer prova habitualmente em Caruaru… Se você for lá em Caruaru, hoje, até está legal porque o organizador e a prefeitura fizeram alguma coisa para o evento [Djalma Fogaça se refere aqui ao trabalho que foi feito quando da prova da Copa Truck, em julho útimo]. Agora, para quem está lá o ano inteiro, sofre com um autódromo como aqueles de 20, 30 anos atrás que te falei, com três metros de mato. Aí você fala: “a prefeitura está errada em não investir no autódromo!”. Não, não está, cara! As prefeituras e o governo têm de investir em segurança, saúde, saneamento, creches e não em autódromo. Eu sou totalmente contra prefeitura investir em autódromo. O que eu acho que falta e é fundamental no automobilismo nacional é gente do automobilismo se candidatar a deputado federal, por exemplo.

Eu tenho certeza que um cara de expressão como o Ingo – eu vou citar o Ingo porque o Ingo é o papa, para mim o Ingo é o papa, mas nunca forçar, estou citando ele como exemplo. Cara, o automobilismo elegeria o Ingo Hoffmann pelo caráter, pela seriedade, pela idoneidade, pelo profissionalismo, quer dizer, seria o nosso Romário lá dentro.

Então, esse cara é deputado hoje e amanhã é senador. Aí sim, você vai brigar por leis. Todo mundo fala que não há leis que ajudem o automobilismo, mas você não vai ter leis se não tiver representação. O automobilismo lá dentro hoje é nada! Perante os órgãos públicos o automobilismo é nada. Veja uma coisa. Hoje existe Interlagos por uma pressão da Fórmula 1, que é necessária e através dela se ganha muito dinheiro com Interlagos. Mas não há a defesa do automobilismo. Enquanto não tiver um nome como esse – vamos continuar falando o nome do Ingo. Se fosse ele o candidato, bastaria ele ir em qualquer briefing. Aí eu te pergunto: quantas famílias amantes do automobilismo tem aí para votar num cara desses? Elege de cara, na primeira eleição. E aí sim, esse representante iria brigar por leis, fazer um trabalho de formiguinha lá dentro. Aí funciona, eu acho que esse é a única maneira de ter um negócio realmente profissional. Todo mundo da o exemplo da Argentina. “Ah, mas Argentina tem leis…”. Cara, é diferente! São culturas diferentes, faz parte da cultura argentina assistir corridas. Pô, o argentino é apaixonado. Todo mundo já falou e sabe disso, mas lá atrás os caras fizeram leis para valorizar o esporte, não foi algo que veio assim do nada, de graça. Foi feito todo um trabalho sério. Você não vê piloto argentino correndo fora. Não é que ele não queira, não é isso. Ele pode até querer, mas não precisa, pois ele ganha correndo no automobilismo argentino, que cresceu porque tinha lei para isso. Aqui também tinha, que era a lei Sarney, mas os “espertos” estragaram tudo. O cara vai lá no patrocinador, dá uma nota de R$ 10 milhões, recebe os 10, devolve 9 – os dois “espertos” – e fica com 1. Cara, isso não existe, entendeu? Na época isso acontecia não com todo mundo, claro, mas acontecia. Resultado? Cortaram a lei!

“Para mim, o Ingo é o papa”, afirma Fogaça sobre o multicampeão; na foto, ambos com o cinegrafista Glauco Guerin (Foto reproduzida do Facebook de Djalma Fogaça)

DM – E a lei de incentivo?

Djalma Fogaça – Na minha opinião, foi uma lei criada para não ser usada. É totalmente burocrática, para você convencer uma empresa é difícil. É uma complicação danada trabalhar com essa lei – se você não prestar conta de centavos, bloqueiam o seu pagamento. Quer dizer, não é um negócio muito fácil, mas mesmo assim eu vejo aí algumas equipes fazendo e fazendo bem e se beneficiando com isso. Por outro lado, sei de muita gente que teve o projeto aprovado, mas não consegue encaixar uma empresa para isso. Por aí você vê que não é tão simples assim. É por isso que eu digo que não tem jeito. Enquanto o automobilismo, perante os órgãos governamentais, for tratado como um nada, esquece.

DM – Mas você acha que o automobilismo é forte o bastante para levar uma discussão a esse nível?

Djalma Fogaça – Não vou dizer que é fácil, mas tem pessoas muito sérias fazendo automobilismo no Brasil. A família Giaffone, por exemplo. Verdade que tem aquele pessoal que só bate, mas é muito fácil bater, criticar o trabalho dos outros, estando de fora.

Eu sempre digo que bater um pênalti é muito fácil para quem está vendo pela TV. Quero ver numa decisão o cara lá dentro, cercado de pessoas e milhões assistindo pela TV. É o caso da família Giaffone. Tem um monte de gente que critica, mas olhe o que esses caras fazem pelo automobilismo.

A gente precisa entender que muita gente não evoluiu, acabou ficando para trás e veio gente para ocupar os espaços e foi fazendo. Até chegar um Marcos Galassi para mudar o caminho. Como entrou no automobilismo um Aurélio Batista Félix e mudou a estrada também. Quer dizer, falta um monte de coisa, mas faltam caras que acreditem realmente no automobilismo.

E hoje não é fácil, cara, mas acho que temos grandes profissionais. Outro que eu acho que faz um trabalho fantástico é o Dener [Pires, promotor da Porsche GT3 Cup]. Acho que o Thiago Marques [promotor da Sprint Race] faz um grande trabalho também na categoria dele.

Aí daqui a pouco a gente vai entrar nas categorias de fórmula. E aí o que aconteceu? Hoje é comum no mundo -e não é só no Brasil – que as categorias de fórmula perderam força. Hoje você já não ouve falar de uma Fórmula 3 Inglesa como era antigamente, que levava um cara direto para a Fórmula 1. Não existe mais como era. Então, não é um problema só aqui.

Presença constante na primeira temporada da Copa Truck (Foto Rodrigo Ruiz/Copa Truck)

Foto Destaque: Fábio Davini/Copa Truck)


A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM O PILOTO E CHEFE DE EQUIPE DJALMA FOGAÇA SERÁ PUBLICADA AMANHÃ, TERÇA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO.

Compartilhar

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.