Djalma Fogaça fala, nesta quarta parte de Entrevistas Especiais, sobre a sua fase rebelde, que classifica, sem meias palavras, como inconsequente

Por Américo Teixeira Junior

Foram atitudes dos tempos da Fórmula 3 que causaram a suspensão de um ano para Djala Fogaça (Foto Sérgio Sanderson)

São conhecidas a emotividade e impulsividade de Djalma Fogaça, um esportista e empresário que tem um coração enorme e uma vontade de fazer as coisas, “mesmo que o tempo e a distância digam Não”. Mas é verdade, também, que essas características ganharam contornos dramáticos num período de sua vida, quando o encontro destas com a imaturidade da juventude tiveram consequências graves.

São fatos que alguns prefeririam ocultar em entrevistas, mas não seria Djalma Fogaça se assim o fizesse. De coração aberto, ele conta algumas dessas histórias principalmente com o objetivo de deixar como alerta e orientação para os jovens pilotos de tudo o que não se deve fazer para alavancar a carreira.

Foi dura a passagem do automobilismo de ilusão para a realidade do esporte. “Fui lá para a Europa correr de Fórmula Opel, na segunda corrida eu ganhei e na terceira era líder do campeonato. Na quarta corrida eu larguei em 24º, cara! Foi o maior pau que eu tomei na minha vida. Larguei em 24º e cheguei em 19º. E, depois disso, a coisa desandou”. A partir de agora ele explica o que aconteceu.

Djalma Fogaça – As categorias, todas elas, seja aqui no Brasil, seja na Europa – se bem que hoje no Brasil nem tem – ou em qualquer canto de mundo, se são trampolim para chegar no ápice, elas são políticas. Todas, todas! Tem a equipe que é melhor, tem aquela que domina, tem aquela com o melhor motor ou alguma coisa diferenciada no carro e aí eles brigam. Aí chega o promotor lá … Que interesse tinha uma Opel que tinha o Pedro Lamy na minha equipe e chegou na Fórmula 1, com a petroleira Galp, que é Petrobras de Portugal, um moleque de 17 anos, um piloto europeu, perder o campeonato para um cara de 27? Na hora que eu estava liderando o campeonato, chega o cara lá e diz: “Esse cara não pode ganhar, nós somos uma categoria formadora de piloto, não piloto de 27 anos”.

 

E na Fórmula Indy era o contrário, lá andava cara com 40 anos de idade! Hoje não é mais, mas naquela época era assim. Eu teria de ter dado uma guinada na minha carreira naquela hora se eu tivesse … eu não ia enxergar isso. É a história do pênalti depois de batido.

Diário Motorsport – Então você sentiu que não era um produto importante para a Fórmula Opel?

Djalma Fogaça – Não, eu não senti isso. Só percebi depois que eu vim embora. Aí caiu a ficha, entendeu? “Não vou ganhar nunca!”. Chegou uma corrida que eu peguei o dono da equipe pelo pescoço. Se você for lá na Draco, até hoje, os caras me falam, têm nas carretas os nomes de todos os pilotos brasileiros que lá andaram e em todas as categorias – e foram bastante. O único nome que não tem é o meu.

Eu peguei o Adriano Morini pelo pescoço, levantei do chão.

Ele entendia muito bem o português, pois tinha trabalhado muito com pilotos brasileiros, a mulher dele [Nadia Morini] também. Isso foi indo e faltavam três etapas para acabar o ano. Foi em Nurburgring. Nessa época eu mesmo fazia meu carro junco com o Sidney, um mecânico brasileiro que já estava lá. O Mico [o uruguaio Juan Carlos Lopez atualmente é dono de equipe na Stock Car], trabalhava também na equipe e fazia o carro do Paulo Garcia, que tinha sido campeão brasileiro de Fórmula Ford e andava com o carro da Arisco. E tinha o Stefano que fazia o carro do Pedro Lamy. Eram três carros. Chegou uma hora que eu brigava tanto com o Morini que ele disse: “Eu não mexo mais no seu carro”. Aí eu disse: “Não precisa, pode sair daqui, eu mesmo me viro com o mecânico”. Só que nunca andava. Na classificação em Nurburgring, o Lamy fez a pole e meteu 0s6 no 2º. E do 2º até onde eu estava, que era 15º – ou 17º, não me lembro direito -, tinha 0s6. Motor puro, andava pra caramba. E aí o Morini foi no box tirar sarro de mim [seguiu-se mais ou menos o seguinte bate-boca entre o chefe de equipe italiano e o piloto brasileiro, segundo as recordações de Fogaça]:

– E aí, Djalma, como está a máquina?

– A máquina está boa, Adriano.

– Ah, Djalma, certamente, estou vendo que está boa, ruim está a do Pedro. A sua é que está boa.

– Então é assim, Adriano, então bota o Pedro para andar aqui … seu ladrão”.

Aí fodeu.

 – Por que, você acha que é motor, Djalma?

– Acho não, tenho certeza!

Aí ele falou para o Stefano, o mecânico do Pedro:

– Tira o motor do Pedro e coloca aqui no carro do Djalma.

Virou para o Sidney e falou:

– Tira o motor do Djalma e entrega lá para o Stefano colocar no carro do Pedro.

Aí eu pensei: “O cara me pegou”, mas ei virei para ele:

– Olha aqui, é o motor, a caixinha eletrônica e esses carburadores que têm o ‘P’ marcado em vermelho por baixo. Manda tudo aqui que eu quero ver.

Aí eu peguei ele.

– O que, Djalma, você está desconfiado de mim? Pode parar, não vai trocar nada!

– Não vai trocar porque você não tem coragem.

Aí larguei tudo lá e fui embora para o Hotel. Das 15 corridas do campeonato, nove eram preliminares da Fórmula 1. Essa não era. Quando era preliminar, sexta era o treino, sábado classificatório e corrida. Nessa corrida tinha warm-up também e eu nem apareci. Cheguei lá faltavam 20 minutos para abrir o box. Fiquei naquele hotel ao lado da pista. Quando cheguei o Sidney falou:

“Se prepara que hoje seu carro vai andar. O homem ficou mexendo no motor e mais um monte de coisa até uma hora da manhã”. Não teve nem graça a corrida.

Eu larguei em 17º, fui passando e cheguei em 3º, com o Pedro em 2º e eu passando ele. Ele me ganhou por dois palmos. A melhor volta minha na prova foi 0s4 mais rápido do que a pole dele. Andava assim um absurdo. Fomos para o pódio, lá de cima e via a equipe lá comemorando e eu com a tromba desse tamanho. Chegou no box, Américo, catei esse Morini pelo pescoço, deixei ele roxo. Levantei ele um palmo do chão. “Faltam três corridas, minhas corridas estão pagas, não devo um centavo para você e vai para a …”. Catei minha mala que estava no motorhome e foi assim que eu saí de lá. Errei o tiro, se eu tivesse botado essa grana na Indy Lights, eu tenho certeza que a minha carreira teria tomado outro muro. Mas isso não me frustra, em momento algum. Eu não tenho frustração porque a gente faz um plano e Deus faz outro.

DM – O que você fez na sua volta?

Djalma Fogaça – Fórmula Chevrolet. A primeira corrida da categoria que teve foi em Interlagos, preliminar do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Dava até dó dos moleques. Tinha Tarso Marques, Tony Kanaan, Helio Castroneves e eu já experiente com os pneus. Isso em 1992. Ganhei a corrida com 40s de vantagem.

DM – Ajude-me com a memória. Depois de ser campeão da Fórmula Chevrolet, naquele primeiro ano da categoria, você foi para a Stock. Certo?

Djalma Fogaça – Não, primeiro eu fiquei um ano suspenso. Em 1993 tomei um ano de suspensão.

DM – Por que?

Djalma Fogaça – Ah, foi um acúmulo de coisas. Eu sempre fui muito polêmico. Na realidade não era nem polêmico, era inconsequente mesmo. Eu fazia tudo da minha cabeça e em 1993, o fato que aconteceu em Guaporé, quando eu atropelei o pai do Zonta, tirei o Zonta da prova, aquilo foi consequência de todos os anos que eu só vinha aprontando. Se você lembrar, em 1989, em Foz do Iguaçu… Eu era o atual campeão Brasileiro de Fórmula Ford e fui fazer aquela prova, já como piloto de Fórmula 3, para usar o número 1. Um amigo meu do Tatuapé, o Adilson Teixeira, estava guardando um Heve velho de Fórmula Ford que eu tinha. Estava lá, parado, desde 1986. Era uma corrida na rua em Foz e o Ronaldo Ely, do Sul, me chamou para participar da corrida. Resolvi fazer e liguei para o Adilson: “Estou mando pegar o carro aí”. Foi lá, pôs o carro, um jogo de rodas reserva, dois galões de álcool que eu tinha e mandou o carro embora. Não tinha uma peça reserva, um bico reserva, sem motor reserva, sem nada. E o motor era original. Aí nós treinamos com o motor original e acertei com o Elísio Casado de alugar um motor dele para correr. Era corrida de rua, o chassi era curtinho, dava para encarar. Mas como é que você vai encarar os dois Texaco, Rubinho Barrichello, mais outros caras fortes, Jefferson Elias … Aí chegou lá e eu fui o 7º, 8º tempo no primeiro dia como motor original. Aí eu falei: “Pô, amanhã vai por o motor do Elísio, nós vamos estar brigando fácil para fazer a pole”. No sábado, teve um treino de manhã, que eu só amaciei o motor, ajustamos o carro e fomos para a classificação e não ia. Fui 17º e falei: “Cara, isso aí é motor, pode por o motor original. Com esse motor, esquece”. O Elísio queria me dar outro motor: “Cara, bota o motor original, vai por mim”. Colocou o original, larguei em 17º e ganhei a corrida. Então, quando eu falo em inconsequência, veja só. Largou, deu três voltas e deram bandeira vermelha. Eu já era 15º. Largou, deu mais duas voltas e bandeira vermelha de novo. Já era 9º. Largou e, pumba, terceira bandeira vermelha. Já era o 5º. Eu estava alinhado no grid e falei para os meninos – Rubinho, Tom Stefani, Ricardo Mattos … : “Vão somando os tempinhos de vocês que eu vou largar e vou ganhar”. Aí o câmbio do Fórmula Ford era um de Del Rey virado ao contrário. Aquilo era uma desgraça. Você não sabia se, de ponto morto, você estava engatando a primeira, terceira ou ré.

Como era descida, cheguei em ponto morto, coloquei a primeira e fiquei com o pé na embreagem, pé no freio, acelerando – PUNTA TACO – e segurando na embreagem e o carro esquentando e nada de darem a largada. Aí eu tirei o carro de 5º e atravessei na frente dos dois primeiros, com a corrida ao vivo. Você acredita nisso?

DM – Acredito, eu estava lá.

Djalma Fogaça – Lembra disso? Para um piloto ter uma atitude dessas, tem de ser suspenso na hora. Imagine isso hoje! Então, eu demorei a ser suspenso. Quando eu voltei da suspensão, em 1994, eu já tinha um problema na coluna. Eu não era mais tão rápido de Fórmula, não conseguia. Aquela troca de marcha, quando chegava no meio da corrida eu perdia muito desempenho por causa do problema na coluna. Eu quebrei a coluna! Eu tenho um colo colado um sobre o outro e não rompi a medula. Isso aí é uma história incrível porque são pouquíssimas as pessoas no mundo que têm uma história dessas para contar, que quebrou a coluna e não rompeu a medula.

DM – Como aconteceu isso?

Djalma Fogaça – Acidente. Está aqui, ó! [mostrando um calombo logo abaixo do pescoço], um colo em cima do outro e aquilo queimava.

DM – Mas o que houve?

Djalma Fogaça – Acidente de rua, racha. Aí quebrou a clavícula, três costelas e o médico me engessou. Aquilo queimava tanto que chegou um dia que eu mesmo cortei o gesso e pedi para me levarem em outro médico. Foi aí que se descobriu a fratura na coluna, mas não tinha mais o que fazer.

O médico falou: “A única coisa que você tem de fazer é levantar as mãos para o céu todos os dias pelo fato de você não ter ficado paralítico”.

DM – Você tinha quantos anos nessa época?

Djalma Fogaça – Tinha 23, foi em 1986. Isso aí começou a me pegar e foi quando o Mauro Voguel me falou: “Fogaça, vai de Stock, vai mudar agora de Opala para o Omega, o Jorge Freitas vai montar a equipe, anda lá com ele. E aí eu fui para o Omega.

Foto destaque: Rodrigo Ruiz/Copa Truck

AMANHÃ, A QUINTA E ÚLTIMA PARTE DE ‘ENTREVISTAS ESPECIAIS’ COM DJALMA FOGAÇA

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3 COMENTÁRIOS

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.