Ele sonhou com a Fórmula 1 e, mais do que sonhar, trabalhou para isso, investiu para isso. Nessa terceira parte de “Entrevistas Especiais” com Djalma Fogaça, o campeão brasileiro de Fórmula Ford e Fórmula Chevrolet começa a contar como foi essa caminhada

Por Américo Teixeira Junior – Fotos Reprodução do Facebook de Djalma Fogaça

O kartismo de rua do interior de São Paulo foi a porta de entrada de Djalma Fogaça no automobilismo

Começar no kartismo antes de 10 anos não era nem miragem na infância de Djalma Fogaça. Era algo que, definitivamente, não existia. Só foi na fase adulta, já com 19 para 20 anos, que o sorocabano descobriu o kartismo, o que permitiu que ele fizesse parte de uma geração que, muito além do que simplesmente sonhar com a Fórmula 1, trabalhou e investiu para atingir esse objetivo. Nesse capítulo da entrevista para o Diário Motorsport, o piloto e chefe de equipe começa a contar seus passos para chegar no lugar que ele pensou ser as portas da Fórmula 1, mas não era.

AUTOMOBILISMO SONHO

Diário Motorsport – De todas as categorias pelas quais você passou, qual a que mais gostou?

Djalma Fogaça – Ah, a Fórmula Ford.

DM – Por que?

Djalma Fogaça – Pela ambição de querer chegar na Fórmula 1, de querer ir para a Inglaterra e fazer a Fórmula 3. Isso e também porque as coisas aconteceram muito rápido. Eu não tive, por exemplo … o Fabinho, vou dar meu filho como exemplo. Eu sempre fui contra piloto de 6, 7 anos correr. Eu acho que criança tem de ser criança. Então, o Fábio começou a correr com 13 anos. De 13 até 19, que foi quando eu comecei, são seis anos. Em seis anos ele já estava na Stock Car, que é o Top do Brasil. Eu não, eu comecei com 19 anos como piloto Novato de Kart.

DM – Como foi isso?

Djalma Fogaça – A primeira corrida que ganhei na vida foi em Garça [município do Centro-Oeste do Estado de São, distante cerca de 400 km da capital paulista], 1983, corrida de rua. Eu lembro daquela corrida como se fosse hoje. Motor do Tchê [Espanhol radicado em São Paulo e falecido em 2015, Lúcio Pascoal Gascón, o Tchê, transformou-se em um dos principais nomes do kartismo brasileiro e foi o primeiro preparador de motores de kart de Ayrton Senna, condição que o tornou mundialmente famoso]. Eu nunca citei isso e até outro dia eu conversei com o filho do Tchê e a gente estava falando disso. Eu nunca citei porque nunca me passou para a cabeça isso, mas a minha primeira vitória foi com o motor do cara que fez o Ayrton Senna campeão. A minha carreira já tem um diferencial por aí. E, na minha cabeça, eu ia ganhar mais duas, três, quatro corridas, ia para o fórmula ganhar mais duas, três, quatro corrida e ia para a Fórmula 1.

Com Ayrton Senna, já no grid de uma etapa do Sul-americano de Fórmula (Foto Reprodução do Blog do Flávio Gomes)

DM – Rapidinho assim?

Djalma Fogaça – É, assim, quer dizer, onde que eu fui andar? Primeiro fui para a Fórmula Fiat. Andei um ano de Fórmula Fiat e não continuei porque acabou a categoria. Era 1984 e quando ela acabou, todo mundo migrou para a Fórmula Ford, que era realmente um campeonato brasileiro. Você disputava contra as equipes do Rio, de Goiás, do Paraná, do Rio Grande do Sul. Pô, cara, aquilo lá tinha 40 carros, tinha bateria de repescagem. Era uma preparação pura, cada um preparava o seu motor, tinha quatro ou cinco tipos de chassis.

Aquilo [Fórmula Ford] era um diamante bruto que ninguém – nem piloto, nem equipe, nem organizador, nem promotor – viu o potencial que aquela categoria tinha no Brasil. Tanto que ela depois acabou.

Nessa parte também entra a história daquele cara que tem a visão do negócio. E nessa categoria não teve também. Passaram grandes pilotos na Fórmula Ford. Até tem um grupo na internet chamado Monopostos Brasileiros e tem horas que os caras postam umas fotos de Fórmula Ford que você fala: “pô, esse negócio foi há 30 anos”. E você olha e os carros hoje seriam atuais. Aí você pega uma Fórmula 3 de 1989, 1990, se tivesse uma categoria dessas hoje no Brasil seria um negócio fantástico.

Aí que eu tenho certeza de que o Marcos Galassi acertou na categoria dele. São carros que são altos de carenagem, dá para expor o patrocínio, são carros de visual bacana. Você pegas os Fórmula 3 hoje, tem tanta aerodinâmica que você não vê nada naquele carro.

O aerofólio parece um pedaço de papel, duas lâminas. Não tem aquela baita asa atrás, pneu largo … Os braços de suspensão, hoje, são fininhos. O carro virou um brinquedinho maior, uma miniatura em escala maior. Diferente dos carros de antigamente. Você bate o olho e oh! Que é o caso dos carros do Marcos Galassi. Ele vai encontrar uma dificuldade hoje porque o Brasil não tem mais tradição no Fórmula e antigamente tinha.

Antigamente o cara queria correr de Fórmula, ele não queria correr de “táxi”. Quando me ofereceram para andar no Turismo, falei: “Ah, cara, não vou andar nesses ‘táxis’ aí não”.

Essa era a ideia do jovem daquela época. Hoje não! Se você pergunta o piloto vai dizer: “Ah, vou tentar aqui, mas se não der certo vou andar de Stock Car”.

Ele não queria andar de “táxi”, mas se tornou um dos grandes pilotos da Stock Car

DM – Quando você percebeu que esse negócio de Fórmula 1 era uma ilusão?

Djalma Fogaça – Eu tinha uma bala só na agulha e eu não tive essa visão naquela época. Eu só enxerguei isso depois que eu atirei. Pela idade, não teve um cara que falou para mim, no sentido de orientar. Vou te dar um exemplo. Eu fui campeão brasileiro de Fórmula Ford em 1988. Em 1989 foi o primeiro ano de Fórmula Ford do Rubinho [Barrichello]. Ele tinha de 16 para 17 anos. Eu já tinha 25. Em 1991, eu fui para a Europa para andar numa equipe que o Rubinho tinha acabado de ser campeão [Draco Racing, na Itália, fundada por Nadia e Adriano Morini], pensando ainda em chegar na Fórmula 1. Falei assim: “Vou andar de Fórmula Opel, vou conhecer as principais pistas, vou andar no campeonato europeu, dalí eu vou para a Fórmula 3000 e estou com um pé na Fórmula 1”. Essa era a minha cabeça. Você entendeu? Não chegou um cara para mim, muito menos meu pai, que não tinha tradição nenhuma de corrida – o mesmo embalo meu era o embalo do meu pai, que pensava baseado nas coisas que eu falava para ele, então, a mesma viagem minha, o mesmo sonho meu, era a maneira como ele enxergava.

Então, não teve um cara que chegou para mim e falou: “Ei, você está com 27 anos agora, não bota essa grana lá [na Europa], bota numa Indy Lights nos Estados Unidos”. Não tive essa orientação. Se eu tivesse botado essa grana lá [Estados Unidos], eu tinha andado de Fórmula Indy, tenho certeza absoluta.

Não, fui lá para a Europa correr de Fórmula Opel, na segunda corrida eu ganhei e na terceira era líder do campeonato. Na quarta corrida eu larguei em 24º, cara! Foi o maior pau que eu tomei na minha vida. Larguei em 24º e cheguei em 19º. E, depois disso, a coisa desandou.

DM – Por que?

ESSA PERGUNTA SERÁ RESPONDIDA E OUTRAS HISTÓRIAS SERÃO REVELADAS NA QUARTA PARTE DA ENTREVISTA COM DJALMA FOGAÇA, QUE SERÁ PUBLICADA AMANHÃ, 30.11.2017.

Brilham. É isso o que acontece com os olhos de Djalma Fogaça quando ele fala da Fórmula Ford
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1 COMENTÁRIO

Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.