Numa jornada marcada pelo pesadelo da Toyota, vitória do Porsche #2 e performance exponencial dos inscritos na LMP2, Daniel Serra se consagrou como o primeiro brasileiro vencedor em Le Mans

Por Américo Teixeira Junior

Pódio Geral da 85ª edição da 24 Horas de Le Mans, com Nelson Angelo Piquet no 3º posto (© Jonathan Biche/ACO)

Tamanho é o gigantismo da 24 Horas de Le Mans, com suas características particulares e exclusivas, que desnuda o automobilismo de sua crueldade costumeira, aquela mesma que relega ao limbo todos os perdedores, laureando apenas um, quase sempre elevado momentaneamente à condição de deus. Só que em Le Mans é tudo diferente.

Não há perdedores em Le Mans, uma espécie de “ilha” que, pelo menos por alguns dias no ano, parece nos proteger de todos os males do mundo e até faz ecoar as palavras esperançosas de Charles Chaplin quando conclama: “Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz!” (Trecho do discurso em O Grande Ditador).

Sim, Le Mans tem essa magia e só isso quebra a estrutura do automobilismo como um todo e coloca em parafuso a cabeça de quem nasceu e se criou nas provas sprints. A dinâmica em Le Mans é tão especial que, para espanto daqueles que consomem o automobilismo de forma limitada, lágrimas de felicidade rolam por rostos cansados, após uma maratona que vai muito mais além do tempo e do espaço circunscritos àquelas 24 horas de corrida, independentemente de resultado. Pode parecer impossível alguém chegar entre os últimos e palpitar de alegria, mas em Le Mans os corações e mentes se libertam de amarras e se manifestam de forma pura, tudo motivado por uma mágica própria do lugar.

Essa mutação, muito além da mesquinharia do ganhar ou perder, começa em alinhar em Le Mans, privilégio reservado a poucos pilotos. Não importa se a graduação oferecida pela FIA é Platina, Ouro, Prata ou Bronze. É resultado de uma preparação prolongada poder cumprir todo o roteiro que, dentro e fora da pista, reforça anualmente o porquê ser, essa disputa, a mais importante prova de endurance do mundo.

Ficar pelo caminho é uma lição de humildade. O budget pode ser gigantesco, o trio de pilotos pode ser formado apenas por campeões, os técnicos e engenheiros podem fazer parte do olimpo da alta tecnologia, os estrategistas podem ser mestres no ofício. Nada disso é páreo para os obstáculos impostos por Le Mans. Mesmo assim, em que pese deixarem a simpática cidade francesa de cabeça baixa, é fácil supor que a esmagadora maioria já o faz maquinando o retorno no ano seguinte, afinal, não há derrota diante da persistência realista e desassociada de ilusões pueris.

Passaporte para a história

Daniel Serra e Pipo Derani no pódio da LMGTE Pro; junto com os vencedores, David Richards, o boss da Aston Martin Racing (Foto Aston Martin Racing Media)

Vencer em Le Mans, como o fez esse ano Daniel Serra na categoria LMGTE Pro, é ter um lugar na história do automobilismo. Entender o automobilismo como consequência de sorte ou azar é menosprezar e simplificar possibilidades e alternativas que nada mais são do que resultado do eterno jogo de acerto e erro do trabalho de cada um.

O trio formado pelo piloto da Stock Car e os britânicos Darren Turner e Jonathan Adam completou 340 voltas com o Vantage #97 da Aston Martin Racing. Coube ainda ao brasileiro, em sua estreia em Le Mans, assinalar a volta mais rápida da categoria, com 3min50s950, na 224ª volta da corrida, e com média de 212,4 km/h.

O pódio é uma glória já saboreada antes por nomes consagrados como José Carlos Pace, Raul Boesel, Ricardo Zonta, Alfredo Guaraná Menezes, Paulo Gomes, Marinho Amaral e Lucas di Grassi. Neste domingo, o grupo de brasileiros ganhou novos membros, oriundos da maior representação do país em 85 edições da maratona automobilística, realizada pela primeira vez em 1923.

Em dose dupla

O Oreca 07 Gibson #13 de Piquet, Hansson e Berche por 364 voltas (© Guénolé TREHORE/(ACO)

Nelson Angelo Piquet, 3º na geral e 2º na LMP2, foi ao pódio duas vezes pela performance alcançada ao volante do Oreca 07 Gibson #13 da Vaillante Rebellion. O campeão mundial de Fórmula E revezou-se com o dinamarquês David Heinemeier Hansson e o checo Mathias Berche por 364 voltas. E faltou pouco para ter mais gente do Brasil nesse pódio, pois André Negrão, estreante, ajudou a colocar o Alpine A470 Gibson da equipe Signatech Alpine Matmut na 4ª colocação da LMP2.

Ainda na LMGTE Pro, Pipo Derani obteve mais um feito de peso em sua curta, porém, vitoriosa carreira no endurance mundial. Às vitórias obtidas na 24 at Daytona e na 12 Hours of Sebring, o piloto obteve o 2º lugar com o Ford GT da Chip Ganassi Racing, fazendo trio com os britânicos Andy Priaulx e Harry Thincknell. Foi mais um momento em que o caçula, como já fizera no outro lado do Atlântico, transformou-se num gigante.

Vencer sem vencer

Faltou pouco para André Negrao estrear com pódio em Le Mans (© Michel JAMIN/ACO)

Mas a felicidade de Serra, Piquet e Derani – e por que não dizer de Negrão? – confunde-se com os sentimentos de quem superou o desafio de completar a prova. É algo inimaginável em corridas curtas, estranho, até, para quem ainda não compreendeu a dimensão do endurance. Em Le Mans, tantas são as festas quanto são aqueles que recebem a quadriculada branca e preta.

Nesse contexto, poucos, poucos mesmos são os pilotos que, como Rubens Barrichello, trilharam suas carreiras com passagens na Fómula 1, Indy 500 e Le Mans. Faltava essa última para o recordista mundial de largadas em Grandes Prêmios. Faltava, pois essa lacuna foi preenchida com uma atuação de fôlego na LMP2, fazendo time com os holandeses Jan Lammers e Fritz Van Eerd. Com o Dallara P217 Gibson, o trio conseguiu a 12ª colocação na categoria para o Racing Team Nederland.

Tony Kanaan foi chamado às pressas para o lugar de Sebastien Bourdais, um dos titulares do Ford GT, mas que se encontra em recuperação após o acidente sofrido em Indianapolis. Experiente e vencedor na 24 at Daytona, cumpriu um papel importante na performance do carro #68 da Chip Ganassi Racing, levando para casa um significativo 6º lugar na LMGTE Pro.

Bruno Senna, também na Vaillante Rebellion, fechou a prova em 15º na LMP2, enquanto Fernando Rees, nosso único representante na LMGTE Am, juntou seus esforços aos dos demais membros da equipe Larbre Competition e ajudou a levar o Corvette C7.R à 15ª posição na categoria.

Todos eles queriam vencer? Claro que sim! Mas, de fato, rumaram para seus destinos também como vencedores.

Apesar dos problemas, Fernando Rees completou na LMGTE Am (© Arnaud CORNILLEAU/ACO)

 

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Muito obrigado por participar. Forte abraço, Americo Teixeira Jr.